Geralda Doca
O Globo
Secretário-geral da entidade diz que ‘jogada’ do governo para fazer caixa prejudica os mais pobres e deve ser condenada
Presidente do conselho que administra fundo de amparo ao trabalhador afirma que colegiado pediu à Caixa que avisasse quem não sacou o recurso
BRASÍLIA - O secretário-geral da Força Sindical, João Carlos Gonçalves (Juruna), criticou nesta sexta-feira a decisão do governo sobre fazer caixa com recursos do abono salarial para ajudar no superávit primário. Para o sindicalista, a estratégia de não realizar campanha publicitária para avisar sobre o prazo final do saque do PIS, a fim de segurar recursos em Caixa, é uma jogada que prejudica os trabalhadores mais pobres, com pouco acesso à informação.
— Uma jogada dessa é ruim para o governo, que tem outras ações benéficas para os mais pobres, como o Bolsa Família, por exemplo. Acho que todas as centrais sindicais deveriam se posicionar majoritariamente contra — disse o sindicalista.
O presidente do Conselho Deliberativo do Fundo de Amparo ao Trabalhador (Codefat), Quintino Severo, que é ligado à CUT, evitou fazer críticas ao governo e destacou que os conselheiros fizeram sua parte ao determinar à Caixa Econômica Federal que enviasse as correspondências aos trabalhadores que ainda não foram buscar o dinheiro:
— A nossa parte nós já fizemos. O Codefat mandou a Caixa enviar as cartas aos trabalhadores — disse Severo.
Como mostrou O GLOBO em reportagem publicada nesta sexta-feira, com dificuldade para cumprir a meta de superávit do ano, o governo tenta fazer caixa com um dinheiro destinado aos trabalhadores mais pobres: o abono salarial. O benefício, no valor de um salário mínimo (R$ 724), é pago todo ano aos trabalhadores que recebem até dois salários. O prazo para o recebimento do abono encerra no dia 30 de junho.
Em anos anteriores, o governo fez campanhas publicitárias para alertar as pessoas a procurarem as agências da Caixa Econômica Federal e sacar o dinheiro dentro do prazo. Este ano, em março, o Ministério do Trabalho iniciou os preparativos da campanha publicitária, mas ela foi suspensa. De acordo com integrantes do governo, a orientação partiu do Ministério da Fazenda e o objetivo é reservar os recursos para compor o superávit primário, economia que o governo faz para o pagamento dos juros da dívida.
Segundo o Ministério do Trabalho, há ainda 1,83 milhão de beneficiários que não sacaram o abono, o que equivale a uma quantia de R$ 1,32 bilhão. Tem direito ao abono, quem trabalhou com carteira assinada por pelo menos um mês no ano anterior ao do pagamento. Para isso, é preciso estar inscrito no cadastro do PIS há pelo menos cinco anos.