segunda-feira, março 07, 2022

O PIB, a guerra na Ucrânia e os desafios estruturais da economia brasileira

 Fernando Honorato*

O Estado de São Paulo

 © DIDA SAMPAIO / ESTADÃO 

Agropecuária e reabertura do setor de serviços devem favorecer o ano de 2022;

 crescimento não deve ser significativamente impactado pela guerra na Ucrânia. 

O crescimento brasileiro não deve ser significativamente impactado pela guerra na Ucrânia. O déficit externo do País é pequeno e a dívida em dólares do governo é amplamente coberta pelas reservas. Nosso comércio com a Rússia representa menos de 0,4% do PIB e nossas exportações devem se beneficiar da alta de preços de commodities. Em adição, as empresas brasileiras estão pouco endividadas e o Tesouro possui caixa para honrar um ano de compromissos sem precisar emitir novas dívidas.

A agropecuária, os efeitos remanescentes da reabertura do setor de serviços e os gastos de Estados e municípios devem favorecer o ano de 2022. Medidas como o corte de IPI e a possível liberação de recursos do FGTS também podem ajudar. Com isso, o PIB deve ter uma expansão ao redor de 0,5% neste ano. Trata-se de um crescimento modesto quando comparado aos 4,6% de 2021, mas suficiente para que o desemprego registre o menor patamar desde 2016.

Assim, a economia vai mostrando certa resiliência, mas há desafios adiante. A guerra irá agravar o já delicado quadro de inflação, reduzindo a renda disponível e dificultando o trabalho do Banco Central, cuja alta de juros impactará o PIB no segundo semestre. Estruturalmente, as contas públicas requerem atenção e temos perdido tração em relação à economia global. O crescimento estrutural não tem sido suficiente para reduzir as desigualdades e acelerar o PIB per capita, que cresce a um ritmo anual de 0,3%. Não há perspectiva de solucionarmos esses problemas sem reformas.

Para isso, será preciso enfrentarmos as diversas capturas do orçamento, das receitas públicas bem como as amarras que nos impedem de aumentar a competição e a nossa inserção global. A eficiência e a proximidade das fronteiras tecnológicas precisam ser os nortes das políticas públicas e do ambiente de negócios. Algumas reformas importantes foram feitas nos últimos anos, mas será preciso avançar mais e mais rápido. Tomara que a guerra e as disputas políticas não nos impeçam de avançar na direção correta, sob o risco de desperdiçarmos essa resiliência e perpetuarmos nosso baixo crescimento estrutural por muito mais tempo.

* É ECONOMISTA-CHEFE DO BRADESCO