Editorial
O Globo
A melhor resposta que Brasília pode dar à turbulência dos mercados, diante da valorização da moeda americana, é repor a política econômica de volta aos trilhos
O presidente do Federal Reserve (o banco central americano), Ben Bernanke, anunciou que até o final do ano que vem serão retirados os estímulos monetários que ajudaram a reequilibrar o sistema financeiro e a impulsionar a economia do país. Uma parte do mercado financeiro já especulava que a eliminação dos estímulos começaria este mês, mas Bernanke disse que o início desse processo ocorrerá logo que as condições da economia americana assim o permitirem, provavelmente até dezembro. A recuperação econômica dos Estados Unidos vem agitando os mercados pelo mundo todo, com valorização do dólar em relação às demais moedas, e flutuações expressivas nos preços dos títulos mais negociados, a começar pelo papéis emitidos pelo próprio Tesouro dos Estados Unidos.
Mas qual a razão de tamanha agitação nos mercados se a retirada dos estímulos monetárias nem começou? É típico desses mercados antecipar possíveis impactos de políticas governamentais sobre as economias nacionais e o intercâmbio entre elas. O Federal Reserve tem mantido o sistema financeiro americano sempre com uma considerável oferta de dólares, assegurando a recompra de um volume considerável de títulos, principalmente do Tesouro — US$ 85 bilhões por mês.
Os recursos de sobra forçam uma queda nas taxas de juros domésticas dos Estados Unidos, exatamente o objetivo das autoridades para baratear os financiamentos voltados à compra de moradias e bens de consumo. Tais estímulos surtiram o efeito desejado, pois a economia americana vem sustentando um bom ritmo de crescimento, o que já se reflete positivamente no mercado de trabalho. A taxa de desemprego, que ultrapassou os 9%, está agora acima dos 7%. Tal recuperação tende a ganhar a velocidade, e, se os estímulos não forem retirados gradualmente, surgirão efeitos negativos colaterais, como a inflação.
Assim, a oferta de dólares será contida, o que tem levado os mercados a antecipar a natural valorização da moeda americana. É inegável a importância do dólar nas transações financeiras internacionais, o que torna também inevitável um ajuste nas taxas de juros ao redor do planeta, devido às variações nos fluxos de capitais.
O Brasil já sente o impacto desse ajuste, com a forte desvalorização do real, além da oscilação dos preços dos títulos e das ações. A melhor resposta que o governo pode dar a essa turbulência, evitando a tempestade, é repor a política econômica de volta aos trilhos, ou seja, aos fundamentos que propiciaram a recuperação após a sucessão de crises nos anos 1990. E isso começa pelas finanças públicas, abandonando-se a prática da “contabilidade criativa”, e retomando-se a formação de superávits primários que não sejam baseados em receitas extraordinárias, mas sim no efetivo controle dos gastos de custeio.