Adelson Elias Vasconcellos
Aquela senhora, que habita de forma soberana o Planalto, vendeu, ao grande público, uma descomunal mentira no lançamento de um novo programa apelidado de social mas que, no fundo, não passa de um arremedo para angariar votos em 2014, e ainda poder ensaboar sua queda nas pesquisas.
A lorota é a de que as famílias brasileiras têm direito a ter acesso aos bens de consumo do mundo moderno. Pergunta: quem, dentre os mais de 190 milhões de brasileiros, está proibido de ter acesso aos bens de consumo do mundo moderno? Além disso, e conforme as regras do programa, quem delegou o poder de ditar aos brasileiros o que devem comprar ou não, e ainda impor limites para estas compras? Por que os pobres só podem comprar "coisas baratinhas"? A isto se chama de preconceito e exclusão.
Nem aqueles que têm seus nomes inscritos nos SPC’s da vida vivem tal situação, isto é, a de estarem impedido ao acesso ao bens do mundo moderno. Podem muito bem comprar à vista. Assim, ninguém está impedido de comprar, de adquirir, de consumir. Precisa apenas que tenha renda suficiente para bancar seus sonhos. Conceder crédito além da capacidade de pagamento de cada um é, sim, uma operação eleitoreira.
Digamos que todos comprem e gastem os R$ 5.000,00 a que tem direito. Beleza, como se trata de uma dívida para ser paga em 48 meses, pergunta: quem não tiver renda suficiente para pagar o montante da dívida, vai acontecer o quê? Outra questão: o valor das prestações poderá comprometer até quanto da renda de cada um?
Trata-se, meus caros, de uma armadilha. Mesmo que o programa se complete sem nenhum tipo de percalços, há duas pernas que precisam ser olhadas com critério. A primeira entendo ser ilegal. Segundo o Código de Defesa do Consumidor, ninguém está obrigado a comprar um bem serviço ou serviço que esteja vinculado a consumir outro bem ou serviço. No caso, o crédito e a financeira serão de exclusividade da Caixa Econômica Federal e Redecard . Ou seja, qualquer pretendente a usufruir do tal benefício, só poderá fazê-lo tomando empréstimo da Caixa Econômica e o seu financiamento só poderá ser concedido pela Redecard. Assim, se alguma loja tiver outros vínculos com bancos e financeira danou-se.
A segunda questão é que o empréstimo tem encargos, e os bens que serão vendidos tem tributação. Ora, estes encargos pertencerão à Caixa, e a tributação vai para os cofres do governo. No caso da Caixa, os recursos virão do Tesouro, na forma de capitalização. Deste modo, os encargos irão engordar os lucros da Caixa. Pelo governo, se o programa for sucesso de público e renda, no mínimo, e apenas a título de tributos, o programa engordará seu caixa em cerca de R$ R$ 8,0 bilhões. Acrescentem a este total mais os encargos financeiros, e a gente terá o tamanho da bocada que o governo tomará dos pobres beneficiados, em troca de “bens de consumo do mundo moderno”.
A pergunta que faço é quem, de fato, é o beneficiário do programa? Ganha o governo, e duplamente. De um lado, engordará seu caixa de maneira explosiva por retirar dos pobres bilhões de reais pelo consumo facilitado. De outro, lançado a um ano do período eleitoral, terá o dom de recuperar os índices de Dilma nas pesquisas e alavancar de maneira soberba sua reeleição.
E o país como fica? Vejam, sabe-se que o país precisa, prioritariamente, de investimentos para impulsionar seu crescimento. A resposta do governo, é retirar 18 bilhões para incentivar o consumo, grana esta que não irá aumentar os investimentos, pelo contrário, irá reduzi-los pela menor disponibilidade.
Golpe de mestre? Sem dúvida, mas considerando-se os objetivos implícitos embutidos no programa, trata-se de ação de velhacos.
No lançamento desta ação de marketing, a soberana do Planalto, no melhor estilo canalha, aproveitou para criticar seus críticos. Ora, se ela pode criticar, por que o resto do país não pode, também? Qual a bronca, minha senhora, ou será que devemos baixar a cabeça e solenemente dizer amém para todas as ações do governo, certas ou erradas? Se queria governar um país sem críticos ou oposição, que fosse ser candidata na a sua amada Cuba.
