terça-feira, outubro 29, 2013

Crê ou morre

J.R.Guzzo
Revista VEJA

No Brasil 2013, Fernando Gabeira, Marina silva e tantos outros que querem pensar com a própria cabeça são de direita, segundo os propagandistas do governo. Já Paulo Maluf, José Sarney etc. são de esquerda. 

E se de repente, um dia desses, ficasse demonstrado por A + B que o grande problema do Brasil, acima de qualquer outro, é a burrice? Ninguém está aqui para ficar fazendo comentários alarmistas, prática que esta revista desaconselha formalmente a seus colaboradores, mas chega uma hora em que certas realidades têm de ser discutidas cara a cara com os leitores, por mais desagradáveis que possam ser.  É possível, perfeitamente, que estejamos diante de uma delas neste momento: achamos que a mãe de todos os males deste país é a boa e velha safadeza, que persegue cada brasileiro a partir do minuto em que sua certidão de nascimento é expedida pelo cartório de registro civil, e o acompanha até a entrega do atestado de óbito, mas a coisa pode ser bem pior que isso. Safadeza aleija, é claro, e sabemos perfeitamente quanto ela nos custa – basicamente, custa todo este dinheiro que deveria estar sendo aplicado em nosso favor mas que acaba se transformando em fortunas privados para os amigos do governo, ou é jogado  no lixo por incompetência, preguiça e irresponsabilidade.

Mas burrice mata, e para a morte, como também se sabe, não existe cura.  Ela está presente pelos quatro cantos da vida nacional. 

Um país que tem embargos infringentes, por exemplo, é um país  burro – não pode existir vida inteligente num sistema em que, para cumprir a lei, é preciso admitir a possibilidade de processos que não acabam nunca. Também não há atividade cerebral mínima em sociedades que aceitam como fato normal trens que viajam a 2 quilômetros por hora , a existência de firma reconhecida, o voto obrigatório e assim  por diante.   A variedade a ser tratada neste artigo é a burrice na vida política. Ela é especialmente malvada, pois age como um bloqueador para as funções vitais do organismo público  - impede a melhora de qualquer coisa que precisa ser melhorada, e ajuda a piorar tudo o que pode ser piorado. 

A manifestação mais maligna desse tipo de estupidez é a imposição, feita pelo governo, e sua aceitação passiva, por parte de quase todos os participantes da atividade política brasileira, da seguinte ideia:   no Brasil de hoje só existem dois campos. Um deles, o do governo, do PT, da presidente Dilma Rousseff e do ex-presidente Lula, é o campo do “bem”: atribui a si próprio as virtudes de ser a favor da população pobre, da verdadeira democracia, da distribuição de renda, da independência nacional e tudo o mais que possa haver de positivo na existência de uma nação. É, em suma, a “esquerda”.

O outro, formado automaticamente por quem discorda do governo e dos seus atuais proprietários, é o campo do “mal”. A ele a máquina de propaganda oficial atribui os vícios de ser a “elite”, defender a volta da escravidão, conspirar para dar golpes de Estado, brigar contra a redução da pobreza e apoiar tudo o mais que possa haver de horrível numa sociedade humana. É, em suma, a direita.

O efeito mais visível dessa prática é que se interditou no Brasil a possibilidade  de haver um centro na vida política. Ou você está com Lula-Dilma ou vai para o inferno: “crê ou morre”, como insistia a Inquisição da Santa Madre Igreja.

Essa postura é um insulto à capacidade humana de pensar em linha reta, que continua sendo a distância mais curta entre dois pontos. O Brasil não é feito de extremos: isso simplesmente não existe em nenhum país democrático do mundo. Abolir o espaço para um centro moderado é negar às pessoas oi direito de pensar com aquilo que lhes parecer ser apenas bom-senso, ou a lógica comum. Por que o cidadão não poderia ser, ao mesmo tempo, a  favor do Bolsa Família e contra a conduta do PT no governo? É dinheiro de imposto: melhor dar algum aos pobres do que  deixar que roubem tudo. (O programa, aliás, foi criado por Fernando Henrique; de Júlio César  para cá, passando por Frankin Roosevelt, dar dinheiro ou comida direto ao povão é regra básica de qualquer manual de sobrevivência política).

Qual o problema em defender a legislação trabalhista e, ao mesmo tempo, achar que quem rouba deve ir para a cadeia?    O que impediria alguém de ser a favor do voto livre e contra o voto obrigatório? Nada, a não ser a burrice que obriga todos a se ajoelharem diante do que o PT quer hoje, para não serem condenados como hereges. 

É por isso que no Brasil 2013, Fernando Gabeira, Marina Silva e tantos outros que querem pensar com a própria cabeça são de “direita”, segundo os propagandistas do governo. Já Paulo Maluf, José Sarney etc. são de esquerda.

Vida inteligente?