Cleide Silva,
O Estado de S.Paulo
Participam da força-tarefa as automotivas GM, FCA Fiat Chrysler, Ford, Honda, Jaguar Land Rover, Renault, Scania e Toyota. Completam o grupo a ArcelorMittal e a Vale, em parceria com o Senai
Foto: GM
GM participa da mobilização para consertar respiradores
Preparada para equipamentos normalmente pesados, alguns sujos de graxa, usados na produção de automóveis, a ala de manutenção da fábrica da General Motors em São Caetano do Sul, no ABC paulista, passou nos últimos dias por severo processo de higienização e desinfecção para consertar respiradores pulmonares danificados ou sem uso há muito tempo. O trabalho começou na segunda-feira, 30, e as primeiras quatro unidades ficaram prontas dois dias depois e serão devolvidas aos hospitais.
São os primeiros aparelhos que retornam ao mercado em ação que envolve dez empresas que se prontificaram a realizar o serviço, em parceria com o Senai. A entidade calcula que há cerca de 4 mil a 5 mil respiradores inoperantes no País, dos quais 3,6 mil já foram localizados e estão sendo entregues ao grupo para manutenção.
Além da GM, participam da força-tarefa as automotivas FCA Fiat Chrysler, Ford, Honda, Jaguar Land Rover, Renault, Scania e Toyota. Completam o grupo a ArcelorMittal e a Vale, em parceria com o Senai, que treina o pessoal para a tarefa e dispõe de 25 pontos para coleta e manutenção de aparelhos.
No caso da GM, o serviço será realizado nas quatro fábricas do grupo em São Paulo, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, e também no campo de provas em Indaiatuba (SP). “Temos 15 engenheiros e técnicos em cada uma das fábricas trabalhando voluntariamente nas linhas de montagem que criamos”, diz Carlos Sakuramoto, gerente de Tecnologia e Inovação da Engenharia de Manufatura da GM. “Queremos fazer as entregas imediatamente para poder salvar mais vidas rapidamente.”
A corrida para ampliar no País a oferta de respiradores (ou ventiladores), vitais para pacientes com dificuldade de respirar após contaminação pelo novo coronavírus, levou empresas de variados setores a juntarem forças para minimizar a falta do equipamento, cuja demanda disparou em quase todo o mundo.
No Brasil há quatro fabricantes oficiais do aparelho, com capacidade para produzir cerca de 2 mil unidades ao mês. Mesmo ampliando a capacidade, as unidades não terão condições de atender toda a demanda que, num cenário otimista feito pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP) seria de 40 mil respiradores no País. Num cenário pessimista de avanço da pandemia, sem isolamento social, poderia chegar a 400 mil unidades.
Diante da urgência, a Leistung, que produz equipamentos médico-hospitalares (incluindo respiradores), cedeu sua tecnologia para a empresa de motores elétricos Weg para a produção em sua fábrica de Jaraguá do Sul (SC). A empresa está à procura de fornecedores de componentes e já conseguiu o suficiente para produzir as primeiras 500 unidades. O objetivo, segundo a Weg, é que estejam prontas para entrega na segunda quinzena de maio.
Componente é um dos gargalos
Outro grupo de empresas se dispôs a produzir componentes e sistemas, como a Embraer, em parceria com seus fornecedores. Boa parte dos itens usados na produção são importados. Sakuramoto, da GM, diz que a empresa também pode produzir moldes e conexões para os ventiladores. Já a FCA Fiat Chrysler colocou suas áreas de Compras, Logística e Engenharia para localizar, no mercado global, fornecedores de peças e componentes para entrega no curto prazo.
“Também estamos procurando um parceiro estratégico internacional produtor de equipamentos para associação com empresa nacional, tendo como objetivo a transferência de tecnologia e a ampliação da capacidade instalada de produção de ventiladores no Brasil”, afirma o presidente da empresa para a América Latina, Antonio Filosa. “Buscamos também fontes de financiamento para investimento de fabricante nacional para ampliar sua capacidade de produção.”
Diretor-geral do Senai, Rafael Lucchesi informa já ter contato com duas empresas nacionais interessadas em ampliar a produção, mas encontram dificuldades no abastecimento de componentes. Já outra empresa que produz ventiladores para uso veterinário vai reconfigurar sua linha de produtos para uso humano.
Grupos empresariais também fazem doações para a aquisição dos equipamentos, que custam a partir de R$ 15 mil. O banco Itaú, por exemplo, vai doar R$ 8,5 milhões para a compra de 190 respiradores. A KTK, de São Paulo, deve produzir os aparelhos a serem entregues ao Ministério da Saúde em maio.
Há outras iniciativas nas universidades do País. A Poli informa que desenvolveu um tipo de respirador mecânico de baixo custo (em torno de R$ 1 mil) para necessidades emergenciais. A ideia é oferecer o projeto a empresas autorizadas pela Anvisa que queiram assumir a produção. Pesquisadores da Universidade Federal do Rio (UFRJ) também trabalham em um equipamento simples e barato para produção em larga escala.
Iniciativa privada também se mobiliza para doar máscaras e protetores
Outra demanda que mobiliza a iniciativa privada é a de protetores (ou escudos) faciais, feitas em acrílico. O grupo Leroy Merlin, que atua no varejo de materiais de construção, iniciou esta semana a produção desses equipamentos para serem doados a profissionais da saúde que atuam diretamente com pacientes infectados. Em parceria com o Movimento Brasil Contra o Vírus, o objetivo inicial é fabricar 12 mil peças ao longo dos próximos três meses.
Foto: ALEX SILVA/ESTADAO
Leroy Merlin está produzindo protetores faciais
“Se for necessário, poderemos produzir mais”, diz Rodrigo Spillere, gerente de Inovação da Leroy Merlin. Ele conta que a sala onde antes eram feitos projetos de bricolagem na unidade da Marginal do Tietê, em São Paulo, foi isolada e passou por processo de higienização. Segundo ele, são utilizadas cinco impressoras 3D, com as quais são produzidas 50 máscaras ao dia. “Se uma técnica que estamos testando for aprovada, de uso de uma cortadora a laser, a capacidade pode subir para 2 mil ao dia”, informa Spillere.
Foto: ALEX SILVA/ESTADAO
Leroy Merlin está produzindo protetores faciais
No Rio, a PSA Peugeot Citroën usa suas impressoras 3D para produzir protetores faciais, em parceria com a Federação das Indústrias (Firjan). A FCA é outra montadora que vai fabricar cerca de 2 mil peças a serem doadas a serviços de saúde de Minas e Pernambuco.
A Esmaltec, do ramo de eletrodomésticos, se propôs a produzir componentes para a produção de cerca de 30 mil escudos, em iniciativa com o Senai do Ceará.


