terça-feira, novembro 28, 2006

Fica combinado assim

Fábio Grecchi, na Tribuna da Imprensa
.
O PT tem uma história de pensar mais com o fígado do que com o cérebro. Durante os anos de Fernando Henrique Cardoso, foi pródigos em denúncias, protestos e pedidos para que o ex-presidente jogasse a toalha e saísse pela porta dos fundos.
.
Em muita coisa até tiveram razão, mas em outras - e hoje se vê melhor à distância - era pura reação raivosa, hidrófoba, ao adesismo que sempre foi marca da política brasileira. FHC contava apenas com o PFL e o PSDB, mas via benesses cooptou as demais legendas que hoje se seguram no balaústre do bonde de Lula.
.
Tanto que os petistas, sempre que podem, compram briga com a imprensa. O presidente em exercício do partido, Marco Aurélio Garcia, foi absolutamente claro ao afirmar, em entrevista publicada sábado, que os anúncios do governo deveriam sair apenas naqueles veículos que estão com o Palácio do Planalto. Quem critica ou ousa ser voz discordante deveria comer o pão que o diabo amassou. Onde quer que esteja, Lourival Fontes rendeu emocionados aplausos.
.
Mas não é apenas isto. Assusta ouvir alguns comentários de petistas sobre o crescimento do espaço do PMDB no governo: vão desde posições mais ponderadas, como a disputa legítima pela manutenção do atual espaço do partido, ao boicote puro e simples do novo colega de ministério. E não são bagrinhos que defendem tais opiniões, mas gente com poder de movimentação no partido, muitas de projeção nacional.
.
Lula pode até achar que tem o PT na mão. Quando manda a legenda recuperar o próprio passado, voltando a ser referência em matéria de ética na vida pública, é um incômodo puxão de orelhas. Na reunião da executiva do partido já houve época em que as pessoas ficavam mais constrangidas com uma admoestação destas. Atualmente, há quem considere que é ranhetice do presidente da República.
.
São justamente esses que preocupam. Pertencem àquela parcela que tomou conta da máquina pública, sem qualquer credencial ou competência, para criar uma burocracia no melhor estilo soviético. São os que criam braços paralelos de atuação pública, à sombra do partido - mas não sem o conhecimento de personagens de peso -, para atuar em operações de sabotagem política.
.
Os tais "aloprados" eram uma espécie de "skunkworks divison" (ou "plumbers", para usar a comparação com o pessoal de Watergate, que esta coluna habitualmente lembra), cuja extensão ainda não se tem noção exata. Trocam telefonemas e conversam sem muito cuidado sobre formas de solapar o PMDB.
.
As movimentações para a escolha dos presidentes da Câmara e do Senado serão o primeiro campo de batalha. Os peemedebistas, macacos velhos, estão à espera de pequenas sabotagens vindas do PT e acham que será o evento ideal para que o véu de bom-mocismo caia. Resta aos petistas surpreenderem e conseguirem controlar a turma chegada a um subterrâneo.

Fala sério

por Carlos Alberto Sardenberg,
Publicado no site do Instituto Millenium
.
Entre as ousadias solicitadas pelo presidente Lula, estão oferecendo uma sensacional: economizar R$ 50 bilhões, em três anos, só com um choque de gestão no governo e no INSS.
.
Trata-se de uma fortíssima redução de despesas, equivalente a 2,5% do Produto Interno Bruto atual ou um corte de 20% nos gastos previdenciários.
.
Duas coisas espantam. Uma é o tamanho da economia – e sem a aplicação de mudanças estruturais, inclusive na Previdência, como a aplicação de idade mínima para aposentadoria ou a desvinculação do piso previdenciário do salário mínimo, duas “maldades” que o governo rejeita.
.
O segundo espanto vem disso mesmo – a gestão pública deve ser a pior e a mais corrupta do mundo, para que seja possível cortar tudo isso só com eficiência e honestidade, os ingredientes de um choque.
.
Só por aqui já dá para desconfiar que estão exagerando nas contas. Mas tudo bem, admitamos que se consegue essa economia de R$ 50 bilhões em três anos. Sabe quanto duraria? Uns sete anos, numa hipótese bem conservadora e considerando-se apenas os gastos previdenciários.
.
Hoje, 16,5 milhões de beneficiários do INSS recebem o salário mínimo e esse número aumenta 450 mil por ano, na média dos últimos oito anos. Partindo daí e supondo que o salário mínimo terá daqui em diante apenas o reajuste pela inflação – de 4% ao ano, sem nenhum ganho real – em 2013, com o mínimo valendo R$ 470,00, aqueles R$ 50 bilhões teriam sido inteiramente consumidos.
.
Ou seja, um enorme esforço de gestão, ao longo de três anos, seria consumido nos quatro anos seguintes só com a correção do salário mínimo. E isso sem a concessão de aumento real, hipótese que o presidente Lula rejeita de imediato. Assim, supondo ganhos reais anuais de 5% para o mínimo, a economia do choque não dura mais que quatro anos. A partir de 2010, o déficit da Previdência voltaria a subir só por conta do aumento do salário mínimo, considerando-se que todas as demais despesas teriam permanecido constantes em valores nominais, com reajuste zero ao longo do período.
.
Eis uma ilustração da mágica que o presidente Lula está querendo com o pacote pró-crescimento. Mesmo que se consiga uma brutal – e improvável – redução de gastos, sem a aplicação de qualquer maldade, e imaginando hipóteses inviáveis, como o congelamento das aposentadorias acima do mínimo, o déficit previdenciário reaparece em pouco tempo do jeito que está hoje, crescente e insustentável. E o gasto público retoma sua tendência de crescimento.
.
Além disso, no setor privado, de onde vêm essas idéias, não há choque de gestão sem redução de pessoal. Isso seria uma verdadeira ousadia no setor privado, mas praticamente impossível com a legislação vigente. E alguém acredita que o presidente Lula e seus colegas sindicalistas topariam demissões?
.
Quando rejeitou a primeira versão do pacote levado pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, o presidente Lula reclamou da “mesmice” das medidas. Reclamou também, conforme relato de petistas que estiveram com ele, dos economistas que só falam a mesma coisa. E teria levantado, conforme esse mesmo relato, algumas sugestões de ousadia, como a possibilidade de aplicar dólares das reservas internacionais em investimentos públicos internos.
.
Ou os interlocutores entenderam mal ou o presidente entende mal de finanças públicas. Não existe a menor possibilidade de se utilizar reservas internacionais com essa finalidade, dirão os economistas, no que é uma mesmice, óbvio ululante universal.
.
Este colunista até desconfia quem é o economista que anda sugerindo essas ousadias ao presidente Lula. Deve ser o mesmo que sugeria coisas parecidas ao então presidente Itamar Franco, que as comprava sem vacilar e passava a questionar o pessoal de sua equipe econômica. Para a pura diversão daquele economista, tão ousado quanto gozador.
.
Em resumo, toda vez que o governante começa a reclamar medidas ousadas, diferentes e novas é porque não se conforma com a realidade, sempre aborrecida. No caso brasileiro, o caminho é: encolher o setor público como proporção do PIB, abrir caminho para o investimento privado. Por exemplo: privatizar é correto, quer seja por concessões ou Parcerias Público Privadas (PPPs).
.
Também é uma obviedade que o sistema de gastos públicos está construído de tal modo que será difícil e demorado reformá-lo. Vai levar muito tempo e muita medida quadrada – como não dar aumento real ao salário mínimo – para começar a reduzir o gasto corrente do governo.

