Costábile Nicoletta (*) - Brasil Econômico
As manifestações dos bombeiros no Rio de Janeiro na sexta-feira e no sábado passados dão uma boa mostra de como o poder público tem muito a explicar à população.
Os líderes da manifestação afirmaram que, se seus protestos não fossem bem-sucedidos, trabalhariam em regime de operação padrão.
Um dos itens relacionados entre as atividades desse tipo de conduta era não sair do quartel com viaturas cuja documentação estivesse vencida. Ou seja, a instituição que tem como principal atribuição zelar pela segurança do cidadão não fazia isso dentro de casa.
Os bombeiros se queixam de que o salário mensal de R$ 900,00 que recebem não é compatível com a importância da profissão que exercem.
Recentemente, uma professora ficou famosa na internet quando seu depoimento em uma audiência pública com parlamentares foi reproduzido no YouTube, o mais popular site de vídeos da rede mundial de computadores. A professora também recebe R$ 900,00 por mês.
Por mais que imaginemos que nosso país esteja caminhando para o Primeiro Mundo, rotineiramente a realidade nos traz de volta ao chão. Profissionais que arriscam sua vida para proteger a nossa e docentes cuja contribuição laboral será decisiva na vida de nossos filhos ganham um salário miserável, que não lhes garante o sustento, tampouco o aperfeiçoamento de suas funções.
Ao tomar uma atitude extremada - fazer greve e bagunçar o coreto do Rio de Janeiro -, os bombeiros fluminenses deixaram em risco a população, que ficou um bom tempo sem serviço de resgate, de salva-vidas nas praias, de combate a incêndios, etc.
Foi o preço que decidiram assumir para mostrar a vida que levam. No caso dos professores, nem greve é preciso fazer. A vingança contra as péssimas condições de trabalho se manifesta no dia a dia.
Recentemente, numa escola da periferia de São Paulo, descobriu-se por que uma das alunas era agressiva com as colegas desde os primeiros anos letivos.
Imaginava-se que fosse muda, pois não falava com ninguém. Até que se percebeu que ela também não atendia aos chamados a seu nome prontamente. Encaminhou-se a aluna para outra escola pública estadual próxima, na qual a submeteram a um exame de audiometria.
Constatou-se que a menina tinha deficiência auditiva numa gravidade tratável. Mas a demora no diagnóstico condenou a garota a nunca mais conseguir falar de modo inteligível.
É de imaginar o que os pais dessa garota e os familiares dos bombeiros pensam quando o ministro-chefe da Casa Civil, Antônio Palocci, pede à população que acredite em sua boa-fé, em vez de oferecer explicações plausíveis a sua evolução de patrimônio.
(*) Costábile Nicoletta é diretor adjunto do Brasil Econômico