quarta-feira, maio 02, 2007

"O governo quer a mídia de joelhos"

Reinaldo Azevedo

No dia 15 de outubro de 2003, Octavio Frias de Oliveira concedeu uma entrevista ao jornalista Jorge Feliz, da AOL Notícias, fato que surpreendeu muita gente, já que não costumava falar. Vejam que curioso: à época, o governo não pensava em criar uma rede pública de TV, esta que será implementada pelo ministro Franklin Martins (Comunicação Social). Falava-se de outra coisa: um plano de reestruturação da dívida das empresas de comunicação, com dinheiro do BNDES e juros subsidiados. Era o chamado “Promídia”. E o que Frias achava daquilo? Não teve a menor dúvida: “O que interessa ao governo é a mídia de joelhos. Não uma mídia morta. Uma mídia independente não interessa a governo nenhum. Dentro desse princípio é difícil ver essa questão do BNDES. Por que criar um sistema assistencial, preferencial para os jornais, para mídia? Por quê? Se todo o empresariado está endividado, nunca vi uma situação tão difícil em toda a minha vida e estou apenas com 91 anos. Nunca vi uma situação igual. Mas nós vamos sair dela.”
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Até onde me lembro, o “Promídia” morreu ali. Todos ficaram com vergonha de voltar ao assunto. Tanto estava certo, que, àquela tentativa de controlar a imprensa, outras se sucederam, até que se chegasse ao formato da tal “TV Pública”. Segue, abaixo, a íntegra da entrevista de “Seu Frias”, então com 91 anos.*Ele é o último barão da imprensa. Neste ano de 2003 viu seus congêneres morrerem: os donos de O Globo, O Dia e Jornal do Brasil. O Estado de S. Paulo há muito é administrado por herdeiros. Aos 91 anos, o jornalista Octavio Frias de Oliveira, há mais de 40 anos à frente da Folha de S. Paulo, é o único dos históricos donos de jornais em atuação no país.
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Filho de família rica, descendente dos barões de Itaboraí e Itambi, Octavio Frias de Oliveira teve uma adolescência pobre depois que o pai e um tio quebraram e foi obrigado a empregar-se como office-boy aos 14 anos. Aos 21, no entanto, já era um próspero funcionário público da Receita Federal. Depois, seguiu a tradição da família e fundou um banco, o BNI, mais tarde comprado pelo Bradesco. Foi com o dinheiro de uma aventura, a construção de uma rodoviária em São Paulo, que ele e o sócio Carlos Caldeira compraram a Folha de S.Paulo, em 1962. Com mais de 50 anos, descobriu a carreira de jornalista e transformou seu jornal em um forte concorrente do Estado de S. Paulo, que fazia feroz oposição a seus negócios. De lá para cá, o jornal cresceu, tornou-se um dos mais influentes do país.
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Simples, low-profile, "Seu" Frias, como prefere ser chamado, recebe pouca gente no nono andar do prédio da Rua Barão de Limeira. Quem tem esse privilégio nem precisa usar crachá de visitante ou passar pela catraca. Na ampla sala de reunião, anexa ao seu gabinete, mobiliada com mesa com oito cadeiras, poltronas e decorada com capas históricas da Folha, ele concedeu entrevista à AOL por quase uma hora. Lembrou dos colegas donos de jornais mortos neste ano e disse que assiste à maior crise financeira já enfrentada pela imprensa brasileira.
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Sobre a operação de socorro financeiro criada pelo governo para sanear as empresas de comunicação com dinheiro do BNDES, Frias disse que é contra. Segundo ele, o chamado Promídia – analogia com o Proer, o programa de socorro aos bancos feito no primeira mandato do presidente Fernando Henrique – é uma estratégia do Palácio do Planalto para comprometer os veículos. "O governo quer a mídia de joelhos", afirmou o dono da Folha