A imprensa lubrificada

Por Diogo Mainardi / Revista Veja
.
Quando a IstoÉ publicou a entrevista com o chefe dos sanguessugas, sugeri que ela poderia ser recompensada com anúncios da Petrobras. Ninguém deu bola para o assunto. Na ocasião, indiquei o nome dos intermediários: Hamilton Lacerda, assessor de Aloizio Mercadante, e Wilson Santarosa, diretor de marketing da Petrobras. Agora a CPI dos Sanguessugas revelou que os dois trocaram dezenas de telefonemas no período de negociação do dossiê contra os tucanos. A CPI quer saber se o dinheiro para comprar o dossiê saiu da Petrobras. É perda de tempo. O que a CPI deveria investigar é se o dinheiro da Petrobras foi usado para comprar a cumplicidade da IstoÉ.
.
Na última quarta-feira, encontrei mais um dado comprometedor para a Petrobras. Analisando os telefonemas de Hamilton Lacerda, em poder da CPI, descobri que ele recebeu uma chamada do celular de Dudu Godoy. Dudu Godoy é um dos sócios da Quê, a agência de propaganda que atende a Petrobras e controla a verba publicitária da empresa. O telefonema de Dudu Godoy para Hamilton Lacerda ocorreu em 5 de setembro, às 15h33. Dois dias depois, em pleno feriado de 7 de setembro, Hamilton Lacerda foi à IstoÉ para combinar a entrevista com o chefe dos sanguessugas. Dudu Godoy fez carreira em Campinas, assim como Wilson Santarosa, que presidiu o sindicato dos petroleiros local. Em 1998, ele foi um dos marqueteiros da campanha de Lula à Presidência. A seguir, passou a trabalhar para Marta Suplicy e Zeca do PT. O que é que Dudu Godoy disse a Hamilton Lacerda? Ele propôs um pacote publicitário para a IstoÉ?
.
Um dos articuladores da entrevista com o chefe dos sanguessugas disse que a IstoÉ foi escolhida para publicá-la porque os petistas "estavam em guerra" com o resto da imprensa. Quem também está em guerra com o resto da imprensa é o presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli. Na semana passada, ele acusou o Globo e a Folha de praticar "jornalismo marrom". Isso porque os jornais ousaram publicar reportagens mostrando o favorecimento da estatal a ONGs e empreiteiras ligadas ao PT. O Globo, em editorial, atacou: "Nunca como no governo Lula a Petrobras foi tão usada como aparelho partidário e instrumento de propaganda".
.
O fato é que a Petrobras não favorece apenas ONGs e empreiteiras ligadas ao PT. Ela favorece também a imprensa caudatária do governo. De maio a setembro de 2006, segundo o levantamento de Reinaldo Azevedo, a IstoÉ veiculou 58 páginas de anúncios da Petrobras. Neste ano, pelos dados do Ibope Monitor, foram 2,6 milhões de reais investidos pela estatal na IstoÉ. Carta Capital lucrou ainda mais, proporcionalmente à sua tiragem. Foram 789.000 reais. Na TV aconteceu algo semelhante. A Bandeirantes, depois de ceder um canal ao filho de Lula, tornou-se a segunda maior arrecadadora de comerciais da Petrobras, na frente do SBT e da Record, faturando mais de 20% do total destinado pela empresa às emissoras de TV. Detalhe: o diretor de marketing da Petrobras, Wilson Santarosa, é também o presidente do conselho deliberativo da Petros, o fundo de pensão da Petrobras. Um de seus colegas na diretoria da Petros, Jacó Bittar, é o pai dos sócios do filho de Lula.
.
O petismo está em guerra com a imprensa. Esse negócio vai acabar mal.

Só falta a reforma do juízo

Por Guilherme Fiúza / Política & Cia. / No Mínimo
.
O disparate continua. Lembram-se da idéia onipresente da tal reforma política?
.
Era a salvação da lavoura, não era? Pois bem, ela sumiu. E ninguém sentiu falta.
.
Reforma fiscal? Deixa pra lá.
.
Não deixa de ter um lado tranqüilizador a constatação de que a agenda política brasileira não tem nada a ver com a realidade. Pelo menos, o país fica livre daquele monte de bobagens que domina 90% do debate.
.
Mas a reforma realmente urgente e inadiável – aquela que a opinião pública deveria cobrar para valer, em vez de ficar repetindo esse mantra inútil de reforma política – é a reforma do juízo. O que a oposição fez com o país essa semana não se faz nem com os aloprados do dossiê.
.
A proposta de pagamento de um 13º para o Bolsa Família é um dos momentos mais nobres da hipocrisia nacional. É preciso lembrar o seguinte: um dos bordões de Geraldo Alckmin, daqueles que não deram o menor resultado, mas que expressavam o ideário “moderno” de PSDB e PFL, era justamente o que ligava a eficiência à ética.
.
Resumindo, o candidato da oposição pregava que a conduta ética, hoje, não é mais só não roubar. Administrar bem, alcançar tecnicamente o melhor uso para o dinheiro público – isto é, ser eficiente – também é um capítulo central da ética.
.
E o que PSDB e PFL fazem com essa pantomima de 13º para o Bolsa Família? Criam deliberadamente um constrangimento orçamentário, forjam um ato de bondade populista para jogar sobre o governo o ônus de restituir a responsabilidade com o dinheiro público.
.
Ou seja: um show de falta de ética – aquela mesma ética exaltada no dicionário da oposição durante toda a campanha.
.
Enquanto o Brasil praticar essa política de rincão, em que as instituições não importam e a responsabilidade pública não passa de um constrangimento para quem está governando, toda essa conversa de reformas estruturais não poderá ser levada a sério.
.
Antes de mais nada, é preciso fazer a reforma do juízo. Antes do choque de gestão tem que vir o choque de vergonha na cara.

Previdência: bola da vez

Por Francisco Marcos, publicitário e cientista político
Publicado no Prosa & Política

.
Entra governo, sai governo e a previdência é a bola da vez, até parece que solucionando o eterno problema previdenciário teremos extirpado o câncer, síndrome da deficiência imunológica adquirida e outros males menos cogitados. Previdência significa precaução, previsão, voltando para a nossa Previdência Social até o léxico é esquecido. Desde a sua criação ela vem sendo saqueada, fraudada, e o interessante é o alegado déficit, que inexiste pelo que passo a expor. Brasília foi construída com dinheiro da Previdência, bem como Itaipu, Transa a Amazônica (conhecida como estrada das onças), ferrovia dos mil dias e de intermináveis noites. Esse dinheiro foi reposto, acompanhado da respectiva atualização?
.
A leoa das Alagoas vive clamando por um encontro de contas, todos se fazem de desentendidos, a transparência existe ou é mais uma filigrana como ética?Nos anos militares criou-se o FUNRURAL, aposentadoria para os lavradores, uma maneira anestésica para acalmar o campo. Tiveram a precaução de saber de onde tirar o dinheiro necessário? Já que nunca os lavradores haviam recolhido contribuições. Vargas não se lembrou dos agricultores, sendo um estancieiro não poderia arrumar despesas para seus colegas, e mais à frente para o PSD. Durante anos parte da arrecadação previdenciária era destinada à saúde, fugindo da finalidade que era e é de tratar de aposentadorias e pensões. Este desvio foi corrigido devolvendo-se o numerário despendido?Do crédito previdenciário nada fala, pois será mexer em vespeiro, é politicamente incorreto tratar de tal assunto.
.
Como está a situação das prefeituras, empresas de ônibus (principalmente urbanas), clubes de futebol e dos chamados esportes olímpicos, fundações. Erundina quando prefeita de São Paulo tentou consertar a situação com respeito à Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, tentando conceder isenção de IPTU apenas para os imóveis destinados à atividade principal da Santa Casa. Os imóveis alugados deveriam pagar IPTU, exemplificando um deles: prédio do antigo Mappin defronte ao Teatro Municipal. Em Campinas também temos procedimento semelhante com a Santa Casa, No entorno há várias clínicas particulares que pagam aluguéis pagam IPTU? Estes ralos são chamados de elisão fiscal. Agora este terrível problema é novamente a bola da vez. O Gerdau acolitou o mineiro Falconi até ao presidente para oferecer sugestões a respeito. Um ministro, que não é o da Previdência qualificou a proposta de "ovo de Colombo". Uma maneira jocosa de desqualificar Falconi, possuidor de um notável currículo, voltado tanto para a área empresarial como governamental. Esta é a maneira petista de praticar o tão decantado diálogo, e dizer que foi amplamente discutido com a sociedade. Este boquirroto desqualificador não serve para amarrar o cadarço do sapato de Falconi.Élio Gáspari também deu sugestões úteis em sua coluna, será levado em consideração? Um mísero mortal de meu relacionamento sugere: camelôs existem, um dia irão se aposentar pelo LOAS, deveriam quando de seus recadastramentos junto às prefeituras apresentarem o carnê de contribuição como autônomo do ano anterior. Se doméstica recolhe proventos para a aposentadoria e os camelôs não, temos uma odiosa discriminação. Como fica o "Brasil um país para todos"? Ou involuiu para "Brasil um país de tolos".
.
Vamos jogar limpo minha gente, jogo de bicho paga imposto, o pessoal da corretagem recolhe previdência. Quais impostos recolhem os bingos. Chega de mistificação, coloquem a situação passada, presente e futura de uma maneira inteligível, dando nome aos bois. Nenhum governo brasileiro tem moral para ficar ditando regra comportamental, é o maior caloteiro, não honra contratos, sabe cobrar dos que mais precisam e faz de desentendido com as mais diversas situações que levam a nação a este descalabro que não é de hoje.

