segunda-feira, janeiro 30, 2012

Na BR-251, em MG, investimento de R$ 74 milhões foi perdido

A seguir, apresentaremos quatro reportagens do jornal  O Globo sobre rodovias. É o exemplo acabado de como não se deve governar, do mau uso que faz do dinheiro público e de como obras públicas são realizadas ao atropelo para alimentar a indústria da manutenção. Voltaremos ao assunto, claro, porque o que acontece com as rodovias é espelho do acontece com os ditos “investimentos públicos”. Só um país muito rico em recursos mas pobre em gestão pública, consegue suportar os prejuízos vultosos dos recursos que são desviados e jogados no lixo por pura incompetência, omissão e irresponsabilidade. É um descalabro.

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Ministério Público investiga desperdício de dinheiro em obras sucessivas
Por Thiago Herdy, O Globo
MANIFESTAÇÃO NA BR-251:
prefeitos protestam contra má qualidade 
das obras e cobram solução definitiva
DIVULGAÇÃO

BELO HORIZONTE - A chegada de máquinas para trabalhar nas obras de recuperação da BR-251, próximo a Montes Claros, no Norte de Minas, não é motivo de comemoração para quem já está acostumado a trafegar pela rodovia no trecho entre a cidade mineira e a BR-116. O resultado do recapeamento e da recuperação da via é sempre o mesmo: a obra é malfeita e o desgaste do asfalto, prematuro. A situação chamou a atenção do Ministério Público Federal (MPF), que conduz investigação para apurar a qualidade do serviço.

O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), vinculado ao Ministério dos Transportes, afirma ter investido R$ 74,1 milhões na BR-251 desde 2006. A assessoria não soube detalhar qual foi o investimento no trecho entre Montes Claros e Salinas.

— Eles limpam a pista e colocam uma faixinha de asfalto de péssima qualidade em cima. Hoje temos normas técnicas, ferramentas de controle de qualidade e de resistência de materiais. Não faz mais sentido aceitar o que tem sido feito. Isso não é recuperação, é desperdício de dinheiro — lamenta o presidente da Associação de Municípios da Bacia do Médio São Francisco e prefeito de Capitão Enéas, Reinaldo Teixeira.

Há cerca de 15 dias, prefeitos e dirigentes de cidades no Norte de Minas paralisaram dois sentidos da pista para protestar contra as obras pontuais e cobrar uma solução definitiva para a BR-251. Com faixas e distribuição de panfletos para os motoristas, os manifestantes denunciaram a péssima condição da rodovia, sobretudo no trecho entre Montes Claros e Salinas, também no Norte do estado.

Buracos, lombadas e desníveis na pista tornam a via “intransitável”, nas palavras de Teixeira. De acordo com a Polícia Rodoviária Federal, 58 pessoas morreram no trecho apenas em 2011, ano em que foram registrados 607 acidentes.

— São dez mil carros por dia, e esse asfalto de péssima qualidade não aguenta o tráfego de carreta de 30, 40 toneladas. O que gastaram aqui nos últimos cinco anos daria para fazer boa parte do que realmente a rodovia precisa, mas de uma vez só — afirma o prefeito.

O escritório do MPF em Montes Claros instaurou inquérito civil público para investigar as contratações e o serviço prestado nos últimos anos na rodovia. A apuração começou em agosto de 2011. Responsável pela abertura do inquérito, o procurador da República André de Vasconcelos Dias solicitou informações ao Dnit e determinou que fosse realizada perícia técnica para atestar a qualidade da reforma na pista entre as cidades de Montes Claros e Francisco Sá. O trabalho deve ficar pronto em fevereiro.

Situação semelhante é observada na BR-474, principalmente nos trechos entre Ipanema e Caratinga, no Vale do Rio Doce. Buracos enormes são constantes em todo o trecho, apesar das reformas recentes. Segundo o Dnit, nos últimos cinco anos a rodovia recebeu R$ 45,4 milhões em investimentos. Para o prefeito de Piedade de Caratinga, Adolfo Bento Neto, quem trafega hoje pela rodovia tem a sensação de que nada foi investido.

— Aparece um buraco, tapam com uma capinha o trecho todo, mas passa um mês e já está tudo do mesmo jeito — reclama o prefeito Neto.