Alexa Salomão e Luiza Dalmazo,
Revista Exame
A combinação infernal de custos no Brasil está, sim, causando um estrago no setor industrial. Mas a resposta escolhida para lidar com o problema — o aumento do protecionismo — pode tornar a situação ainda pior
Germano Lüders/EXAME.com
Fábrica da americana International Paper:
exportação de papel em baixa apesar de o país
produzir a celulose mais barata do mundo
São Paulo - A cena causa estranheza, mas está se tornando recorrente. Desde o fim de março, representantes de entidades patronais de setores como eletroeletrônicos, têxteis e máquinas engrossam passeatas e circulam em carros de som ao lado de militantes da CUT e da Força Sindical.
Juntos, eles agitam bandeiras e soltam a voz num coro de palavras de ordem do tipo: “Eu já falei, vou repetir, tem de gerar emprego aqui”. Alguns manifestantes, vestidos de chineses, “agradecem” o governo brasileiro pelos empregos gerados por lá.
Eles fazem parte do movimento Grito de Alerta, uma mobilização contra a desindustrialização do Brasil, que já realizou passeatas em Porto Alegre, Florianópolis e São Paulo e planeja promover outras em Belo Horizonte, Manaus e Brasília.
O movimento assegura que, caso nada seja feito, a indústria brasileira pode ir à bancarrota, vítima de uma enxurrada descontrolada de produtos importados, com preços artificialmente reduzidos pela má-fé dos concorrentes e pelo real valorizado. Nessa visão, a indústria brasileira hoje seria como um navio prestes a afundar sob o fogo cruzado de piratas gananciosos.
Patrões e empregados uniram-se para drenar a água dos porões e armar os canhões. “Há uma guerra comercial no mundo”, diz Robson Braga de Andrade, presidente daConfederação Nacional da Indústria (CNI). “Os concorrentes querem acabar com nossas empresas e dominar nosso mercado.”
A dramaticidade adquiriu tal proporção que ecoou em Brasília. Como já vem acontecendo desde o início da crise de 2008, o governo respondeu com medidas emergenciais. Na primeira semana de abril, soltou mais uma fornada de estímulo a setores escolhidos da indústria — não por acaso, os que mais gritam.
O pacote inclui aumento do crédito subsidiado do BNDES e desonerações de impostos a setores como os de máquinas, automóveis e têxteis, entre outros. A conta pode chegar a 60 bilhões de reais. Nas palavras de um dos próprios integrantes do movimento, o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, Paulo Skaf, o governo fez “mais do mesmo”. Nada que resolvesse as reais dificuldades da indústria.
Montagem de vagões da espanhola CAF em Hortolândia:
investimentos em metrôs e incentivos atraíram a produção de equipamentos
Manifestações públicas fazem parte do ambiente das democracias modernas. Aqui ou em qualquer lugar, elas frequentemente geram mais calor do que luz. Mas o cenário que motivou a insólita união de capital e trabalho diz respeito a um debate que tem atraído algumas das melhores cabeças do país — afinal, nossa indústria está em risco?
Após décadas sofrendo para montar uma base industrial importante, vamos agora perdê-la para concorrentes mais eficientes ou mais agressivos? Ou, ao contrário, trata-se do velho esporte de cobrar uma ajudinha do governo para tornar a vida mais fácil? Estardalhaço à parte, empresários e trabalhadores têm suas razões para queixas.
É fato que há no mundo práticas desleais, como o dumping (preços artificialmente baixos para ganhar mercado), em especial após a crise dos países ricos. Para punir quem trapaceia no jogo do comércio global, porém, existem as regras previstas pela Organização Mundial do Comércio — e o governo brasileiro tem recorrido a elas.
Outro motivo de clamor é o real valorizado. O câmbio, é verdade, cria um diferencial de preço — para o bem e para o mal. Tanto é assim que parte do milagre exportador chinês está ancorada em um iuane artificialmente desvalorizado pelo governo de Pequim. Mas, para usar uma analogia popular entre professores de economia, o câmbio é como a maré.
Quando sobe, os exportadores podem nadar de braçada. Quando desce, porém, deixa-os de roupa de banho à mostra — e quem está de calção rasgado passa vexame. Para os especialistas, esse é o caso da indústria brasilei¬ra no momento. E é melhor não ter mui¬tas ilusões: tentar segurar o câmbio nu¬ma hora em que a economia brasileira atrai montanhas de dólares é como enxugar gelo — não será daí que virá a salvação.
