Daniel Piza, Estadão.com
Quer dizer então que o Brasil avança 4% em quatro anos no exame Pisa de educação e há quem comemore? A pontuação dos alunos brasileiros significa que a grande maioria, aos 15 anos, é incapaz de interpretar um texto que não seja uma redação “Minhas férias”, não domina conceitos fundamentais da ciência e tem dificuldades com contas de multiplicação e divisão…
E não adianta botar toda a culpa na colonização portuguesa, que até 1808 impediu que o Brasil tivesse universidades, editoras e imprensa. Já houve tempo de sobra para corrigir essa defeito de formação. Nos EUA, a independência em 1776 foi equacionada com a fundação de universidades. Hoje o país tem dezenas entre as melhores do mundo. O Brasil não tem nem sequer uma entre as 200 melhores, pois a USP caiu desse ranking.
***** COMENTANDO A NOTICIA:
Vale a pena reproduzir um comentário publicado na coluna do Daniel Piza, de um leitor que se assina "Fey", de cujo texto não se retira uma única vírgula, seja pela realidade que do texto se ressalta, seja pela expressão da verdade que representa. Segue o excelente comentário:
O pior não é o Brasil estar no penúltimo lugar acima apenas da Turquia no exame Pisa ou a USP não entrar nem sequer na lista dos 100 melhores universidades do mundo.
O pior é que quando rankings assim aparecem pra dar um balde de água fria no ego dos nossos educadores, alunos, universitários e pais, surgem mil apologias e argumentações vazias da própria sociedade – e já se tornando muito clichés – como:
“Os países orientais não ensinam os seus alunos a pensar e só diciplinam a virar cegos obedientes. “. Frases de pessoas que geralmente nunca leram uma redação ou arte de um desses alunos orientais.
“Os países escandinavos são uns coitados pois vivem a maior parte no frio e cria uma população educada porém depressiva…”. Sem comentários. Como se o calor tropical do nosso país e a ignorância arraigada a pobreza e violência fosse receita de felicidade.
“Certos países como o Japão, Finlândia, Alemanha, e Coréia, conseguem alcançar qualidade de educação exclusiva porque o país é pequeno.”. Engraçado…estatísticamente então podeíamos esperar que pelo menos um dos nossos estados seja capaz de estar no mesmo patamar de um desses países já que possuem o mesmo tamanho geográfico, no entanto no estado mais rico (São Paulo) a nossa educação está longe de ser considerada do mesmo nível com os melhores do mundo. Mais interessante ainda, estudos indicam que uma melhor educação não se traduz necessáriamente em maiores volumes investimentos apenas mas também na melhor administração dos recursos disponíveis.
“As universidades americanas ganham mais reconhecimento por ter os seus trabalhos mais amplamente divulgados entre outras universidades de alto ranking.”. Ora porque as nossas universidades não divulgam também se temos tanto material de qualidade? Pergunte aliás qual é a orientação dos professores sobre dissertação de teses. Por incrível que pareça muitos alunos e professores de engenharia atualmente preferem escrever as suas teses em Inglês. E se esse tipode ranking não é importante, não deveriamos nos incomodar pra argumentar não é mesmo?
“Os indianos só superam em informática porque eles dominam o idioma inglês.”. Primeira abobrinha: não é preciso ser fluente em inglês pra programar.
Segunda abobrinha: não é só no Inglês que eles dominam, mas também possuem os melhores matemáticos atuais no mundo.
Terceira abobrinha: mesmo que eles tenham apenas informática pra se gabar (oque está longe da verdade), eles tem pelo menos algo pra se orgulhar, enquanto que nós só temos dores de cotovelo.
“É diferença de cultura…aqui é o Brasil.”. Talvez, a pior e mais folclórica de todas as argumentações, pois mostra a nossa indisponibilidade de esforçarmos pra sermos melhores. Aqui é o Brasil e portanto teremos de estar entre os últimos em educação pra sempre então? Existe cultura da vagabundidade? Existe cultura do esforço?
Pois bem, são desculpas assim que procuram tampar o sol com a peneira.
Sim, boa parte da culpa vem do descaso dos nossos líderes com a educação, mas antes de cobrar deles, é preciso enxergar que temos um problema gigantesco de verdade.
É uma lógica muito simples: quando há ignorância do problema, não há urgência de melhoras.
E apesar de toda retórica do brasileiro que se diz preocupado com a educação, a verdade é que ele nem sabe o quão importante ela realmente é para um indivíduo e tão pouco se dá conta do quanto estamos atrasados neste quesito, está mais fácil procurar desculpas.