Adelson Elias Vasconcellos
É claro que manifestações de inconformismo da população são sempre bem vindas. Elas, regra geral, demonstram que nas sociedades em que acontecem ainda respira-se um ar de democracia.
Mas há que se diferenciar o que é uma manifestação por causa justa, daquela que desejam promover apenas o caos. É regra básica que o direito de um não se sobreponha ao direito de outro.
Reparem nestes movimentos, São Paulo e Rio, principalmente, quem dela participa. Além do tal Movimento Passe Livre, financiado como sabemos com verba pública, lá encontraremos defensores das linhas políticas do PCO, PSOL e PSTU. Se alguém conseguir demonstrar uma linha que seja de democracia nas ideias defendidas por estes partidos e seus militantes, poderemos conceder salvo conduto à baderna, à depredação, à anarquia, porque, no fundo, é isto que eles pretendem. Já que pelo voto representativo não conseguem por sua cabeça para fora na cena política do país, então, tratam de promover a baderna para dizerem a que vieram.
Parte da grande imprensa parece ter aderido à causa de fundo das manifestações que se espalham por todo o país. Querem transporte público de graça, e condenam o lucro dos empresários. Porque querem transporte de graça, trataram de avariar só em São Paulo mais de 200 ônibus. Ou seja, chamam a isso de civilização moderna. Não contentes, ainda comparecem às tais manifestações providos de coquetéis molotov, bombas, pedras e saem quebrando e pondo fogo em tudo que encontram pela frente. Isto, chamem do quiserem, mas jamais será uma manifestação em nome de justa causa.
Porém, assim como a saúde pública é de graça (nem tanto, já explico), a educação pública também é gratuita. Inclua-se aí a segurança pública. Pergunto: o fato de serem públicas e de graça, garante a estes três serviços essenciais alguma qualidade mínima? Perguntem a qualquer pessoa que recorra ao SUS, quanto tempo ela perde na vida (quando não a própria) para conseguir fechar o ciclo de consulta inicial, exames laboratoriais, diagnóstico final e medicação. Perguntem. E se quiserem, incluam aí uma simples cirurgia se o tempo de espera não matar o paciente antes!
Ora, o Brasil tem exemplos de serviços concedidos à iniciativa privada que deram certo. Apesar dos problemas, fruto da falta de antenas que não se consegue instalar dado o cipoal de diferentes regras municipais, a telefonia e as comunicações em geral somente deram um salto de qualidade a partir das concessões. Sem contar com os bilhões de investimentos e milhares de empregos que o processo gerou. Antes, telefone era artigo de luxo, exclusividade das elites.
Além disso, é uma falácia que o poder público forneça alguma coisa de graça para a população. Quanta custa a taxa de recolhimento de lixo? E a iluminação pública? E quantas outras taxas precisamos pagar, além dos impostos, para sermos atendidos por serviços essenciais? E, nem por isso, mesmo com o pagamento, conseguem garantir que os mesmos sejam fornecidos com um mínimo de qualidade.
Assim, não é o fato deste ou aquele serviço ser fornecido e bancado pelo poder público que garantirá qualidade. Pelo contrário. Como os governos, regra geral, têm a desagradável mania de gastar em outras “despesas” o dinheiro que recebe do contribuinte, é fácil constatar que o dinheiro acaba desviado para outros fins, e os serviços públicos tendem a se deteriorar. Não é a gratuidade, portanto, o problema. O problema é que, no Brasil, o povo brasileiro se contenta com discurso de político, e quando vai às ruas protestar, protesta contra os efeitos dos maus gestores, e não contra os gestores, propriamente dito. E atenção: estes eleitores acabam, invariavelmente, reconduzindo para mandatos sucessivos, os mesmos políticos irresponsáveis causadores da degradação dos serviços públicos.
Que o povo proteste é um direto, por certo, porém que o faça direcionando seus gritos aos maus gestores públicos que desviam, com a maior cara de pau, os recursos que deveriam devolver à sociedade na forma de serviços dignos.
A educação vai mal, a saúde pública vai de mal a pior, a segurança pública está um caos. Já nem vou falar da infraestrutura que é uma vergonha. Para todos estes serviços pagamos altos impostos, que representam cerca de 38% do PIB, ou seja, de toda a riqueza que produzimos num ano. Pois bem, sabem quanto o poder público reinveste em favor destes serviços? Menos de 2% do que recebe. Quem são, portanto, os homens maus deste país, os empresários com sua mania de lucro, apesar dos empregos, renda e impostos que produzem, ou os gestores públicos que desviam o dinheiro para outros fins?
