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Problemas e gafes da primeira semana são mais numerosos que os das edições anteriores – e as brechas na segurança agora são a maior preocupação da Fifa
Luiz Maximiano
Torcedores chilenos invadem o campo no Maracanã, no Rio
Com os estádios entregues em cima da hora, sem o tempo necessário para testar e avaliar todos os aspectos de sua operação, abriu-se o caminho para gafes e constrangimentos absolutamente dispensáveis
Mesmo com a avalanche de notícias negativas nos últimos meses de preparativos para a Copa do Mundo no Brasil, muita gente que já tinha experiência na organização do evento mantinha a calma, confiando no famigerado padrão Fifa – afinal, as tão faladas exigências da dona da festa seriam a garantia de que o torneio transcorreria sem nenhum grande fiasco. Com seu rigoroso conjunto de parâmetros e normas, a entidade sediada na Suíça tenta manter as condições básicas do Mundial sempre inalteradas, seja o país-sede a Alemanha, a África do Sul ou o Brasil. Os atuais anfitriões, porém, conseguiram o que muitos julgavam ser bastante improvável: passada uma semana da estreia do Mundial brasileiro, o padrão Fifa desceu um degrau, e o torneio revela falhas pouco costumeiras em Copas.
Algumas são corriqueiras e sem consequências mais graves; outras, principalmente as que se referem à segurança, preocupam – na noite de quarta, depois da invasão de um grupo de torcedores chilenos à sala de imprensa do Maracanã, o palco da grande final, representantes da Fifa e do Comitê Organizador Local (COL) realizaram uma reunião emergencial para discutir as brechas na proteção ao perímetro fechado ao redor dos estádios, que deveria ser uma área totalmente segura. Não foi a primeira falha grave de segurança – e a vulnerabilidade do aparato montado para as partidas foi revelada também em outras sedes.
A segurança fora dos estádios é responsabilidade conjunta das autoridades locais e do COL (policiais fazem a vigilância do entorno e manejam as barreiras montadas nas vias de acesso, enquanto seguranças privados fazem o trabalho de revista dos torcedores e do controle de fluxo nos portões). Trata-se, portanto, de um problema a ser solucionado tanto na organização local como nas forças de segurança pública. Outras falhas menos alarmantes também decorrem de equívocos cometidos pelo próprio país-sede. Em diversos casos, o padrão Fifa foi arranhado por pequenos tropeços de grande repercussão – e na origem de boa parte deles está um assunto que já foi discutido à exaustão.
Com os estádios entregues em cima da hora, sem o tempo necessário para testar e avaliar todos os aspectos de sua operação, abriu-se o caminho para gafes e constrangimentos absolutamente dispensáveis. Até agora, a Copa do Mundo é extraordinária, com partidas emocionantes, futebol ofensivo e vibrante e atmosfera festiva. Mas isso, é bom dizer, é mérito das seleções e craques que fazem o espetáculo em campo e dos torcedores que têm lotado os estádios – e não de quem prometeu a melhor Copa do Mundo de todos os tempos sem ter, de fato, oferecido as condições necessárias para isso.
Falhas na primeira semana da Copa
• Invasões no Maracanã
O palco da final da Copa foi invadido por torcedores não só uma, mas duas vezes - por torcedores argentinos logo na estreia do estádio e por chilenos, que depredaram a sala de imprensa (foto), na quarta.
• Apagões no Itaquerão
Por sorte, a partida de abertura começou ainda de dia: no primeiro tempo de Brasil x Croácia, houve dois apagões em cerca de um quarto dos refletores do novo estádio, que foi entregue às pressas.
• Falta de comida e bebida
Em vários dos estádios do Mundial, torcedores reclamam que os produtos oferecidos nos bares e lanchonetes se esgotam antes mesmo do fim do jogo - muitas vezes, ainda no intervalo das partidas.
• Partida sem hinos
Não teve Marselhesa na estreia da França na Copa: na partida entre a seleção europeia e Honduras, no Beira-Rio, uma falha técnica fez com que o jogo começasse sem a execução dos hinos nacionais.
• Rojões dentro de arenas
Primeiro foi na Arena Pantanal, em Cuiabá, em Chile x Austrália; depois, no Maracanã, em Chile x Espanha. Os fogos passaram pela segurança e foram usados dentro dos estádios, o que é proibido.
• Penetras no Castelão
Três torcedores disseram ter pago 1.500 reais a um funcionário credenciado para que conseguissem entrar sem ingresso no jogo entre Brasil e México, em Fortaleza - usando coletes de vendedores.
• Assentos interditados
Entregues no sufoco, sem que tempo para a emissão de alvará dos bombeiros, setores temporários da Arena das Dunas foram um problema - cadeiras foram interditadas e os torcedores, remanejados.
• Torcedores presos no trânsito
Como os projetos de mobilidade urbana não saíram do papel em muitas cidades, torcedores sofreram para chegar às arenas. Foi o caso de Manaus e Salvador, onde alguns se atrasaram para as partidas.
• Mensagens políticas
Além de marcas comerciais, frases de cunho político também estão proibidas nos estádios - mas isso não impediu que a TV mostrasse uma faixa com a frase "as Malvinas são argentinas" no Maracanã.
• Poças na Arena das Dunas
Natal sofreu com temporais que deixaram a cidade em estado de calamidade pública. Seu estádio, entregue muito próximo da Copa, também foi impactado: o entorno inacabado ficou cheio de poças.
• Filas no Mané Garrincha
O estádio mais caro do Mundial (a conta se aproxima dos 2 bilhões de reais), na capital federal, teve problemas de acesso: as filas nos portões fizeram muita gente perder o início de Suíça x Equador.
• Bandeira trocada
Além de ter sido muito pobre (e de ter repercutido muito mal no exterior), a cerimônia de abertura em São Paulo teve uma gafe: a bandeira da Nigéria foi trocada pela do Níger no centro do gramado.
• Bumbos no Recife
Todos os instrumentos musicais estão proibidos nos estádios da Copa. Só não se sabe como a torcida de Costa do Marfim x Japão conseguiu entrar com tambores na partida na Arena Pernambuco.
• Bandeiras proibidas
Além dos instrumentos, os panos com mastros e de dimensões muito grandes também são vetadas no Mundial. Mas no Maracanã e no Mané Garrincha esses dois tipos de bandeiras foram vistos.