Rap da empulhação

Editorial da Folha de São Paulo
.
VITORIOSO NAS eleições, o presidente Lula passou a trilhar nas últimas semanas um percurso melancólico. Investe o capital obtido nas urnas em promessas vagas e messiânicas de aceleração do crescimento econômico, enquanto a realidade dos acordos partidários se impõe no tráfico fisiológico de sempre.
.
Seja nas conversações entre os formuladores de seu partido, seja nos encontros com os líderes de uma provável base de governo, o que ressalta nas atitudes de Lula é a falta de alternativas e soluções para o impasse econômico em que se encontra o país.
.
No círculo presidencial se chega à conclusão de que é preciso investir na habitação popular, doar dinheiro para famílias pobres conquistarem moradia. Algo parecido com uma idéia, enfim. Mas a caridade seria feita a expensas alheias, com a poupança do trabalhador forçado a contribuir todo mês com o FGTS.
.
Outro lampejo: incentivos bilionários para empresas que constroem fábricas, expandem linhas de produção e compram máquinas; alívio no INSS para firmas que empregam muito. Não se lobriga, no entanto, como a conta vai fechar. Por que meios o Tesouro será ressarcido da benevolência ninguém diz -ou deixa para divulgar a fatura mais à frente, embutida num pacote de Natal enviado ao Congresso.
.
Há que cortar gastos. Mas onde? Contra quem? Taxas pífias de investimento público ameaçam estrangular qualquer projeção otimista para o PIB dos próximos anos. Aumentá-las, pela via de um acréscimo na carga tributária, surge no atual ambiente econômico como temeridade a que, nem mesmo em seus acessos mais delirantes -e rápidos quando se trata de verberar a liberdade de imprensa-, o petismo se arrisca a praticar.
.
Propor uma reforma tributária que elimine as distorções em vigor -amplamente favoráveis às pessoas de renda mais alta, enquanto penalizam o assalariado de baixa renda- não consta da agenda presidencial.
.
A redução nos gastos da Previdência, envolvendo reforma num sistema que cerca de privilégios parcelas importantes da população, ainda em plenas condições de atividade, esboça-se sem clareza, e sem garantias de viabilização política, nos bastidores da composição ministerial.
.
Esta se faz, afinal, sem rumos, sem propósito, sem programa. O lema da retomada do crescimento se repete com a monotonia de um rap, de uma ladainha, de uma ação de graças: Lula venceu, quer o crescimento, não sabe como, pede propostas, ministros virtuais se apressam, são tímidos e medíocres, Lula não está contente, Lula pede mais propostas, seus aliados pedem mais cargos, Lula pede mais crescimento, não sabe a quem, não sabe como.
.
Nesse nauseante bate-estaca se apresenta, enfim despojado dos marqueteiros, o político que a maioria reconduziu ao Planalto: desnorteado e conciliatório, vago de propostas e confuso, girando em torno do próprio eixo no ritmo da empulhação.

Peguei um ita ...

Por Ralph J. Hofmann, publicado no Prosa & Política
.
Peguei um Ita no Norte
Pra vim pro Rio morá
Dorival Caymmi

.
Vamos admitir. Aquele político do nordeste que pedia que o governo estabelecesse uma linha de itas até Brasília para que o povo do nordeste pudesse visitar a capital federal tinha razão!
.
Eu costumava ter uma coleção da revista Time que se estendia de 1932 a 1958. Era um lote de revista que comprara num sebo. Anos atrás alguma alma de não-compreensiva deu a coleção para um papeleiro, mas certas coisas a gente não esquece.
.
Em 1953 essa revista fez um artigo de página inteira sobre o Brasil, que considerava um dos países de vanguarda no uso do avião.
.
O avião chegava nos recônditos do país antes do jipe. Em pequenas oficinas começava-se a produzir peças como pistões para motores, e outras peças para os aviões em uso corrente. A Neiva fabricava seus pequenos aviões de instrução.
.
As linhas aéreas aventureiras haviam dado lugar a empresas bem organizadas.
Com o passar dos anos qualquer indício de prosperidade imediatamente redundava em pessoas tomando um avião. O brasileiro era, e é, viciado em tomar avião. É moderno.
.
Eis que subitamente, em termos relativos, estamos de volta ao anos 30 do Século XX. Onde estão os Itas? O Lloyd Brasileiro os perdeu e fechou.Aqui vai uma sugestão. Que um bom empreendedor desloque alguns navios de passageiros à costa brasileira. Denomine-os Itanagé, Itaquicé, Itaparica, Itamaracá, Itapetininga e por aí afora.
.
Para um gaúcho bastará tomar uma embarcação rápida de Porto Alegre a Rio Grande. Lá subirá num Ita. O passageiro tomará o café da tarde ao largo do Rio Mambituba, jantará perto de Florianópolis, no dia seguinte trabalhará em seu Notebook e com seu Celular ou com telefone “ship-to-shore”, ou então fará sauna, musculação e praticará tiro-ao-prato, e na manhã seguinte estará em Santos de onde irá a São Paulo em ônibus especial, chegando descansado e com ânimo para triturar seus inimigos comerciais.
.
Os aeroportos ficarão às moscas.
.
Os turistas de feriadão nem mesmo tentarão chegar a hotéis nas praias de Porto Seguro. Se limitarão a singrar pela costa brasileira descansando.Ainda não sei como fazer um Ita chegar a Brasília, mas tenho certeza de que o Governo Lula resolverá este problema.

