terça-feira, novembro 28, 2006

Chamem o Delúbio!

Por Carlos Chagas, na Tribuna da Imprensa
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BRASÍLIA - Durante a campanha eleitoral, o que mais se ouviu do presidente Lula e dos líderes do PT foi a promessa de não se repetirem os erros do primeiro mandato, no tocante à formação de maioria parlamentar governista. À boca pequena, até completavam botando a culpa de tudo no José Dirceu, antes mesmo do Delúbio Soares e outros.
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Pois é. O tempo começou a passar e os métodos parecem iguais, pelo menos no que se refere à troca de legendas por favores. Corre no Congresso estar sendo o senador Augusto Botelho, do PDT de Roraima, convidado a filiar-se ao PT, recebendo de luvas a nomeação do representante do Incra no estado.
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A proposta teria sido feita pelo ministro Tarso Genro. Só que o senador foi candidato a governador, em outubro, e não contou com o apoio do PT. O partido apoiou o candidato do PMDB, Romero Jucá. Ambos perderam, mas ficaram seqüelas. Agora, surpreendentemente, Botelho arruma malas para o partido de adversários.
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Tarso nega o oferecimento da nomeação, mas poucos acreditam, entre os dirigentes do PDT. O partido perdeu muitos deputados, eleitos em 2004, por obra e graça do Palácio do Planalto. Estaria o processo sendo reiniciado?
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Só uma encíclica papal.
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Em certos cismas, dúvidas fundamentais ou crises na Igreja, adianta pouco a palavra de bispos e até de cardeais. Torna-se necessária a palavra do papa, através de uma encíclica. Vivemos situação parecida na política. Tarso Genro disse ao presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Roberto Busatto, que Lula deseja o fim do artigo constitucional da reeleição. Seria uma das primeiras iniciativas da reforma política.
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Por que, então, em seus variados pronunciamentos, o presidente não encerra definitivamente a questão? Bastaria dizer, de público, o que lhe é atribuído em particular: que seu segundo governo vai trabalhar para acabar com a reeleição. Não podia e não queria isso até outubro. Afinal, candidatou-se e se reelegeu. Mas se pensa como a imensa maioria da opinião pública e até do Congresso, que a reeleição foi um mal praticado pelo antecessor, apesar de tê-lo beneficiado, é hora de revogação.
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Ou estaria o presidente preocupado com boa parte dos cinco mil prefeitos que pretendem reeleger-se em 2008? Pensaria mais longe ainda, nos companheiros Jacques Wagner, Marcelo Déda e outros governadores aliados, que já alegam o direito adquirido de disputar um segundo mandato em 2010?A reeleição assemelha-se àquela mágica feita pelo aprendiz de feiticeiro, que depois de provocá-la não conseguia desfazê-la...
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O discurso e o caos
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Semana passada, enquanto continuava o caos nos aeroportos, com vôos atrasados aos montes e cancelamentos inexplicáveis, começava no Senado audiência pública reunindo as principais figuras ligadas à questão. Lá estavam o ministro da Defesa, o comandante da Aeronáutica, os presidentes da Infraero, da Agência Nacional de Aviação Civil e dos sindicatos dos Trabalhadores em Proteção ao Vôo e das Empresas Aeroviárias.
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Cada um buscou demonstrar eficiência e cumprimento de obrigações. O problema é que nos aeroportos permaneciam, como ainda permanecem, a confusão, a humilhação de passageiros e a evidência de que o poder público busca enfrentar com medidas de rotina uma situação excepcional e explosiva, a exigir iniciativas especiais. Não dá para chegarmos ao fim do ano, ao fim do mês e até ao fim da semana do jeito que está. Controladores de vôo fazem a chamada "operação padrão", mas, mesmo sem a emissão de juízos de valor a respeito, salta aos olhos a responsabilidade de outros setores.
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A começar pelas empresas aeroviárias, há tempos tratando os usuários como gado. A demanda aumentou e os meios para enfrentá-la, não. Se estamos em pleno período neoliberal, deveria prevalecer a velha e lusitana máxima: "Quem não tem competência não se estabelece". E a imediata intervenção do poder público, mesmo temporária.
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O que acontece no setor dos transportes aéreos demonstra que nem todas as atividades econômicas devem permanecer sob o controle da iniciativa privada.