quinta-feira, janeiro 11, 2007

Hora de investir pesado no refino

A tão alardeada auto-suficiência do Brasil em petróleo ainda não ocorreu. Dados revelados por este jornal na semana passada indicam que as importações de petróleo bruto no ano passado alcançaram US$ 9,087 bilhões, deixando um déficit de US$ 2,193 bilhões, uma vez que as exportações brasileiras de óleo não ultrapassaram US$ 6,984 bilhões. Esse déficit, porém, é inferior ao de 2005 (US$ 3,501 bilhões), apesar do aumento do preço médio do óleo importado no ano passado. Quanto aos derivados, o total das importações (US$ 6,112 bilhões) praticamente empatou com o das exportações (US$ 6,111 bilhões). É conhecido o fato de que o Brasil exporta petróleo pesado, cuja cotação no mercado internacional é inferior à do petróleo leve importado, mais adequado ao processamento pelas refinarias instaladas no País.

Segundo o presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, a auto-suficiência em petróleo será atingida apenas nos doze meses a terminar em fevereiro deste ano. Entende-se com isso que haverá um equilíbrio entre as importações e as exportações, já que as refinarias instaladas não terão ainda capacidade para processar toda a produção nacional.
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É preciso deixar bem claro que o déficit na área do petróleo não causa preocupação sob o aspecto cambial para o País, cuja balança comercial fechou o ano passado com um gordo superávit de US$ 46,07 bilhões. Já vão longe os tempos em que o saldo negativo causado pelo petróleo ameaçava não só o desenvolvimento do País, mas mesmo a condução normal dos negócios, como na década de 70, quando se chegou a cogitar racionamento de combustíveis. Sob esse ponto de vista, a auto-suficiência tem um sentido mais simbólico de uma luta que o Brasil vem travando há décadas.
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O que realmente impressiona é que, ao mesmo tempo que se elevou substancialmente a produção nacional de petróleo, a capacidade das refinarias de processar o produto somente se ampliou graças a adaptações técnicas nas refinarias. Os projetos de novas unidades de refino permanece no papel, como ocorre com a refinaria projetada para o porto de Suape (PE). Existe ainda outro projeto de uma refinaria denominada de Premium, cuja localização ainda não foi decidida.

A Petrobras tem programado para este ano vultosos investimentos no País, sendo US$ 3,7 bilhões para conversão de refinarias para aumentar a capacidade de processamento de óleo pesado e US$ 2,7 bilhões para ampliar o parque existente e começar efetivamente a construção da unidade de Suape. Tais investimentos não deixam de ser importantes, mas nos parece que tem faltado ousadia aos nossos governos (e não apenas ao atual) nessa área. Segundo afirma o consultor Humberto Guimarães, baseando-se em dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), o Brasil registrou um saldo negativo na área do petróleo de US$ 23 bilhões de 1999 a 2006 (gastos de US$ 40 bilhões e receita de US$ 17 bilhões). Esse dinheiro é suficiente para construir dez refinarias, diz ele.

Não havendo mais constrangimento externo, não é certamente difícil levantar os financiamentos necessários, especialmente pela Petrobras, com um "rating" tão bom. É evidente também que não haveria dificuldade para a estatal buscar parcerias, não só com a venezuelana PDVSA, mas com grandes consórcios nacionais e/ou estrangeiros. Acresce que a capacidade mundial de refino de petróleo está aquém da demanda.
Esta é, definitivamente, uma oportunidade de investimentos de vulto, enquadrando-se entre aqueles que possibilitariam o Brasil a crescer aceleradamente e a se credenciar como um "player" de muito maior relevo no mercado internacional.

Já que o governo fala tanto em mudança, chegou a hora de acabar com regionalismos, como a disputa de estados para ter instalada uma refinaria em seu território, o que, certamente, atrasou a unidade prevista para o Nordeste. Trabalhar para vencer as desigualdades regionais é essencial, mas não tem mais cabimento o "estadualismo", que tem sido um estorvo ao desenvolvimento nacional.

kicker: Construir refinarias de petróleo no Brasil é uma enorme oportunidade de investimento para consórcios nacionais e/ou estrangeiros