Algo estranho acontece no ar

Por Augusto Nunes no Jornal do Brasil
.
“O único avião que sai na hora (com deslumbrados convivas) é o Aerolula”, constatou o jornalista Elio Gaspari. E na hora escolhida pelo Primeiríssimo Piloto, pode-se acrescentar. Enquanto o rebanho nacional de passageiros espera, amontoado nas salas de embarque, pousos e decolagens que só existem na cabeça do ministro Waldir Pires, o presidente governa partidas e chegadas pontualíssimas.
.
O desfrute desses requintes a bordo do grande pássaro da pátria tem seu preço, começa a desconfiar o resto do Brasil. Para milhões de flagelados do apagão aéreo, o anúncio de atrasos de uma hora já ecoa como graça alcançada. Reagem com o sorriso dos vitoriosos. Vida que segue, começa a resignar-se a nação dos conformados. Estranhamente, quem anda sofrendo alterações de comportamento é a turma que viaja no avião presidencial.
.
Lula, por exemplo, vem apresentando sintomas de uma forma não catalogada de jet lag, mal que afeta quem passa horas no ar e sofre a mudança do fuso horário. O relógio biológico se desconecta do que mede o tempo externo.No caso de Lula, pouco importa a duração da viagem, o efeito é o mesmo: ele fica sem saber direito o que é. Às vezes, desembarca como presidente no pleno exercício do cargo. Outras, desce como presidente eleito, absorvido pela montagem do novo governo enquanto aguarda o dia da posse.
.
Freqüentemente, incorpora o eterno candidato louco por um palanque. Em dias de especial inspiração, encarna as três versões numa única viagem. Isoladamente ou fundidos no mesmo corpo, todos os personagens parecem muito confusos. Falam demais. Colecionam gafes e disparates.Na recente visita a Mato Grosso, desembarcaram por lá todos os Lulas. “Já que tem microfone e tem gente, vamos falar”, decidiu o candidato. O presidente em exercício brindou com 14 quilômetros de estrada o governador Blairo Maggi, a quem se referiu como “Magri” e “Bagre”.
.
Ainda tripulando o chefe de governo, produziu as gabolices de praxe. “Houve um tempo em que disseram que o presidente Lula não gostava da agricultura”, homenageou-se o maior dos governantes, que há meses preside o colapso de numerosas atividades rurais. E então emergiu o presidente eleito, pronto para roubar a cena em Mato Grosso.
.
“Vou destravar o Brasil”, repetiu. Como assim? Quando? De que modo? Tais enigmas podem esperar um pouco mais. “Não me pergunte o que é ainda, que eu não sei”, ressalvou. “E não me pergunte a solução, que eu não tenho, mas vou encontrar porque o Brasil precisa crescer”. Não há motivos para inquietação, garantiu. Até 1º de janeiro, Lula haverá de desmatar as trilhas que nem sequer enxergou em quatro anos no poder.
.
Por falta de tempo, certamente: só agora o país está deixando o homem trabalhar. Mas é preciso que a oposição deixe de fazer oposição, condicionou. Com todo mundo a favor, o espetáculo do crescimento enfim poderá começar. Será bonito contemplá-lo da janelinha do Aerolula.

Os especialistas

por Adriana Vandoni, no Prosa & Política (*)
.
A Polícia Federal investiga a gangue do dossiê. O Ministério Público Federal investiga a gangue do dossiê. O Congresso Nacional, através da CPMI das ambulâncias, investiga a gangue do dossiê. Quanto foi que eles avançaram desde o dia 15 de setembro quando houve a prisão dos delinqüentes com malas de dinheiro ilegal e sujo? Milímetros? Talvez o foco esteja errado. Talvez não estejam prestando atenção aos detalhes.
.
Esta semana assisti aos depoimentos dos integrantes da gangue e apesar de poucos, foram importantes revelações. Ficou claro que o PT montou uma organização criminosa, experiente, muito bem treinada e aparelhada, que atua em células. Coisa de especialistas.
.
O primeiro a depor foi Valdebran Padilha, sua fala de foi surreal! Hora ele se colocava como comprador, hora como vendedor das informações. Disse que é amigo de Vedoin, mas não é amiiiiiiigo de Vedoin. O conhece há 10 anos, mas são apenas conhecidos que sempre se trataram com respeito. Foi em nome desse respeitoso conhecimento que ele aceitou praticar um crime. Curioso isso! Depois de muito cinismo, Valdebran confessou fazer parte da gangue, mas garantiu que sua participação se resumiu ao acompanhamento e verificação de que o dinheiro estava lá(?), apesar de não saber a origem. Um serviço profissional, técnico! Coisa de especialista!
.
Já o Expedito Veloso fez as declarações mais interessantes. Disse que Valdebran, movido por vingança, foi o responsável pelo envolvimento da Senadora Serys (PT/MT) no esquema das ambulâncias. E que disse isso ao deputado federal Carlos Abicalil (PT/MT). Chama-me a atenção o companheirismo dos companheiros.
.
Essa revelação é de extrema importância, mas parece não ter aguçado a curiosidade dos parlamentares. Pelo que Expedito afirmou, muito antes do surgimento do dossiê, Valdebran já decidia quem ia ser envolvido no esquema pelos Vedoins. Outra revelação feita por Expedito foi a de que parte do dinheiro era de responsabilidade de Valdebran. Nesse caso então, essa parte do dinheiro pode ter sido arrecadada em Cuiabá e levada para São Paulo? Quem contribuiu para a caixinha? O interesse era envolver uma petista ou o PSDB? Insisto na mesma pergunta que faço há meses: quem mandou Valdebran conversar com Luiz Vedoin? Quem era o advogado sem nome a quem ele se referiu logo que foi preso em São Paulo, como o mandante de sua visita aos Vedoins? Meu Deus, quem está por trás de Valdebran?
.
Expedito assumiu sua participação na organização criminosa, mas sua atuação era “eminentemente técnica”. Segundo ele, seu trabalho se restringia à “análise técnica do valor político dos documentos”. Absolutamente profissional! Coisa de especialista!
.
Oswaldo Bargas que depôs na quarta-feira, de início disse que não sabia estar envolvido na compra de um dossiê, mas confirmou ser integrante da célula criminosa, segundo ele, comandada por Jorge Lorenzetti para negociar informações com Luiz Vedoin. Porém, seu trabalho era apenas o de contatar uma revista que faria uma entrevista na qual Vedoin envolveria políticos do PSDB. Cabia a ele acompanhar a tal entrevista e garantir que Luiz Vedoin entregasse alguns documentos que seriam “informações importantes a passar ao comitê de Lula”. Desempenho pontual! Coisa de especialista!
.
Tudo parece nebuloso, menos a existência de uma organização criminosa da qual fazem parte especialistas. O PT criou uma espécie de “Serviço de Diligências Especiais (SDE)” como o criado pelo General Amaury Kruel nos anos 60, que oficializava a existência de um “esquadrão da morte”. Tudo ilegal e imoralmente oficial. Assim como a organização criminosa do PT, o esquadrão também era composto por homens de confiança e da força de elite da cúpula. Estes homens ficaram conhecidos como “Os homens de ouro”.
.
(*) Adriana Vandoni é economista, especialista em Administração Pública pela Fundação Getúlio Vargas/RJ. Blog: http://argumentoeprosa.blogspot.com - Cuiabá/MT

