terça-feira, novembro 30, 2021

Rivalidades globais emperram a revolução da energia limpa

  Dionne Searcey, Michael Forsythe e Eric Lipton

The New York Times

  ©  (Ashley Gilbertson / The New York Times)

Mina de cobalto e cobre de propriedade chinesa em Kisanfu, Congo, 27 de abril de 2021.

Kisanfu, Congo – Em uma estrada de terra vermelha, passando por um trecho de mato alto, tratores abrem uma nova clareira que é fundamental para a corrida urgente do mundo contra o aquecimento global.

Por mais de uma década, essa terra intocada foi controlada por uma empresa americana. Agora, um conglomerado de mineração chinês a comprou e está correndo para recuperar seu tesouro enterrado: milhões de toneladas métricas de cobalto.

Esse trecho no sudeste do Congo, chamado Kisanfu, detém uma das maiores e mais puras reservas de cobalto inexploradas do mundo.

O metal, tipicamente extraído de depósitos de cobre, sempre foi de interesse secundário na mineração. Mas a demanda provavelmente vai explodir em todo o mundo, porque o metal é usado em baterias de carros elétricos, ajudando-os a funcionar durante mais tempo sem uma carga.

A busca pelo cobalto do Congo, porém, demonstrou como a revolução da energia limpa, destinada a salvar o planeta de um perigoso aumento de temperatura, está presa a um ciclo familiar de exploração, ganância e disputa, de acordo com uma investigação do "The New York Times".

Em particular, a rivalidade entre a China e os Estados Unidos poderia ter implicações amplas no objetivo comum de salvaguardar a Terra. Pelo menos aqui no Congo, a China está até agora vencendo essa disputa, porque as administrações Obama e Trump nada fizeram quando uma empresa apoiada pelo governo chinês comprou dois dos maiores depósitos de cobalto do país nos últimos cinco anos.

 © (Ashley Gilbertson / The New York Times)

Jovem procura cobalto que talvez tenha caído dos caminhões 

de uma mina sino-congolesa em Kolwezi, Congo, 25 de abril de 2021

Recentemente, durante uma visita para promover veículos elétricos em uma fábrica da General Motors em Detroit, o presidente Joe Biden, reconhecendo que os Estados Unidos tinham perdido algum terreno, declarou: "Corremos o risco de perder nossa vantagem como nação, e a China e o resto do mundo estão se recuperando. Bom, estamos prestes a mudar isso de forma grandiosa."

A China Molybdenum, nova proprietária das minas em Kisanfu desde o fim do ano passado, comprou as terras da Freeport-McMoRan, gigante americana de mineração que há cinco anos era um das maiores produtoras de cobalto no Congo.

Em junho, o governo Biden alertou que o país asiático poderia usar seu crescente domínio de cobalto para interromper o impulso americano em direção aos veículos elétricos, tirando da jogada os fabricantes dos EUA. Em resposta, os Estados Unidos estão pressionando pelo acesso a suprimentos de cobalto de aliados, incluindo a Austrália e o Canadá, de acordo com uma autoridade de segurança nacional com conhecimento do assunto.

Montadoras americanas como a Ford, a General Motors e a Tesla compram componentes de cobalto para baterias de fornecedores que dependem, em parte, de minas chinesas no Congo. Um veículo da Tesla requer cerca de quatro quilos e meio de cobalto, mais de 400 vezes a quantidade usada em um celular.

Uma revisão feita pelo "Times" de documentos apresentados às autoridades reguladoras na China mostra que as aquisições no Congo seguiram um manual sistemático.

No ano passado, 15 das 19 minas produtoras de cobalto no Congo eram de propriedade empresas chinesas ou financiadas por elas, segundo uma análise de dados do "Times" e da Benchmark Mineral Intelligence.

Essas empresas chinesas receberam pelo menos US$ 12 bilhões em empréstimos e outros financiamentos de instituições apoiadas pelo Estado. De fato, as cinco maiores empresas de mineração chinesas no Congo tinham linhas de crédito de bancos apoiados pelo Estado, que totalizaram US$ 124 bilhões, de acordo com os documentos revisados por este jornal.

A área em Kisanfu foi apenas uma das duas principais compras dos últimos anos feitas pela China Molybdenum. A primeira foi em 2016, quando a empresa assumiu o controle da Tenke Fungurume, mina que sozinha produz o dobro de cobalto de qualquer outro país do mundo. Pelo menos US$ 1,59 bilhão do preço da Tenke Fungurume de US$ 2,65 bilhões, segundo registros financeiros, vieram de empréstimos fornecidos por bancos estatais chineses.

Ao mesmo tempo, as empresas chinesas enfrentam novos ventos contrários do governo do Congo, de acordo com documentos obtidos pelo "Times" e entrevistas com autoridades atuais e passadas dos EUA.

As autoridades congolesas estão efetuando uma ampla revisão dos contratos de mineração passados, trabalho que fazem com a ajuda financeira do governo dos EUA.

Em agosto, o presidente do Congo, Felix Tshisekedi, nomeou uma comissão para investigar alegações de que a China Molybdenum, a empresa que comprou as duas propriedades da Freeport-McMoRan, poderia ter enganado o governo congolês em bilhões de dólares em pagamentos de royalties. A empresa corre o risco de ser expulsa do Congo.

