segunda-feira, março 26, 2012

Na ficção, a ‘nova classe média’ brasileira chega ao paraíso. Mas na realidade...

Carlos Newton
Tribuna da Imprensa

Chega a ser comovente o esforço do economista Marcelo Neri, que dirige o Centro de Políticas Sociais (CPS) da Fundação Getúlio Vargas (FGV), no Rio, para propagar a ideia da ascensão da classe C, a nova “classe média popular” que teria se tornado o centro de gravidade da economia, da política e das relações sociais no Brasil.

Essa projeção está em “A Nova Classe Média: o Lado Brilhante da Base da Pirâmide” (Editora Saraiva), livro recém-lançado por Neri, e que busca reunir, organizar e condensar os inúmeros trabalhos e pesquisas que o CPS produziu nos últimos anos sobre a emergência da classe média popular no Brasil, um eufemismo para classificar a faixa que em 2011 recebia R$ 1.450 de renda familiar.

Jamais na História deste país de viu enganação semelhante. E o pior é que a imprensa engole um disparate desses e faz empolgadas reportagens a respeito, como se essa travestida classe média tivesse chegado ao paraíso, como no genial filme do diretor italiano Elio Petri. Que bom isso se fosse verdade. Mas o que se vê hoje é o marketing político sempre se sobrepondo à realidade, numa inversão de valores que merecem estudos sociológicos. Mas quem se interessa?

****** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Amanha voltaremos a este assunto para mostrar alguns absurdos que Marcelo Neri aponta em seu livro. Acho que o autor está descrevendo um povo que vive noutro país que não o Brasil. Como assinala o Carlos Newton, considerar quem recebeu R$ 1.451,00/mês, em 2011, é daquelas batatadas que não se imagina como que a imprensa caia na ladainha. 

Mas há um ponto torto nesta análise do Neri que é a visão do que ele entende por classe média. Daí a razão de sua visão distorcida e que quase toda a imprensa embarcou. O blog já abordou o assunto em outras vezes. Mas fica para amanhã.

Fica para amanhã, também,  a abordagem a toda esta violência sem tréguas, indiscriminada em todos os estados brasileiros, em jogos de futebol, tanto dentro quanto fora dos gramados. Fala-se muito, não se faz nada, e os pontos principais nunca são enfocados, como por exemplo, nas duas reportagens seguintes que seguem, uma da Revista Época outra da Revista IstoÉ.  

A nossa violência não está na adrenalina de torcedores fanáticos por este ou aquele clube. Torcedor de futebol gosta é de espetáculo, não de violência, de pancadaria. O que está acontecendo é banditismo que se disfarça nas torcidas de futebol para dar vazão aos seus instintos estúpidos. Mas esta violência, quase incontrolável, é fruto do estado e momento político que vive o país. Somos um país de muitas regras que não se cumprem, onde a justiça é omissa, o aparato policial é mal preparado e trabalha em condições miseráveis, mas, principalmente, onde a impunidade, a sensação de que tudo é possível sem medo das consequências porque estas não acontecem mesmo,  e o exemplo vem de cima, o incentivo à estupidez e  à barbárie se renova diariamente. 

Mas amanhã vamos aprofundar esta análise com alguns bons exemplos.