A queda do consumo nos paí¬ses desenvolvidos gerou excesso de capacidade no mundo e um aumento brutal da concorrência por mercados mais pujantes, como o Brasil. Com o dólar mais fraco, as empresas locais passaram a dar si¬nais de que têm dificuldade para superar os rivais em seu próprio quintal.
“A indústria brasileira vive hoje no pior dos mundos”, diz o economista Mansueto Almeida, do Instituto de Política Econômica Aplicada. “Não temos a produtividade e a capacidade de inovação da indústria alemã nem os baixos custos e a escala da chinesa.” Por isso, em um número crescente de setores, a indústria brasileira não tem sido páreo para concorrentes mais eficientes.
Fábrica da ASVAC, em São Paulo:
o setor de máquinas estagnou, e empresas menores
estão perdendo por não suportar a competição
Um levantamento sobre o desempenho da indústria de transformação, rea¬lizado pela CNI a pedido de EXAME, mostra a debilidade do setor. Até 2008, ano da crise, pouco mais da metade dos setores crescia pelo menos em linha com o produto interno bruto. Desde en¬tão, 70% passaram a apresentar crescimento vegetativo, estagnação e até encolhimento.
Observando o nível de competitividade de cada um deles, percebe-se que, quanto menor a exposição à competição externa, melhor é o desempenho. Os setores de equipamentos de transporte e de veículos estão entre os que mais crescem e também entre os mais protegidos — têm preferência em licitações, desoneração de impostos, elevação de tarifas para similares importados e crédito a juros camaradas no BNDES.
Já quem bate de frente com a concorrência externa definha. De 2009 a 2011, a importação de vestuário mais que duplicou. Em contrapartida, no mesmo período, a produção local caiu 2% ao ano. O que mais preocupa é o enfraquecimento de setores nos quais o Brasil tem vantagens notórias sobre os concorrentes.
Celulose e papel é um bom exemplo. As florestas plantadas no país rendem a celulose mais barata do mundo — chega a custar a metade da dos concorrentes. Mas o preço do papel começa a refletir os custos do Brasil. Como depende de caminhões, o transporte entre uma fábrica no interior de São Paulo e o porto de Santos representa 60% dos custos logísticos de uma carga destinada à Ásia.
Se houvesse a opção de ferrovia, essa parte do trajeto corresponderia a 20% dos custos. Intensivo em energia elétrica, o setor incorporou os aumentos da conta de luz criados pela tributação. Em 2000, cerca de 13% da conta de energia eram encargos. Hoje eles são 45%.
A International Paper vinha exportando metade da produção: 25% para a América Latina, 20% para a União Europeia e 5% para a Ásia. Agora vai concentrar as vendas na região porque deixou de ser rentável ir a outros continentes.
“Sabemos que dentro de alguns anos vamos ter de construir outra fábrica para atender a América Latina”, diz Jean-Michel Ribieras, presidente da International Paper. “O ideal é que ela fique no Brasil, mas, se não conseguirmos exportar daqui, como vamos justificar um investimento de 5 bilhões de reais?”
Difícil.
O setor produtivo no país está paralisado pela irracionalidade da estrutura nacional. Eis alguns exemplos. O transporte de um contêiner carregado de componentes da China até a Zona Franca de Manaus, passando pelo porto de Santos, custa 11 000 dólares: 3 500 dólares para atravessar metade do mundo num navio e 7 500 dólares para circular no país.
Quase metade do preço de uma barra de aço fabricada no Brasil é imposto. Na China, a tributa¬ção não chega a 20%. Resultado: o quilo de uma simples válvula, peça de aço que vai dentro de tubulações, sai por 5 dólares na China e por 23 no Brasil. Apesar de a indústria depender de profissionais com conhecimento específico, só um terço dos trabalhadores frequentou algum tipo de curso técnico, área desprestigiada no sistema público de ensino.
“Nosso maior competidor é a estrutura que criamos para nós mesmos”, diz Alfredo Villela Filho, presidente do Itaúsa, grupo que controla o banco Itaú Unibanco, a fabricante de painéis de madei¬ra, metais e louças sanitárias Duratex, a Itautec, de eletroeletrônicos, e a empresa química Elekeiroz. Todas as empresas da área industrial do Itaúsa sentem a pressão dos custos e da concorrência externa. “Se essa estrutura não mudar, a indústria mingua”, diz Villela.
Por ora, alguns segmentos da indústria de transformação já surgem como fortes candidatos a desaparecer. Antes da crise, a indústria de transformação crescia, em média, 3,3% ao ano desde 2001. Depois de 2008, a taxa caiu para 0,8% ao ano.
