segunda-feira, outubro 18, 2010

Manaus vira a capital nacional do apagão

Renée Pereira - O Estado de São Paulo

Interrupções no fornecimento de energia elétrica têm se tornado rotina para os moradores da capital do Amazonas nos últimos meses

Nos últimos meses, Manaus deixou de ser apenas o principal centro financeiro e econômico da Região Norte para ser a capital do apagão. Lá, as interrupções de energia elétrica, que antes ocorriam esporadicamente, viraram rotina na vida de moradores, empresários e multinacionais da Grande Manaus. Tudo isso porque os investimentos na rede de distribuição não acompanharam a demanda.

Diante do caos energético da capital amazonense, onde se localiza um importante polo industrial de eletroeletrônicos e veículos sobre duas rodas, Brasília resolveu agir. Por determinação do presidente Lula, uma comitiva liderada pelo ministro de Minas e Energia, Márcio Zimmermann, desembarcou na cidade no início do mês para anunciar um plano emergencial, que já começou a ser implementado.

"Até o fim do ano, vamos deixar Manaus com um bom atendimento de energia", garante José Antônio Muniz, presidente da Eletrobrás, que controla a distribuidora Amazonas Energia.

Encarregado de resolver o problema, ele praticamente se mudou para Manaus, de onde vai despachar três vezes por semana. "Vou ficar aqui até resolver a situação", afirma.

O plano inclui a troca de 425 transformadores em alguns bairros da cidade, o que deve aumentar a capacidade da rede de distribuição e dar mais confiabilidade ao abastecimento, afirma Muniz. Outros 575 equipamentos deverão ser substituídos nos próximos meses.

A pergunta que a população local faz ao executivo é: por que essa medida não foi tomada antes que houvesse a propagação dos desligamentos? Uma das respostas está ligada aos prejuízos milionários que as estatais amargaram nos últimos anos e reduziram a capacidade de investimento. Mas a explicação também está associada à falta de planejamento.

Demanda maior.
Muniz reconhece que o crescimento da demanda, de 14% no ano, não era esperado pela empresa de distribuição, já que a média nacional estava em torno de 9%. De fato, a população local avançou para áreas mais afastadas do centro, novos empreendimentos comerciais foram abertos (como um novo shopping center e grandes redes de supermercados) e a produção industrial da Zona Franca aumentou de forma significativa com a demanda nacional por eletroeletrônicos.

Enquanto isso, a rede de distribuição continuou no mesmo nível - em algumas áreas houve forte degradação. Empresários e representantes do setor produtivo relatam que a deficiência da rede chegou ao ponto de a distribuidora ter de determinar o desligamento de algumas áreas para evitar um efeito dominó na cidade durante picos de consumo. O presidente da Eletrobrás negou que a operação tenha sido adotada e desmentiu a declaração dada por um técnico da empresa.

Para a população local, o descompasso entre investimento e demanda é o principal atestado do descaso do poder público com a região, que sofre com a péssima qualidade da energia. Hoje, Manaus e boa parte da Região Norte são abastecidas com geração térmica, especialmente de usinas movidas a óleo combustível e diesel. Como a produção é cara - e poluente -, todos os brasileiros pagam uma quantia a mais na sua conta de luz para ajudar os consumidores do Norte. Neste ano, os desembolsos devem somar R$ 4,7 bilhões.

Isso não significa, no entanto, que a conta de luz da população dos Estados do Norte é barata. Pelo contrário. Está no mesmo nível das Regiões Sul e Sudeste. "Além de cara, é de péssima qualidade. Semana passada, o Rio ficou cinco minutos sem energia e causou uma grande polêmica. Aqui, ficamos cinco minutos sem energia todos os dias e ninguém faz nada", afirma o empresário Raul Andrade, dono de uma rede de restaurantes.

Prejuízo.
Ele perdeu a conta dos equipamentos queimados por causa do liga e desliga da rede de distribuição. O prejuízo inclui perdas de chapas e fritadeiras elétricas, aparelhos de ar-condicionado e compressores de câmaras frigoríficas, além de alimentos perecíveis. Isso sem contar o desconforto em relação aos clientes, já que as máquinas de cartão de crédito também não funcionam. "Ficamos de braços cruzados esperando a energia voltar", diz.

O comerciante Alan Bandeira também já perdeu a paciência com o número de apagões. "Semana passada, fiquei uma hora sem luz. Até meu "nobreak" (equipamento usado para proteger eletroeletrônicos contra quedas de energia) não suportou a variação de energia e queimou."

Na opinião dele, além dos investimentos para melhorar a rede local, a solução para a cidade é construir a linha de transmissão de Tucuruí. O projeto, atrasado por questões ambientais, vai inserir a cidade no sistema interligado nacional.

Andrade e Bandeira estão liderando, ao lado do presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Manaus, Ezra Benzion, um abaixo-assinado para reivindicar melhorias no sistema. A intenção é levar o documento até Brasília e ter uma resposta mais rápida. "No Brasil, temos o custo Brasil. Aqui, temos o custo Manaus", reclama Andrade.

O presidente do Sindicato das Indústrias de Aparelhos Elétricos, Eletrônicos e Similares de Manaus, Wilson Périco, destaca que o problema já era para ter explodido se a crise mundial não tivesse arrefecido a atividade econômica. Ele conta que, em 2008, o setor elétrico local já havia apresentado sinais de estrangulamento.

O tempo, contudo, não foi aproveitado para sanar as deficiências, critica o executivo. "Não houve por parte do setor público o devido cuidado para preparar a rede de energia para atender o polo industrial de Manaus e o crescimento da região."

Périco afirma que, para evitar ainda mais prejuízos, boa parte da indústria se equipou com geradores elétricos e "nobreaks".

Apesar disso, as perdas têm sido grandes. "Cada vez que a rede cai, um processo de produção é interrompido e, na maioria dos casos, perdido. Mesmo que seja por minutos."