A Sociedade Dos Poetas Mortos

por Glauco Fonseca, no Blog do Diego Casagrande
.
Se Tim Maia ainda estivesse entre nós, já teria revogado a mais solene norma da grande festa onde “só não vale dançar homem com homem e nem mulher com mulher. O resto vale”. Nos modernos tempos atuais, o enlace pleno entre pessoas do mesmo sexo se mesclou à normalidade, o que dá noção à uma certa evolução social que, se por um lado requer bom senso dos novos “atores”, também requer do restante da sociedade um grau renovado de tolerância, compreensão e, acima de tudo, de respeito.
.
Cazuza, outro poeta que sempre fará falta à nossa efemeridade, dizia “não me convidaram prá essa festa pobre, que os homens armaram pra me convencer”. Ele estava se referindo, é claro, à festa burguesa, à festa do poder da época, do poder que ainda não estava nas mãos do PT. Na mesma música dizia “Brasil, mostra tua cara, quero ver quem paga pra gente ficar assim”. Ao grande Cazuza, estivesse vivo, bastaria, talvez, refazer o arranjo de sua bela “Brasil” para torná-la mais atual do que nunca. Seria perseguido por isso, certamente. Na estrofe final de sua música “Burguesia”, Cazuza escreveu “Mas também existe o bom burguês, que vive do seu trabalho honestamente. Mas este quer construir um país e não abandoná-lo com uma pasta de dólares”.
.
Cazuza
.
Cazuza, se vivo estivesse, tão triste estaria, vivendo a plenitude de seus direitos e o inferno de seus sonhos.
.
“Vale o que vier, vale o que quiser”?
.
Hoje a festa é do vale-tudo. O PT de Lula, do mensalão, do valerioduto, da gang do dossiê, da quadrilha de José Dirceu agora tira o PMDB para dançar e o PMDB, é claro, aceita. A festa promete tudo menos ser pobre.
.
Na festa do tempo em que Cazuza e seus ídolos não eram convidados (“Não me ofereceram nem um cigarro, fiquei na porta estacionando os carros”) já ocorriam os conchavos de ocasião pós-eleitorais, os acordos nem tão vantajosos para o país e as falcatruas já tramadas mas ainda não efetivadas. Nada disso é novo nem nunca será. Mudou apenas a postura de alguns que cantavam “Grande pátria desimportante, em nenhum instante eu vou te trair”.
.
Traíram.
.
Enfim, é a grande festa da democracia no Brasil. Vale de tudo. Pergunta do tipo “Brasil, qual é o teu negócio, nome do teu sócio?” continuam sem resposta. Há, é claro, algumas pessoas que tentam, ora de modo buarquiano, ora verissimamente, explicar algumas inconsistências, mas sem sucesso.
.
Um terceiro poeta que nos deixou carentes de seu talento dizia “Um homem se humilha se castram seus sonhos”. Legado maravilhoso o do Gonzaguinha. E que mágoa, se entre nós estivesse, seu peito abrigaria pela castração de muitos de seus sonhos de liberdade, de “fé na mocidade” aquela que “não tá na saudade e constrói a manhã desejada”, e que hoje protagoniza um fiasco histórico sem precedentes no Brasil.
.
Meu enorme respeito por Cazuza, Tim Maia e Gonzaguinha. Poetas promovidos a anjos, que Deus permita que repousem sempre em paz e continuem nos iluminando com sua belíssima herança. Mas que embarcaram numa canoa furada, embarcaram. Botaram fé na rapaziada que foi em frente mas que nunca conseguiu segurar o rojão.

Chamem o Delúbio!

Por Carlos Chagas, na Tribuna da Imprensa
.
BRASÍLIA - Durante a campanha eleitoral, o que mais se ouviu do presidente Lula e dos líderes do PT foi a promessa de não se repetirem os erros do primeiro mandato, no tocante à formação de maioria parlamentar governista. À boca pequena, até completavam botando a culpa de tudo no José Dirceu, antes mesmo do Delúbio Soares e outros.
.
Pois é. O tempo começou a passar e os métodos parecem iguais, pelo menos no que se refere à troca de legendas por favores. Corre no Congresso estar sendo o senador Augusto Botelho, do PDT de Roraima, convidado a filiar-se ao PT, recebendo de luvas a nomeação do representante do Incra no estado.
.
A proposta teria sido feita pelo ministro Tarso Genro. Só que o senador foi candidato a governador, em outubro, e não contou com o apoio do PT. O partido apoiou o candidato do PMDB, Romero Jucá. Ambos perderam, mas ficaram seqüelas. Agora, surpreendentemente, Botelho arruma malas para o partido de adversários.
.
Tarso nega o oferecimento da nomeação, mas poucos acreditam, entre os dirigentes do PDT. O partido perdeu muitos deputados, eleitos em 2004, por obra e graça do Palácio do Planalto. Estaria o processo sendo reiniciado?
.
Só uma encíclica papal.
.
Em certos cismas, dúvidas fundamentais ou crises na Igreja, adianta pouco a palavra de bispos e até de cardeais. Torna-se necessária a palavra do papa, através de uma encíclica. Vivemos situação parecida na política. Tarso Genro disse ao presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Roberto Busatto, que Lula deseja o fim do artigo constitucional da reeleição. Seria uma das primeiras iniciativas da reforma política.
.
Por que, então, em seus variados pronunciamentos, o presidente não encerra definitivamente a questão? Bastaria dizer, de público, o que lhe é atribuído em particular: que seu segundo governo vai trabalhar para acabar com a reeleição. Não podia e não queria isso até outubro. Afinal, candidatou-se e se reelegeu. Mas se pensa como a imensa maioria da opinião pública e até do Congresso, que a reeleição foi um mal praticado pelo antecessor, apesar de tê-lo beneficiado, é hora de revogação.
.
Ou estaria o presidente preocupado com boa parte dos cinco mil prefeitos que pretendem reeleger-se em 2008? Pensaria mais longe ainda, nos companheiros Jacques Wagner, Marcelo Déda e outros governadores aliados, que já alegam o direito adquirido de disputar um segundo mandato em 2010?A reeleição assemelha-se àquela mágica feita pelo aprendiz de feiticeiro, que depois de provocá-la não conseguia desfazê-la...
.
O discurso e o caos
.
Semana passada, enquanto continuava o caos nos aeroportos, com vôos atrasados aos montes e cancelamentos inexplicáveis, começava no Senado audiência pública reunindo as principais figuras ligadas à questão. Lá estavam o ministro da Defesa, o comandante da Aeronáutica, os presidentes da Infraero, da Agência Nacional de Aviação Civil e dos sindicatos dos Trabalhadores em Proteção ao Vôo e das Empresas Aeroviárias.
.
Cada um buscou demonstrar eficiência e cumprimento de obrigações. O problema é que nos aeroportos permaneciam, como ainda permanecem, a confusão, a humilhação de passageiros e a evidência de que o poder público busca enfrentar com medidas de rotina uma situação excepcional e explosiva, a exigir iniciativas especiais. Não dá para chegarmos ao fim do ano, ao fim do mês e até ao fim da semana do jeito que está. Controladores de vôo fazem a chamada "operação padrão", mas, mesmo sem a emissão de juízos de valor a respeito, salta aos olhos a responsabilidade de outros setores.
.
A começar pelas empresas aeroviárias, há tempos tratando os usuários como gado. A demanda aumentou e os meios para enfrentá-la, não. Se estamos em pleno período neoliberal, deveria prevalecer a velha e lusitana máxima: "Quem não tem competência não se estabelece". E a imediata intervenção do poder público, mesmo temporária.
.
O que acontece no setor dos transportes aéreos demonstra que nem todas as atividades econômicas devem permanecer sob o controle da iniciativa privada.