Separadamente, pelo menos uma dúzia de funcionários ou empreiteiros da mina Tenke Fungurume declararam a este jornal que, depois que ela passou a ser propriedade chinesa, houve um declínio drástico na segurança e um aumento no número de acidentes. "As coisas estão desmantelando em matéria de segurança", disse Alfred Kiloko Makeba, que se aposentou no ano passado depois de uma década trabalhando como supervisor de segurança na mina.

Vincent Zhou, porta-voz da China Molybdenum, rejeitou as alegações e questionou se havia uma tentativa organizada de minar a empresa. "Os chineses têm um ditado que diz algo como: 'Onde houver vontade de condenar, as evidências surgirão.' Tenho a impressão de que cairemos no jogo das grandes potências", afirmou ele em uma resposta por escrito ao "Times".

Há anos, os países africanos recorrem à China para ajudar a construir infraestrutura com empréstimos ou com a comercialização de seus recursos naturais.

O projeto desses acordos foi elaborado em 2005, quando Joseph Kabila, o novo presidente do Congo, foi recebido no Grande Salão do Povo em Pequim. O objetivo da visita era tratar da ajuda do presidente Hu Jintao no estímulo à economia do Congo.

Os Estados Unidos, que durante muito tempo tinham prestado assistência econômica e militar ao Congo, estavam presos em guerras no Afeganistão e no Iraque e tinham se tornado cada vez mais desinteressados pelo país. O histórico de corrupção e desrespeito aos direitos humanos também assustava muitos bancos internacionais e investidores ocidentais.

A lista de pretensões de Kabila era longa: novas estradas, escolas e hospitais. Em troca, estava preparado para oferecer a vasta riqueza mineral de seu país – sem paralelo no mundo.

Os chineses aproveitaram a oportunidade para iniciar conversações formais com Kabila, que resultariam em um acordo de US$ 6 bilhões: a China pagaria por estradas, hospitais, linhas ferroviárias, escolas e projetos para expandir a eletricidade, tudo em troca de acesso a 9.071.850 toneladas de cobre e mais de 544.310 toneladas de cobalto.

Em 2015, a presença da China no Congo se tornou visível em inúmeros projetos de infraestrutura: estádios de futebol foram erguidos, estradas foram expandidas, trabalhos em instalações de tratamento de água foram iniciados.

O maior negócio foi efetuado em abril de 2016, quando a China Molybdenum, empresa cujos maiores acionistas são uma estatal e um bilionário recluso, fez sua oferta de US$ 2,65 bilhões para comprar a Tenke Fungurume, mina americana com uma das maiores reservas de cobalto do mundo.

Houve uma complicação. A Freeport-McMoRan contava com uma parceira canadense que tinha o direito de comprar sua participação. A solução da China Molybdenum era fazer com que uma empresa de private equity com sede em Xangai comprasse a parceira, mas mesmo esse acordo dependia de dinheiro do governo chinês.

Os registros da empresa mostram que nenhuma fração do valor de US$ 1,14 bilhão arrecadado para comprar a parte da parceira veio de investidores privados. A quantia veio de entidades controladas pelo Estado chinês, de acordo com os arquivos.

O conselho da empresa de private equity, conhecida como BHR, era basicamente composto por chineses, mas também incluía três americanos: Devon Archer, empresário que mais tarde foi condenado por fraudar a tribo sioux Oglala; James Bulger, filho do ex-presidente do Senado estadual de Massachusetts; e Hunter Biden, cujo pai era vice-presidente na época.

Em poucos anos, eles ajudariam a orquestrar o negócio entre a China Molybdenum e a gigante da mineração americana. Juntas, as vendas marcaram uma mudança da guarda no Congo, quando os Estados Unidos abandonaram seus interesses de mineração – problema que agora pesa sobre Joe Biden, já que ele e seus assessores perceberam a extensão do domínio da China em energia limpa.

A China Molybdenum aumenta constantemente sua produção. Em dezembro passado, arrebatou Kisanfu. Segundo as estimativas da empresa, o solo sob o local contém cobalto suficiente para alimentar centenas de milhões de Teslas de longo alcance.

E então, em agosto, a empresa anunciou planos de investir US$ 2,5 bilhões na Tenke Fungurume para dobrar a produção nos próximos dois anos. Quando a expansão estiver concluída, a mina produzirá cerca de 32 mil toneladas anualmente. No ano passado, os Estados Unidos produziram apenas 545 toneladas.

Essa tentativa de expansão, no entanto, vem atraindo escrutínio, podendo chegar até Tshisekedi, o presidente congolês.

Tshisekedi afirmou que seu foco não era qual potência estrangeira dominaria a mineração no Congo, mas sim como seu país poderia compartilhar a riqueza gerada pela revolução da energia limpa. "Temos um potencial incrível de energia renovável, seja por meio de nossos metais estratégicos, seja por intermédio de nossos rios", declarou, referindo-se tanto à mineração quanto à energia hidrelétrica. "Nossa ideia é: como podemos colocar esse recurso incrível à disposição do mundo, garantindo, ao mesmo tempo, que primeiro beneficie os congoleses e os africanos?"

c. 2021 The New York Times Company