terça-feira, abril 21, 2020

Covid-19 desafia 3 autocratas de grupo cético apelidado ‘Aliança do Avestruz’

Paulo Beraldo, 
O Estado de S.Paulo

Líderes de Nicarágua, Turcomenistão e Bielo-Rússia – grupo em que a revista ‘Economist’ incluiu Brasil e ao qual acusou de ignorar pandemia – sofrem crítica interna incomum por ditar ordens contra isolamento

  Foto: Vasily Fedosenko/Reuters 
Em meio à pandemia de coronavírus, campeonato
 de MMA não foi suspenso na Bielo-Rússia
  
A maior parte do mundo tomou medidas para conter o coronavírus. Alguns países, porém, ignoram a pandemia. Na semana passada, a revista The Economist colocou Jair Bolsonaro ao lado de Alexander Lukashenko, que está há 26 anos no poder na Bielo-Rússia, do ditador do Turcomenistão, Gurbanguly Berdymukhamedov, e de Daniel Ortega, presidente da Nicarágua. Segundo a publicação, eles não levam o vírus a sério.

Oliver Stuenkel, professor de relações internacionais da Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo, apelidou o grupo de “Aliança do Avestruz”, em referência ao mito de que o bicho enterra a cabeça na terra quando enfrenta perigo. Além dos riscos à saúde pública, a negação acarreta custos políticos. A dissidência na Nicarágua está fervilhando. Pela primeira vez em duas décadas, o presidente bielo-russo vem sendo criticado no país. A oposição no Turcomenistão, quase toda no exílio, também aumentou as críticas ao presidente.

Na Nicarágua, o comércio funciona, as crianças continuam frequentando as aulas e a bola segue rolando no campeonato nacional de futebol. Ortega esteve sumido por 34 dias, mas reapareceu na quinta-feira e disse que o vírus é um “sinal de Deus”. “Declarar quarentena é uma medida alarmante e extremista”, disse o presidente, que não explicou o que pretende fazer com os 28 mil kits de testes doados pelo Banco Centro-Americano de Integração Econômica – epidemiologistas dizem que o número de casos positivos não cresce, pois simplesmente não se testa ninguém no país. 

O mesmo filme se repete na Bielo-Rússia, governada por Lukashenko, que chamou a pandemia de “psicose” e decretou que ninguém morrerá de covid-19 sob o seu comando. “Declaro isso publicamente”, disse o autocrata, no dia 13, quando autoridades sanitárias já contabilizavam 29 mortes. Contra o vírus, ele recomendou à população sauna e 50 mililitros de vodca por dia.  

No Turcomenistão, o presidente também promove uma solução inusitada. Berdymukhamedov determinou que seus ministros usem a fumaça de uma erva chamada “harmala”, um alcaloide, para matar os “vírus invisíveis aos olhos”. Nos próximos dias, além da Nicarágua, o Estado mostra como a pandemia está sendo tratada pelos líderes colocados pela Economist entre os mais negacionistas do mundo.