Um embrulho improvisado

Editorial Estadão
.
Subdesenvolvimento não se improvisa, dizia Nelson Rodrigues. Nem desenvolvimento, é preciso acrescentar. Mas o governo petista, uma perfeita ilustração da tese rodriguiana, aposta na improvisação como forma de conduzir o País a uma nova e duradoura fase de prosperidade. As primeiras medidas anunciadas pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, são apenas uma coleção de bondades fiscais definidas às pressas para atender o presidente, mas suficientes para abrir um rombo estimado em até R$ 12 bilhões em 2007. Ninguém disse de onde sairá o dinheiro.
.
Algumas medidas, como a desoneração da compra de máquinas, prolongam timidamente linhas de ação conhecidas. Outras, como o subsídio às prestações da casa nova com dinheiro do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), prenunciam o retorno a perigosas políticas, fáceis de lançar e difíceis de controlar. O novo pacote habitacional é o terceiro desde o ano passado e seus pormenores, admitiu o ministro, ainda não estão definidos. Mas também se fala no uso de recursos do FGTS para obras de infra-estrutura. O Fundo é grande, mas é do trabalhador e não se deve usá-lo para novas finalidades sem cálculos muito cuidadosos de retorno.
.
Boa parte das novas medidas continua em estudo, porque faltam respostas a questões essenciais. O governo, segundo Mantega, pretende reduzir os encargos sobre a folha de salários. Mas não se sabe qual será a nova base da contribuição previdenciária. Se esta for cobrada sobre o faturamento, haverá mais um tributo em cascata. O recolhimento sobre o valor adicionado poderia ser uma solução melhor, mas também foi rejeitado, em princípio, pelo ministro. Em suma: o governo anunciou simplesmente uma intenção de mudança.
.
O mini-pacote inclui um estímulo à construção e à ampliação de fábricas. A recuperação do PIS e da Cofins embutidos no custo das obras poderá ocorrer num prazo de 18 a 24 meses. Atualmente, ocorre num período de 20 a 25 anos..É uma alteração significativa, à primeira vista, mas industriais constroem ou ampliam fábricas para abrigar novos equipamentos, e estes são comprados quando se pode apostar na expansão dos negócios e dos lucros. Não se poderá fazer essa aposta, antes de conhecido todo o pacote. Falta saber, por exemplo, se as novas bondades serão compensadas com redução de gastos ou com aumento de outros impostos. Sobre isso não houve informação convincente. O governo fará um esforço, disse o ministro, para aperfeiçoar a cobrança dos débitos tributários, mas isso, obviamente, não resolverá o problema.
.
Mesmo sem incluir na conta os novos estímulos, o quadro fiscal de 2007 já é preocupante. As bondades eleitorais ampliaram os gastos permanentes. Além disso, parlamentares tentam acrescentar no Orçamento despesas de seu interesse.Ainda na sexta-feira o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Bernard Appy, disse não saber quando sairão medidas de redução de gastos. Essa decisão, segundo ele, será do presidente da República. Mas o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem evitado o assunto. Tem-se concentrado em cobrar propostas audaciosas de estímulo à expansão da economia. Uma das inovações em estudo é a transformação da Eletrobrás em motor de crescimento, com emissão de bônus. Isso resultará em maior endividamento público. Endividamento é também a solução defendida pelo presidente para financiar obras municipais de saneamento. Envolver o setor privado seria uma solução melhor para os problemas da eletricidade e do saneamento. Mas o governo dá sinais cada vez mais fortes de preferir a reestatização. Incerteza sobre a oferta de energia pode frear os investimentos, neutralizando os estímulos prometidos.
.
No meio dessa balbúrdia, há um detalhe tragicômico. De forma oportunista, o governo incluiu no pacotinho a Lei das Micro e Pequenas Empresas, aprovada depois de dois anos de tramitação. Mas essa lei, um raro sucesso de crítica e de público, só entrará em vigor em julho. Assim se reduzirá a renúncia fiscal resultante, no curto prazo, do novo regime tributário daquelas empresas. Assim, a novidade mais consistente e mais promissora ficará para depois. É mais uma demonstração de como governar pelo método confuso.

Antes, Lula achava que era Deus; agora tem certeza

Por Josias de Souza na Folha de São Paulo
.
Leonardo Boff disse certa vez que tem o desejo de “ver Deus”. E, citando Freud, arrematou: “Se eu morrer e chegar à presença de Deus, terei muito mais coisas a perguntar para Ele do que Ele para mim.”
.
Embora ainda não tenha se dado conta, o companheiro Boff já viu Deus. Na verdade, priva da intimidade do Senhor. Lula II está se sentindo o próprio Todo-Poderoso. Foi o que deu a entender em sua mais nova seqüência de trololós.A palavra da moda é “destravar”. Sua Excelência o Magnânimo vem repetindo o vocábulo a mais não poder. "Neste primeiro mandato, eu já estou há dez dias fazendo reuniões setoriais para destravar esse país”, disse nesta sexta. “Quero começar o segundo mandato agindo de forma muito mais forte e ousada. Eu quero anunciar esse processo de desobstrução do Estado brasileiro ainda neste primeiro mandato."
.
O caminho de um governante, disse Lula, é pontilhado de provações: "Quando a gente é oposição, está tudo na ponta da língua. Mas quando a gente é governo, tem que fazer as coisas. E ao tentar fazer as coisas, encontra uma série de obstáculos."
.
Que obstáculos são esses? O presidente esclareceu: "As leis, as questões ambientais, a burocracia, a oposição, o Congresso, o Ministério Público e o TCU." Ora, ora, ora. Nunca na história desse país um governante foi assim, digamos, tão explícito. Chama de obstáculos o que, em verdade, é salvaguarda da coletividade contra eventuais abusos de seus governantes.
.
Desejaria o presidente governar acima das leis, devastando florestas à revelia, livre de incômodos opositores, sem a intermediação congressual e imune a fiscalizações? Por sorte, a democracia brasileira já ultrapassou a fase do pé-de-cabra destravador.
.
Lula voltou a prometer um Éden que combina crescimento econômico com desenvolvimento social. Disse que "o Brasil já fez todos os sacrifícios que tinha que fazer”. Precisa colher agora “um pouco de benefício.” Avalia que "o povo brasileiro já pagou todos os pecados que cometeu." Será?
.
Roga-se a Leonardo Boff que, no próximo encontro que tiver com Deus, antes de perguntar qualquer coisa, faça uma recomendação a Ele: que tome uma xícara de chá de camomila antes de cada pronunciamento público.

