Adelson Elias Vasconcellos
A decisão da UNIBAN em expulsar a jovem Geisy, tanto na forma quanto no conteúdo, é demonstrativo do quanto o país continua ladeira abaixo na escala de valores humanos. Infelizmente.
Em momento algum, aquela entidade teve a decência de comunicar, pessoalmente, a expulsão. Agiu de forma estúpida com um aviso via imprensa,e, depois, com um comunicado imbecil feito por um assessor jurídico. A decisão é algo de mais abjeto que já assisti em quase sessenta anos, muitos dos quais de vida acadêmica. Tristemente, e este não é apenas um único sinal, há muitas evidências país afora, comprovando a tese de quanto o Brasil vai perdendo referência moral e senso de justiça, além de senso crítico.
Não será este o último momento em que a vítima é condenada e seus algozes, canalhamente, são mantidos impunes e até abençoados. Ao menos no Brasil. Caminhamos para um final nada feliz, podem acreditar. Uma vez mais constatamos, tristemente, que o ponto de ruptura de que vimos advertindo desde 2006, segue sua rotina de levar a total falência o senso crítico da sociedade, aniquilando valores e perdendo referências morais. Estamos perdendo noção do que seja civilidade, respeito ao próximo, limites de tolerância. Identificamos,nos mínimos gestos, uma violência brutal, desmedida. E, quanto mais nos tornamos estúpidos e bárbaros, selvagens e violentos, mais a nação se fragmenta.
E nem se venha aqui dizer que tudo isso se dá porque a base da pirâmide esteja mais culta e enriquecida. Nem uma coisa nem outra. A base continua tão analfabeta quanto sempre esteve, e a tal nova classe média, que se calcula ser de 19 milhões de novos componentes nos últimos três anos (?), é um fenômeno de multiplicação vigarista e, sejamos sinceros, de muito mau gosto. Simplesmente, o IPEA, antes um centro de estudo e pesquisa econômica de excelência e que Lula detonou e aparelhou da forma mais sórdida possível, chegou à constatação de que, o cidadão que recebe R$ 465,00/mês, deve ser categorizado como classe média !!!??? E isto feito a partir de estudo em que eles reuniram mais de cem especialistas para esta conclusão aberrante! Santo Deus, nem uma manada de 1,000 jumentos seria capaz de produzir algo tão bestial ! Sobre este estudo (?) ainda falaremos em outro artigo específico.
Portanto, não me surpreende decisões como esta cretinice tomada pela UNIBAN. Ela não é causa de coisa alguma: representa o sintoma mais claro de uma sociedade doente que vê, dia a dia, perderem-se seus valores mais significativos e elevados. É bom que despertemos desta letargia o quanto antes, muito embora, no ponto em que chegamos, já não nutra mais esperanças, não no curto prazo, ao menos. Pressinto que precisaremos mergulhar no lamaçal para aprendermos definitivamente a valorizar coisas básicas como honra, decência, honestidade, respeito, valores e sentimentos que nos tiraram da escuridão selvagem para um mundo melhor e mais justo, mais humano, enfim.
Menos mal que, apesar de tardiamente, a ministra Nilcéa Freire, da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, afirmou neste domingo que vai cobrar da Uniban explicações sobre a decisão de expulsar a aluna Geisy Arruda, que usou um microvestido e foi hostilizada no dia 22 de outubro. (É incrível que, antes, quando o assunto não atingira os holofotes da mídia e ganhara as manchetes da imprensa mundial, esta gente imunda se manteve distante e omissa, e agora, as luzes se acenderam, feito mariposas, todas se alvoroçaram... Eta gente medíocre!).
Nilcéa condenou a decisão e disse que a atitude demonstra "absoluta intolerância e discriminação". "Isso é um absurdo. A estudante passou de vítima a ré. Se a universidade acha que deve estabelecer padrões de vestimenta adequados, deve avisar a seus alunos claramente quais são esses padrões."
Segundo a ministra, a ouvidoria da secretaria já havia solicitado à Uniban explicações sobre o caso, inclusive perguntando quais medidas teriam sido tomadas contra os estudantes que hostilizaram a moça.
Como disse, acho que o ministério se manifestou tardiamaente. Tivesse agido quando o linchamento aconteceu, impediria que os papéis fossem invertidos, como de fato acabou acontecendo, além de exigir a punição dos culpados. A omissão permitiu que o absurdo acontecesse.
Por outro lado, declarou o cidadão Décio Lencioni Machado, assistente jurídico da instituição, que Geisy não foi punida porque no último dia 22 compareceu às aulas usando um vestido curto, curtíssimo. Até porque, segundo ele, "tem menina que usa roupas mais curtas". Ela recebeu a pena máxima porque desrespeitou a "dignidade acadêmica e a moralidade". E complementa com uma imbecilidade do tipo "O foco é a postura, os gestos, o jeito de ela se portar. Ela tinha atitudes insinuantes. (...) Ela extrapolava rebolando na rampa, usando roupas para que os colegas pudessem verificar suas partes íntimas." Pergunto: baseado em que fatos o senhor Décio ou a direção da UNIBAN chegaram a esta conclusão? Tanto quanto se saiba, antes do episódio do vestido, a jovem não sofrera sequer uma repreensão da direção acadêmica. Se seu comportamento era,v amos dizer, ...incoveniente, caberia a direção chamá-la para uma conversa, sempre particular e de forma respeitosa, repreendê-la. Por que, então, só se notou tal comportamento “inadequado” somente a partir do vestido curto? E as demais colegas, que usam vestidos mais curtos, conforme o tal assessor reconhece, por mais forte razão, não estariam infringindo igualmente, os códigos desta falsa moralidade, uma vez que suas partes “íntimas” ficariam mais visíveis ainda? Se continuarmos a aplicar a lógica e o bom senso, tanto a decisão quanto os motivos alegados que a motivaram não resistem. O recado da UNIBAN não deixa margem à dúvida: se alguém, rebolar e usar vestido curto, o estupro, segundo eles, está liberado, mesmo que a moça diga “não”! Os estupradores serão perdoados e a vítima será queimada no fogo! Mais fundamentalista do que isso, impossível!
E digo mais: se os diretores da UNIBAN estão assim tão preocupados com a moralidade no ambiente interno da universidade, que passem a vigiar os estacionamentos e os cantinhos mais discretos.Provavelmente se depararão com gente fazendo coisa muito pior.
O evento, em toda a sua extensão e desdobramentos, além de chocar as pessoas decentes deste país, envergonha o Brasil como um todo, enquanto sociedade que se pretende civilizada.
EM TEMPO: Este artigo já estava pronto quando nos chegou a informação de que a UNIBAN voltara atrás de sua decisão de expulsar a garota Geisy. E isto só aconteceu após a forte reação contrária da sociedade. Pena que esta mesma sociedade não reaja com a mesma freqüência e veemência em tantos outros momentos. Claro que, nestas horas, dada a repercussão do fato, sempre há canalhas aproveitadores querendo tirar uma casquinha. Infelizmente, o que não faltam no país são patifes e pilantras, principalmente, na classe política. Mas é saudável saber que ainda temos vida inteligente por aqui. Pelo menos uns vinte por cento, se é que vocês me entendem...