A redução de sua participação no PIB, que vinha ocorrendo lentamente desde 2004, foi acelerada e a fatia agora está no menor patamar da série histórica: 14,6%. “Foi uma queda abrupta”, diz o economista Samuel Pessoa, da consultoria Tendências. “Antes da crise eu afirmava que a desindustrialização era um mito. Com esse dado novo, há fortes sinais de que alguns setores estão sofrendo muito.”
É o caso, por exemplo, do calçadista. O setor encolheu entre 2001 e 2011. A produção recuou 32%, e o número de empregados, 15%. Os salários, ao contrário, cresceram 5% ao ano. O setor é um dos mais intensivos em mão de obra, e o valor da mão de obra e dos encargos trabalhistas — que equivalem a 100% da folha — faz uma enorme diferença na composição dos custos.
O presidente de uma tradicional empresa brasileira do setor, que prefere não se identificar, diz que, enquanto um sapato feminino de padrão médio produzido no Brasil chega por 20 dólares a um distribuidor nos Estados Unidos, o mesmo tipo de calçado é oferecido pelos chineses por 10 dólares.
Produção de massas da BRF no Paraná:
com a base da agropecuária forte, a indústria brasileira
de alimentos é das mais competitivas do mundo
“Não há mais condições de competir no mercado externo”, diz ele. A estratégia de algumas empresas agora é transferir as fábricas para países com custos de produção e de mão de obra mais baixos. A Vulcabras fechou unidades no Rio Grande do Sul e na Bahia e investiu numa fábrica na Índia. A Paquetá encerrou sua operação gaúcha e mudou as linhas destinadas à exportação para a América Central.
Amadurecimento econômico
É pior dos mundos? Para os estudiosos do crescimento econômico, não. Um país no estágio de desenvolvimento do Brasil não deve se preocupar apenas com a quantidade de empregos que um setor pode gerar, mas também com a qualidade desse trabalho. “Não acho que seja uma tragédia para o Brasil perder indústrias de calçados se setores mais sofisticados estiverem crescendo”, diz Gary Pisano, professor da escola de negócios da Universidade Harvard.
“Eu ficaria preocupado se o país perdesse uma Embraer, que é uma empresa de classe mundial, fonte de trabalho especializado e que tem muita pesquisa associada à produção.” Pisano chama a atenção para o fato de que há uma competição global por indústrias de alto teor tecnológico e é dessa corrida que o Brasil deve participar.
Não apenas por causa dos investimentos que pode receber, mas porque negócios mais sofisticados geram inovação e exigem trabalhadores mais qualificados, o que incentiva o aperfeiçoamento da educação e aumenta o nível de vida. “Um país como o Brasil deve elevar sua indústria a padrões mais refinados”, diz Pisano. “O que pode causar mais impacto na economia local: receber uma fábrica da Apple ou uma de calçados?”
Economistas ouvidos por EXAME afirmam que o impasse instalado no setor industrial tem solução — mas esta nada tem a ver com o que o governo tem feito. A saída, no entanto, exige um atributo escasso no país: visão de longo prazo. Uma guinada essencial é abandonar a crença de que o protecionismo traz benefícios.
Segundo o americano Edward Prescott, vencedor do prêmio Nobel de economia, a maior parte da riqueza gerada nos países do bloco Bric (Brasil, Rússia, Índia e China) na última década teve como base o intercâmbio de produtos, empresas e investimentos.
Não apenas companhias americanas investiram em países emergentes, como empresas de emergentes, entre elas as brasileiras, investiram nos Estados Unidos. “Economias fechadas não são inovadoras”, diz Prescott. “A abertura é a chave para o Brasil se tornar um país industrializado rico.”
Também será necessário aceitar que há um princípio darwiniano regendo a ascensão e a queda de setores da economia em nível mundial. Um país não consegue ser bom em tudo, e alguns setores tendem a desaparecer em uma parte do mundo para florescer do outro lado do planeta.
“No longo prazo, as indústrias estarão espalhadas ao redor do mundo”, diz Kamran Dadkhah, professor do departamento de economia da Universidade Northeastern, de Chicago. “Essa é uma consequência natural da globalização.” Por essa dinâmica, alguns setores vão definhar e até desaparecer no Brasil.
Nesse sentido, a história guarda algumas lições importantes. Não há, na teo¬ria econômica, uma definição acabada do que seja desindustrialização. Para alguns, ela ocorre quando o setor industrial encolhe. Para outros, o termo vale se a indústria perde participação relati¬va no PIB — ou seja, se cresce menos do que o setor de serviços.