O baronato faz acerto na CPI

Por Dora Kramer, no Estadão
.
O que parecia uma questão de vida ou morte antes das eleições para partidos como PSDB e PFL - o caso do dossiê Vedoin -, agora já não desperta mais o mesmo interesse. Ao contrário. A oposição não vem demonstrando o menor empenho em aprofundar as investigações na CPI dos Sanguessugas e, embora participe com 22 dos 38 integrantes, não tem entrado em embates que possam criar embaraços sérios aos governistas.
.
Não há um acerto explícito. Há uma espécie de acordo tácito, segundo o qual há um 'teto' para o esclarecimento dos fatos: os barões de parte a parte ficam de fora. A oposição não insiste em convocações constrangedoras e o governo não usa a maioria para dar o troco.
.
O máximo a que se chegou foi à tomada de depoimentos de dois ex-ministros da Saúde do governo Luiz Inácio da Silva. Mesmo assim, quando Saraiva Felipe e Humberto Costa compareceram à CPI apareceram apenas três tucanos e um pefelista.
.
Convidado como os outros, o ex-ministro José Serra não foi. E daí as coisas não passarão, administradas em banho-maria por causa do desconforto recíproco entre governistas e oposicionistas.
.
O senador Aloizio Mercadante prestou depoimento na Polícia Federal importante para o desmonte da versão dos operadores da montagem e venda do dossiê, mas não se pretende chamá-lo a depor.
.
Bem como não se vê movimentação para pedir esclarecimentos à senadora Ideli Salvatti, que, segundo Mercadante, participou com ele de uma reunião onde se tratou do assunto com Jorge Lorenzetti e Oswaldo Bargas dias antes da prisão de Gedimar Passos e Valdebran Padilha com R$ 1,75 milhão para a compra do dossiê.
.
Aquele vigor investigatório da época da campanha agora tampouco mobiliza a oposição para reagir contra a intenção dos governistas de terminarem a CPI no próximo dia 30.
.
Os únicos interessados em prorrogar os trabalhos para além do prazo regimental de 22 de dezembro são aqueles mesmos ditos independentes que lá no início, quando no foco das investigações estavam apenas parlamentares acusados de receber propina em troca da apresentação de emendas para a compra de ambulâncias, levaram a CPI a pedir abertura de processos por quebra de decoro contra 67 deputados e três senadores.
.
Depois da vitória do presidente Luiz Inácio da Silva na eleição e do constrangimento da oposição com a entrada em cena de personagens como o empresário Abel Pereira, o ex-ministro Barjas Negri e a possibilidade sempre presente de convocação do também ex-ministro da Saúde e governador eleito de São Paulo, José Serra, os ânimos arrefeceram bem.
.
Tão arrefecidos estão que os partidos com número suficiente para influir nas decisões da CPI não parecem impressionados com o fato de a Polícia Federal não ter liberado para a comissão até agora todos os 33 CDs com as imagens das câmeras do Hotel Ibis, onde se deu a prisão de Gedimar e Valdebran. Da 'cena do crime' chegaram até a CPI dois ou três fotogramas já amplamente divulgados..Não há na comissão nenhuma expectativa de que ela possa produzir fatos novos ou esclarecedores. A esperança reside ainda no trabalho do Ministério Público para o aparecimento de alguma prova material sobre a origem do dinheiro do dossiê.
.
Dos participantes da operação só não foram depor ainda Gedimar, com quem estava o dinheiro, e Hamilton Lacerda, filmado com uma mala onde estariam o R$ 1,75 milhão.
.Os outros, Lorenzetti, Expedito Veloso e Oswaldo Bargas, negaram saber da existência de dinheiro para não serem acusados de envolvimento em crime contra o sistema financeiro. Gedimar não poderá negar, mas pode se calar se realmente comparecer à CPI na próxima terça-feira como previsto.
.
Hamilton Lacerda está convocado para o mesmo dia e provavelmente repetirá a versão - considerada inverossímil por Mercadante no depoimento à PF - de que não carregava dinheiro na mala e sim recibos para doadores de recursos à campanha..E o que fará a CPI diante disso? Nada. Engolirá a embromação e sucumbirá à sombra do poderoso baronato cuja disposição é encerrar o quanto antes esse desconfortável assunto.
.
A oposição, refém de suas próprias contradições, terá repetido o gesto feito quando recuou das investigações do valerioduto para preservar o senador Eduardo Azeredo, e nunca mais poderá abrir a boca para falar em dossiê.

O estouro da boiada num boteco do Leblon

Por João Ubaldo Ribeiro

- Tu hoje tá com uma cara como eu nunca te vejo, só me lembro dessa tua cara naquele dia em que teu cunhado bateu teu carro e o seguro não pagou porque a carteira dele estava vencida.
.
- Tu tem que me lembrar? Tem que me lembrar? Já não basta eu saber que minha mulher continua dando dinheiro a ele sem me dizer? Não, tu pode não acreditar, mas minha preocupação é com o destino do País, tenho espírito público. Eu tou muito preocupado, esse negócio não vai dar certo.
.
- Que negócio que não vai dar certo? Pô, cara, sinceramente, hoje é domingo, tá todo mundo numa boa, tu vai querer ficar aqui falando mal do Lula novamente? Te conforma, cara, o homem ganhou, qual é a tua, tu não diz que acima de tudo é democrata? É a democracia, cara, o homem levou no voto, o resto é chiadeira. Eu também não sou esse fã todo dele, mas não tou falando. Tem que esperar pra ver, não pode sair logo descendo o cacete.
.
- Aí é que você se engana, eu não tou querendo descer o cacete nada. Até confesso que, em outra situação, eu estaria, mas no momento tou mesmo é até com uma certa pena dele.
.
- Pena? O cara vai reeleito, está aí numa boa, que é que tu queria mais, que ele ganhasse o Prêmio Nobel?
.
- Qual é a boa em que ele está? Tu não tá vendo que ele não sabe o que fazer, tá feito barata tonta, perdeu os caras que faziam as coisas para ele e agora fica adiando tudo e não sabe como administrar o cesto de abacaxis que tem na mão?- Também não é assim, ele está costurando as alianças, tá armando o esquema de governo dele.
.
- Ele está é armando o esquema dos outros. Cara, no lugar dele você ainda teria confiança em alguém? Confiança cem por cento, ali como ele tinha no pessoal que levou com ele da primeira vez? E, se alguém sabe que ele sabe de alguma coisa que ele não sabia, ele não está meio encurralado? Se um cara desses abrir o bocão, não vai sobrar feio pra ele?
.
- Lá vem você com teorias, você sempre gostou de umas teorias.
.
- Eu não estou fazendo teoria nenhuma. Ele agora está negociando com todo mundo. É político, ele conversa. Isso vai ser o governo dele ou dos de sempre?
.
- Bem, olhando assim...
.
- Os de sempre! E cada vez mais fortes! Não foi para fazer isso que ele se elegeu e reelegeu.
.
- Sim, você vai e volta e termina sempre na mesma coisa. Ele não cumpriu as promessas da campanha. Todo mundo sabe disso e, em certos casos, não dava mesmo, de fato não cumpriu, mas...
.
- Nem vai cumprir as desta. Com o País do jeito que está e esse pessoal que a gente já manja, não vai cumprir nada. Não tem nenhum partido aliado que esteja pensando em melhorar nada, a começar pelo dele mesmo, estão pensando é em cargos. Com uma situação assim, ninguém precisa de oposição. E não estão pensando em gente competente para os cargos, mas gente que tenha influência política. Ninguém está pensando em país nenhum, está todo mundo pensando no seu. Foi aberta a estação de caça de mamatas.
.
- Também não é assim, tem gente que...
.
- Tem gente que, tem gente que, sempre tem gente que, mas dois ou três gatos-pingados, que não podem fazer nada. Os deputados mesmo, o que estão fazendo agora? Cuidando primeiro do deles! Já são os mais bem pagos e beneficiados do mundo e agora, depois de uma grande medida moralizadora que foi devolver as pastas James Bond que cada um ia ganhar à nossa custa, resolveram dobrar os vencimentos. Uma bobagenzinha, só dobrar.
.
- Bem, realmente nesse ponto você tem razão. Os caras não aliviam. Trabalham três dias por semana, vivem fazendo CPIs que nunca dão em nada, têm direito a tudo, comem mulheres ótimas, é um festival. Nesse ponto você tem razão, esses caras só servem pra dar despesa e vergonha.
.
- Viu você, viu você? É verdade, eles vivem fazendo o possível para que o povo ache que não precisa de Congresso, que só faz trazer despesa e vergonha, além de atrapalhar o governo. E toda hora aparece confusão, como essa dos aviões. Ninguém consegue viajar e quem consegue viaja rezando. E tudo mundo tem cada vez mais medo de tudo, tem gente que não bota o pé fora de casa e cataloga quem pode entrar com um sistema eletrônico de impressão digital, nem amigo entra, se não estiver com a impressão digital cadastrada. Então eu fico com medo do estouro da boiada.
.
- Estouro da boiada, como assim?
.
- A boiada que é o povo brasileiro, nós sempre fomos boiada. Tu é do tempo em que a gente lia no colégio duas versões do estouro da boiada, uma do Euclides da Cunha, outra do Rui Barbosa. O estouro pode começar com qualquer coisinha besta, até o estalido de um graveto. Então é isso, eu fico com medo que, quando menos se espere, o graveto estale.
.
- Mas de certa forma isso seria até bom. Se houvesse uma verdadeira revolta popular, esses caras iam se mancar. Nesse caso, é uma coisa que ia te agradar, botar essa corja toda corrupta e incompetente para fora, eu vou lhe ser sincero, acho que está na hora desse estouro da boiada, acho que estamos precisando de um governo forte.
.
- É isso que a boiada já está começando a achar também. Pensando bem, eu não estou mais com pena nenhuma dele.

