Adelson Elias Vasconcellos
É claro que o que será dito aqui não teria a menor chance de prosperar num país pouco sério, e em que o Poder Judiciário, principalmente a Justiça eleitoral, parece não ligar muito para o cumprimento da lei quando o seu desrespeito parte do Executivo. Mas deveria, é sua função primordial, para isso foi criada. Da mesma forma, o Ministério Público Eleitoral. Se a Justiça Eleitoral pode alegar estar amarrada ao preceito de que só pode agir quando provocada, ao Ministério Público Federal competiria tomar a iniciativa para fazer valer a lei e a ordem.
Contudo, encaminhar um pedido de impugnação da candidatura governista por abuso do poder político e econômico, consubstanciado em provas as mais fartas possível, também caberia a iniciativa da oposição. Claro, sabemos que o discurso do outro lado seria a de que a oposição tenta ganhar no tapetão, ou que está tentando impor um terceiro turno. Não importa. O que é visível é que a eleição de dona Dilma se deu sob o manto da ilegalidade. Tanto sua coligação quanto o governo Lula não se contiveram em seguir as regras do jogo democrático. Venderam ao país uma candidata qualquer e, para lograr êxito, se esmeraram o quanto puderam em descumprir as leis estabelecidas e que deveriam ser cumpridas pelos dois lados da disputa.
E não apenas deveriam as oposições abrir a disputa no campo jurídico: deveriam esgotar todos os meios legais disponíveis para a impugnação. E, mesmo se nada ganhassem no campo jurídico, pelo menos marcariam importante presença junto à sociedade, já que mais de 40 milhões de votos também disseram “não” à Lula e Dilma, mas, sobretudo, disseram BASTA de trapaças. Que fizessem isto e, por certo, boa parte da sociedade bateria palmas à iniciativa.
Fizeram? Não, deixaram tudo como estava, premiando, desta forma, a ilegalidade, e acenando com a impunidade para os infratores. Doravante fica estabelecido que, numa próxima eleição, o jogo do vale-tudo eleitoral estará liberado, seja porque o PT não se furtará em atropelar as leis novamente, porque não contestado agora, como, também, as oposição, tampouco o Ministério Público tiveram o respeito necessário para com o estado de direito, dando para o país um recado perigoso de que, na luta pelo poder, o que importa é vencer, mesmo para que para tanto, o regime de leis do país seja pisoteado ao máximo.
Durante esta semana, vários foram os líderes da oposição que fizeram manifestações sobre sua derrota nas urnas. A avaliação que todos fazem, todavia, são infelizes algumas e inoportunas outras.
O senador eleito por Minas, Aécio Neves, que surge como liderança maior do partido, falou em oposição generosa e a construção de um projeto.
Primeiro, oposição generosa foi justamente a que o PSDB se dedicou em fazer durante oito anos de governo Lula. Segundo, o PSDB já tem um projeto e foi aquele que o Lula se apropriou sem que os tucanos contestassem. No que, nos planos econômico e social, o governo Lula diferiu do governo FHC? Lula é uma continuidade do governo FHC. Poderia ter aprofundado as reformas de base e não o fez por pura covardia em não querer pagar o preço político que, por certo, resultaria por mexer em coisas como reforma tributária, previdenciária, trabalhista, política, etc. Esperar para ter maioria folgada no Congresso para só depois agir, representa dizer para sociedade que espere até que o partido resolva suas encrencas corporativas. Convenhamos, isto está muito longe de ser um governo pelo país. Trata-se de governar apenas pelo poder e para o poder.
Talvez Aécio Neves esteja ou estivesse se referindo a um projeto de desenvolvimento para o Brasil. Pois bem: que ele então se debruçasse a estudar as linhas mestras do Avança Brasil implementado por FHC, que o PT, na oposição sabotou, e depois no poder, Lula não deu continuidade. Interrompeu o programa no primeiro mandato, para retomá-lo no segundo mandato, mas agora sob nova direção e apelido – o tal PAC. Porém, olhando-se para o PAC não dá para deixar de considerá-lo meramente uma listagem de obras.
Ao longo dos próximos dias, iremos apresentar aqui o que vem a ser o Avança Brasil, este sim, um projeto de desenvolvimento com começo, meio e fim, além de ter sido desenhado em termos de desenvolvimento regional, vistos sob um ângulo estratégico.
Portanto, Aécio não precisa ir longe para que a oposição não tenha apenas discurso. Há no partido um real projeto para o país, como há, também, inúmeras razões para que se saia da pasmaceira com que o PSDB se comportou ao longo dos mandatos de Lula. O que falta? É iniciativa e coragem para fazer e cumprir seu papel, independentemente dos protagonistas que o conduzirão. Falta à oposição, em suma, parar de perder oportunidades e partir para o confronto sem medo, e abandonando o jogo de vaidades e interesses pessoais. Deve, portanto, pensar no país, antes de pensar em si mesma.
É justamente isso que a parcela da sociedade brasileira que é oposição a Lula e Dilma, e não é apenas um contingente insignificante, são mais de quarenta milhões, espera que a oposição faça. Mas, pelo visto, parece que ela não aprendeu a lição e ainda não apanhou o suficiente para tomar jeito.