A família Sarney manda na política do Maranhão há mais quarenta anos, o estado tem um dos baixos índices de desenvolvimento humano do país e, nem por isso, os membros do clã deixam de ser eleitos e reeleitos para mandatos sucessivos em prefeituras, governo estadual e Congresso. E, como eles, há milhares de exemplos país afora que ilustram o quanto, como cidadãos, somos, também, omissos.
Se é, portanto, para reclamar, olhemos primeiro para nós. Somos cidadãos livres, temos o poder do voto. E o que, afinal estamos fazendo com este poder, estamos escolhendo as pessoas certas, ou repetindo, eleição após eleição, as mesmas más escolhas?
Além disto, se é para protestar, protestemos contra quem provoca a degradação não de um, mas de todos os serviços públicos, que são prefeitos, governadores e, jamais esquecendo, presidente da república.
Peguem qualquer pesquisa de opinião sobre o governo federal. Não há um só miserável serviço de responsabilidade da União, que consiga ultrapassar a barreira do “regular”. É dão para baixo. E, nem por isso, a presidente da República deixa de ter uma aprovação elevada. Contradição? Por certo, mas, quem, senão a presidente da República, é a maior responsável pela degradação destes serviços?
Deste modo, será oportuno que cada um de nós refleta se, para protestar, estamos, como cidadãos e eleitores, fazendo a nossa parte. Porque, meus caros, reclamar da Copa das Confederações e do Mundo no dia do primeiro jogo, é fácil. Porém, o Brasil foi escolhido como sede em 2007, e poucas foram as vozes que se levantaram contra a indicação, por entender que torraríamos uma fortuna que falta à educação, à saúde e à segurança pública, fora rodovias, ferrovias, portos e aeroportos. A maioria, no dia da indicação, foi para as ruas fazer festa.
Transporte público, tenha ele o colorido que tiver, público ou privado, tem custos que precisam ser bancados. Perguntem nas delegacias se há grana suficiente para manutenção dos carros empregados pelo policiamento. Perguntem nos hospitais e até no SAMU, quantas são as ambulâncias paradas e fora de serviço, por falta de consertos, reparos e manutenção? Dinheiro há, sim, o que falta é competência e honestidade de prefeitos e governadores e até do governo federal para cumprirem com suas obrigações. Assim, se alguém acha que, por ser público, o serviço terá melhor qualidade, vai morrer na ilusão. Porque, senhores, no dia em que, de fato, fizermos uso correto do nosso voto, e pararmos de escolher políticos ruins, e comprovadamente gestores públicos incompetentes e irresponsáveis, talvez nosso grito passe a ter importância para aqueles que deveriam administrar o dinheiro que retiram da sociedade com maior seriedade e responsabilidade. Até lá, nosso grito vai cair num imenso vazio.
É oportuno lembrar ainda, que a maioria das prefeituras está quebrada, sem dinheiro. Portanto, sem capacidade de assumir a responsabilidade do transporte público. Vivem dos favores repassados pelo governo federal em troca de alianças políticas. Ideli Salvatti declarou, na semana passada, que o Congresso faz chantagem com o governo federal. Trata-se apenas da reciprocidade, porque, na hora de liberar verbas retidas pela União, a chantagem do governo federal é ainda maior e visa, não o interesse público, e sim sua exclusiva manutenção no poder.
Além disso tudo, nunca é demais lembrar que o PT está no poder há mais de dez anos e acabará fechando um ciclo de 12 no total. Pois bem, TODOS OS SERVIÇOS ESSENCIAIS, neste período, se deterioraram. Falta de recursos é que não foi. Foi a dupla combinação de falta de projeto para o país e incompetência. Lembrem-se disto em 2014.
E um detalhe: muito embora o transporte público tenha sido entregue à iniciativa privada, isto não elimina a obrigação do Poder Público de fiscalizar e cobrar melhorias das empresas concessionárias. Não é simplesmente repassar e achar que todos os problemas estarão resolvidos. É sua obrigação fiscalizar, é sua obrigação cobrar resultados, é sua obrigação exigir qualidade e melhorias. Portanto, se a qualidade é ruim, e é, as administrações públicas devem ser responsabilizadas por sua negligência e omissão.
Porém, é visível a insatisfação que vai tomando conta do país. Não pensem que são apenas os jovens que estão indo às ruas. O clamor popular é perceptível em todas as faixas etárias e de renda. E, olhando-se o Brasil de nossos dias, o que não faltam são razões para tanto protesto. Ouvir o que a sociedade tem a dizer, o que a preocupa, o que a infelicita deve ser obrigação maior de quantos pretendam chegar à vida pública. Há muitas questões que precisam ser pensadas a respeito.
O tema não se esgota por aqui. Há muito para ser analisado.Mas isto ficará para outro artigo.


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