A lei chegou ao faroeste

Marcos Sá Corrêa / No Mínimo
.
De onde menos se esperava – o front conturbado da reforma agrária – vem uma boa notícia para o meio ambiente. É uma liminar contra o Incra no Mato Grosso do Sul. Barra um assentamento na fazenda Cachoeira, ao pé da serra da Bodoquena, enquanto o instituto não providenciar seu licenciamento ambiental. E daí? Fazenda na Bodoquena? O que nós temos a ver com isso?
.
Tudo. A começar pelo fato de que, ali pelo menos, a reforma agrária deixou de ser um assunto que só tem dois lados – o justo, dos sem-terra, e o outro, dos latifúndios improdutivos e patati, patatá. Nessa briga o Incra produz estragos há muito tempo. E as consequências só aparecem depois que baixa a poeira da ocupação. É sempre tarde demais quando se descobrem assentados caçando na reserva de Poço das Antas, como se ela fosse deles, e não dos micos-leões-dourados. Ou cortando o mato para produzir pedra pura, como fizeram em Guaicurus, a poucos quilômetros da fazenda Cachoeira.
.
Sem respostas
.
Guaicurus, sozinha, daria motivos de sobra para tomar cuidado com a reforma agrária naquele pedaço da Bodoquena. É das águas que nascem na serra, dentro de um parque nacional, que vêm os rios cristalinos de Bonito, irrigando os roteiros turísticos que mudaram a cara da região. E em Guaicurus deu tudo errado, depois que os assentados venderam a madeira e passaram a colher leishmaniose. Mas tudo isso, até agora, parecia tão distante que só a hipocondria cósmica dos ambientalistas parecia notar seus contratempos.
.
Com o despacho do juiz federal Renato Toniasso, o caso da Bodoquena deixa de ser a história de sempre, com-terra versus sem-terra. Envolve todo mundo. Deveria incluir mais ou menos 187 milhões de brasileiros, se eles estivessem dispostos a se interessar pelo assunto. Está em jogo o que cada um está disposto a perder na disputa. Água limpa, por exemplo, num rio que corre como aquário azul, com os cardumes nadando sob as copas que se debruçam em seu leito.
.
Não há respostas prontas para esses dilemas. Mesmo se houvesse, elas certamente não iriam resolver a reforma agrária. Mas, entrando na discussão, pelo menos tornam a conversa mais animada. E, na pior das hipóteses, obrigam o Incra a cumprir a lei, o que nunca esteve entre suas prioridades.
.
Fazendas superfaturadas
.
hora de ouvir o juiz. O que nem sempre se pode, com 600 sem-terra na porteira da fazenda, empunhando bandeiras, foices, facões e outros argumentos coreográficos. Ele proibiu o Incra de dar um passo na Cachoeira – desapropriar o imóvel, indenizar os proprietários, investir em melhoramentos ou alojar famílias – se não apresentar o laudo sobre os impactos do assentamento na franja do parque nacional, além das medidas que promete tomar para abater o prejuízo.
.
Em outras palavras, tem que fazer o que manda a lei. Nada demais. Mas uma tremenda novidade nessa história que já começou torta, abrindo o ano eleitoral com sinais de superfaturamento – R$ 9 milhões só numa das 11 fazendas avaliadas para desapropriação. Atropelando prazos, o governo estadual dispensou o Incra de todos os escrúpulos ambientais, na periferia de um parque nacional. Enfim, como o promotor Luciano Loubet reagisse, enviou de Campo Grande uma força-tarefa da Secretaria de Meio Ambiente para multá-lo a 280 quilômetros de distância, numa chácara em Bonito, embora os técnicos não soubessem explicar qual era a infração.
.
Até aí, portanto, o assentamento seguia normalmente os trâmites da anarquia institucional em vigor. Mas, de repente, o juiz subverte a desordem no campo. A liminar foi provocada por Loubet, em ação civil pública em parceria com dois promotores da região e a procuradora da República Jerusa Burmann Viecilli. Em Bonito, ele conseguiu em três anos o que o Brasil não fez em cinco séculos. Ou seja, mudar as coisas radicalmente, usando só os instrumentos legais a seu dispor. Com lei e caneta para assinar acordos de ajustamento de conduta, levou 75 proprietários a recuperar 100 quilômetros do rio Formoso, plantando matas ciliares com 20 mil mudas de espécies nativas e 20 quilômetros de cercas. Trabalho grande, mas invisível para o resto do país. Agora a liminar joga o caso para cima. É pegar ou largar.

Roubo de biografias

Percival Puggina, Zero Hora
.
Roubar de alguém sua biografia para dela extrair proveito pode parecer coisa tão rara que sequer se registre como delito nos códigos penais. Mas ocorre e é indecente. Exercer tal apropriação contra pessoas falecidas, impotentes para esbravejar sua indignação e retomar o que é seu, constitui, ademais, um ato covarde. "Quando? Onde? Quem? De quem?", indagará o leitor, surpreso ante a estranha notícia-crime com que lhe aceno. No entanto, ditadores fazem isso habitualmente, como forma de vincular suas deslustradas imagens a personalidades que tenham conquistado elevada estima e respeito dos povos sobre os quais eles, hoje, se impõem. Citarei dois casos.
.
Quem transitar pelas ruas de Havana verá outdoors, no velho estilo do culto da personalidade, contendo frases de Fidel Castro e José Martí. Martí foi um cubano extraordinário, intelectual de excelente formação, jornalista, escritor e poeta admirável, que liderou com a pena e com as armas a luta pela independência de Cuba. Não há, na galeria dos próceres latino-americanos, outro que, como ele, tenha unido dotes morais, talento literário e disposição de lutar até a morte pela liberdade de seu povo. De fato, morreu como mártir.
.
Pois a biografia de José Martí, defensor da livre imprensa e de livre comércio, para quem o estabelecimento das liberdades públicas era o "único motivo digno de lançar um país à luta", vem sendo roubada por Castro há meio século, para vincular sua indecente ditadura à nobre causa martiana. Vivesse hoje, com suas idéias e declarada convicção contra o socialismo, Martí estaria vendo quadrado o sol caribenho como qualquer outro que insista em democracia e direitos humanos na terra de Fidel. Alguém duvida?
.
Também nisso Hugo Chávez vai calcando as pegadas de seu mestre cubano. Explora quanto pode a imagem de Bolivar, libertador de cinco nações, para legitimar, na Venezuela que Bolivar queria livre, um programa comunista e totalitário de governo. No entanto, o antagonismo entre ambos, se contemporâneos, seria absoluto. "Como amo a liberdade, tenho sentimentos nobres e liberais", proclamava o Bolivar legítimo, pelo avesso das tenebrosas motivações chavistas. Embora alguns historiadores modernos atribuam a Simón Bolivar delírios de grandeza análogos ao do tiranete que hoje faz e desfaz na Venezuela, o Libertador apreciava o modelo norte-americano e sonhava com ser o Jorge Washington da América do Sul. Certa feita, inclusive, vociferou seu desprezo ao "povo que obedece e ao homem que manda sozinho". Noutra ocasião, como que contemplando o que poderia sobrevir a seu país quase dois séculos após, parafraseou Napoleão Bonaparte: "De lo heróico a lo ridículo no hay más que un paso".
.
Desconfie do político que tenta conectar sua imagem à de algum estadista de elevado conceito. O miador, certamente, está querendo se passar por lebre.