terça-feira, novembro 28, 2006

A Sociedade Dos Poetas Mortos

por Glauco Fonseca, no Blog do Diego Casagrande
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Se Tim Maia ainda estivesse entre nós, já teria revogado a mais solene norma da grande festa onde “só não vale dançar homem com homem e nem mulher com mulher. O resto vale”. Nos modernos tempos atuais, o enlace pleno entre pessoas do mesmo sexo se mesclou à normalidade, o que dá noção à uma certa evolução social que, se por um lado requer bom senso dos novos “atores”, também requer do restante da sociedade um grau renovado de tolerância, compreensão e, acima de tudo, de respeito.
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Cazuza, outro poeta que sempre fará falta à nossa efemeridade, dizia “não me convidaram prá essa festa pobre, que os homens armaram pra me convencer”. Ele estava se referindo, é claro, à festa burguesa, à festa do poder da época, do poder que ainda não estava nas mãos do PT. Na mesma música dizia “Brasil, mostra tua cara, quero ver quem paga pra gente ficar assim”. Ao grande Cazuza, estivesse vivo, bastaria, talvez, refazer o arranjo de sua bela “Brasil” para torná-la mais atual do que nunca. Seria perseguido por isso, certamente. Na estrofe final de sua música “Burguesia”, Cazuza escreveu “Mas também existe o bom burguês, que vive do seu trabalho honestamente. Mas este quer construir um país e não abandoná-lo com uma pasta de dólares”.
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Cazuza
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Cazuza, se vivo estivesse, tão triste estaria, vivendo a plenitude de seus direitos e o inferno de seus sonhos.
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“Vale o que vier, vale o que quiser”?
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Hoje a festa é do vale-tudo. O PT de Lula, do mensalão, do valerioduto, da gang do dossiê, da quadrilha de José Dirceu agora tira o PMDB para dançar e o PMDB, é claro, aceita. A festa promete tudo menos ser pobre.
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Na festa do tempo em que Cazuza e seus ídolos não eram convidados (“Não me ofereceram nem um cigarro, fiquei na porta estacionando os carros”) já ocorriam os conchavos de ocasião pós-eleitorais, os acordos nem tão vantajosos para o país e as falcatruas já tramadas mas ainda não efetivadas. Nada disso é novo nem nunca será. Mudou apenas a postura de alguns que cantavam “Grande pátria desimportante, em nenhum instante eu vou te trair”.
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Traíram.
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Enfim, é a grande festa da democracia no Brasil. Vale de tudo. Pergunta do tipo “Brasil, qual é o teu negócio, nome do teu sócio?” continuam sem resposta. Há, é claro, algumas pessoas que tentam, ora de modo buarquiano, ora verissimamente, explicar algumas inconsistências, mas sem sucesso.
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Um terceiro poeta que nos deixou carentes de seu talento dizia “Um homem se humilha se castram seus sonhos”. Legado maravilhoso o do Gonzaguinha. E que mágoa, se entre nós estivesse, seu peito abrigaria pela castração de muitos de seus sonhos de liberdade, de “fé na mocidade” aquela que “não tá na saudade e constrói a manhã desejada”, e que hoje protagoniza um fiasco histórico sem precedentes no Brasil.
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Meu enorme respeito por Cazuza, Tim Maia e Gonzaguinha. Poetas promovidos a anjos, que Deus permita que repousem sempre em paz e continuem nos iluminando com sua belíssima herança. Mas que embarcaram numa canoa furada, embarcaram. Botaram fé na rapaziada que foi em frente mas que nunca conseguiu segurar o rojão.