O Brasil ainda é uma democracia, ainda está em vigor a Constituição de 1988, (apesar dos remendos), e esta nos garante a liberdade de expressão e opinião. Lá não está escrito que esta opinião seja apenas do elogio fácil, mesmo que seja falso. Criticar e ser contra o governante no poder, é um direito que assiste a todos. E, afinal de contas, o que consagra uma democracia, é justamente a existência de oposição. Na ditadura, todos são a favor.
Rotular a oposição da forma como a velhaca do palácio fez, demonstra não um grau de erudição, de cultura superior. Mas, além de ofensiva, denota uma baixaria ressentida contra quem tem o pleno direito de ser contra. Até porque não é a oposição a culpada pelo baixo crescimento, pela alta da inflação, pela precariedade dos serviços públicos, pelo descontrole das contas públicas, pelo saldo negativo na balança comercial, pela desvalorização do real, etc.
Leviandade política grave é se opor ao direito da crítica livre.
Leviandade política grave é transferir para a oposição a má condução da economia do país.
Leviandade política grave é consumir meio mandato presidencial sem apresentar um miserável projeto de desenvolvimento, calcando suas ações apenas com olhos postos nos palanques eleitorais de 2014.
Leviandade política grave é balizar as políticas públicas pelo viés da marquetagem política, apenas para agradar a torcida.
Se existe crítica não é para desqualificar o governo, e sim para alertá-lo dos desvios de rota que acabam por prejudicar a todos, inclusive o próprio projeto de poder do partido da velhaca.
Quem implantou a política do quanto pior, melhor, foi o próprio partido da soberana, ao tempo em que era oposição ao governo dos outros, governos que foram amplamente sabotados pelo PT, que agora quer negar o direito aos demais partidos de ao menos exercerem seu direito cívico de ser oposição ao governante de plantão.
A citação ao Velho do Restelo, personagem pessimista de Luís de Camões que aparece em seu clássico Os Lusíadas, melhor se enquadraria aos.personagens de seu próprio partido. No Rio Grande do Sul, Lula referindo-se ao combate à inflação, afirmou categórico de que as pessoas esquecem de que, não há muito tempo, a inflação chegava a mais de 80%. Pois bem, qual programa acabou com a inflação galopante que atormentou o país por quase duas décadas? Se houver honestidade na resposta, ela será o Plano Real. E quem, senão o PT e seus líderes e comandantes, se posicionou contra o Plano Real e todas as reformas por ele traçadas? Quem se colocou contrário à Lei de Responsabilidade Fiscal que trouxe ordem e disciplina aos gastos públicos? Quem se colocou contrário, e chamou de esmola eleitoreira, os programas sociais de distribuição implementados no governo FHC, e mais tarde englobados sob um mesmo nome e sobrenome? Restelo, ao contrário da afirmação tosca e de uma ignorância soberba, era um velho experimentado e sábio, sereno e contido. A encenação presidencial se aproxima muito mais dos petistas ao tempo de oposição, portanto.
Mais do que ser um velho pessimista na obra de Camões, o que revela completo desconhecimento da obra, é ser um velhaco que faz questão de ignorar os bons frutos semeados no passado, e querer recontar, a seu modo cafajeste, a própria história do país. É condenar os governos passados, e depois, de modo cretino, roubar o chapéu e cumprimentar o eleitorado como se dono do chapéu fosse.
Quanto a ter a última palavra, senhora Dilma, não tente ser pitonisa, roubando o direito que o povo brasileiro tem de escolher governantes e desenhar seu próprio destino. O seu partido não tem a exclusividade da verdade. E saiba, por fim, que outras nações, seguindo por outros caminhos, foram muito mais longe do que o Brasil nas mãos do PT. É só saber ler as estatísticas. Porque, no fundo, quem está atravancando o crescimento do Brasil, com pibinhos ridículos, tem sido justamente seu governo com este otimismo de beira de estrada.
Quanto às ironias zoológicas de seus ministros, poderíamos lembrar—lhe do espécime macaco, que tem a mania de sentar sobre o próprio rabo, para ninguém o veja, e assim poder discursar sobre o rabo alheio. Que cada um cuide do seu, porque não discursos de falsa erudição, que colocarão enfeites numa economia bagunçada como a de seu governo.
Não precisa ir até Camões para conhecer o Brasil de hoje. Basta que tenha olhos de ver, e ouvidos de ouvir. Não se deixe adular pelo elogio fácil. Quem critica o faz por pensar e querer o melhor, e acaba se tornando mais aliado do que o mais bajulador dos companheiros mantidos sob cabresto.