A diminuição da fatia industrial na economia frequentemente se dá de forma natural e lenta, como parte do desenvolvimento das nações. Por isso, não costuma ser encarada como um transtorno, mas como mais uma etapa rumo ao amadurecimento econômico.
No Brasil, o conjunto de atividades reunidas sob a denominação de indústria encerrou 2011 representando 27% do PIB — a mesma fatia que tinha em 1995. Ao longo dos últimos dez anos, o setor acumulou crescimento de produção, faturamento e emprego.
No PIB industrial global, o Brasil atravessou a década na décima colocação entre os paí¬ses mais industrializados. Os problemas mais graves ocorreram nos últimos três anos.
Países que já passaram por processos de desindustrialização conseguiram preservar a pujança. O maior exemplo são os Estados Unidos. O pico da participação da indústria no PIB americano foi de 28%, em 1953. Essa contribuição caiu lenta e continuamente e hoje varia de 11% a 12%. Ao contrário do que parece, a indústria americana não deixou de crescer.
Linha da Vulcabras no Ceará:
o setor de calçados fecha fábricas no Brasil e migra para
outros países em busca de salários e custos mais baixos
Nos últimos 60 anos, registrou expansão de 240%, mas com taxas inferiores às do PIB, que aumentou 640% no mesmo período. O segmento que avançou mais foi o de serviços, que hoje representa 80% da economia. É interessante observar que a agropecuária americana tem participação de apenas 1% no PIB e continua a ser a mais forte do mundo.
A transição do peso na economia de um setor para outro ocorre com o aumento da renda da população. Com mais dinheiro, as pessoas podem até sofisticar a comida que compram ou a roupa que usam — mas há um limite para o anseio de adquirir um volume maior desses produtos.
Com mais renda, o aumento mais significativo de gastos ocorre no setor de serviços: as pessoas vão mais ao cinema, viajam pelo mundo, fazem cursos. Ao longo dessa transição, parques industriais americanos migraram para outros países e, mesmo assim, os Estados Unidos se tornaram um país mais rico e mais dinâmico.
A indústria americana, a despeito de todo o avanço chinês, ainda é a maior do mundo, com participação de 23% no PIB industrial global, ante 15% dos chineses. O processo, porém, não é indolor.
No curto prazo, empresas se vão e empregos se perdem — são dramas individuais reais. No longo prazo, pelo menos até agora, o saldo americano é amplamente positivo. Um movimento parecido começa a acontecer na China, cujas indústrias menos sofisticadas migram, em busca de custos menores, para países como Viet¬nã e Indonésia.
A principal lição é que a briga de verdade não é para manter este ou aquele setor. Fundamental é modernizar a economia como um todo. Se não der prioridade à recuperação da competitividade, o Brasil não aproveitará as oportunidades que estão surgindo. Há uma reestruturação global em curso na indústria, liderada pela China.
Enquanto o Brasil cultua o nacionalismo e vai se tornando mais fechado e caro, a China espalha a produção pelo mundo para torná-la mais eficiente. Suas montadoras investem nos Estados Unidos para aproveitar a mão de obra produtiva, e tecelagens instalam-se em países como Bangladesh, com salário médio de 37 dólares.
“Com os países ricos em recuperação lenta, a China virá com tudo para cima dos emergentes”, diz Roberto Dumas Damas, professor da escola de negócios Insper. “Estamos perdendo a chance de fazer o mesmo.”
É preciso também levar em consideração o impacto futuro do pré-sal na economia. Quando começar a fluir em escala, o petróleo atrairá uma avalanche de dólares, valorizando ainda mais o real. O risco é o país padecer da doença holandesa: se não estiver fortalecida, a indústria pode minguar, e o que sobrar dela orbitará em torno do petróleo.
Tudo depende de tomar as decisões certas desde já — as que ataquem os reais problemas do país. “Não é culpa de americanos, europeus ou chineses que os juros e a carga tributária no Brasil sejam tão altos e a infraestrutura péssima”, diz o diplomata Paulo Roberto de Almeida, professor na Universidade Sorbonne, em Paris.
“Parte do enriquecimento contínuo de países como os Estados Unidos se deve a uma governança muito superior à de outros países e que inclui baixa interferência nos mercados”, diz o Nobel Prescott. Eis um ensinamento e tanto — daqueles que o Brasil insiste em não aprender.




