por Glauco Fonseca, site Diego Casagrande
.
.
Nós, simples eleitores, quando nos dirigimos a uma cabine indevassável para apertar os números e o "confirma", apenas ensejamos que os eleitos mostrem serviço e eficácia na solução de problemas, como se fosse numa empresa. Nela, um comitê de acionistas empossa uma diretoria executiva que deverá fazê-la crescer e, mais do que isto, perpetuá-la.
Diferentemente de um governo, o ambiente empresarial é mais pragmático. Se determinada diretoria não atingir objetivos e não solucionar problemas, é demitida e substituída rapidamente. Se assim não for, a vida da organização é comprometida e ela pode morrer. Já com governos não é assim que acontece. Se um governante não conseguir superar problemas, se ele não for corajoso e inovador, se ele gastar errado ou deixar a gestão em maus lençóis, quase nada acontece. Isto é, acontece uma possível rejeição no próximo pleito e é só isso.
Para ser "demitido", um governante tem que cometer algum erro de proporções bíblicas. Não pode ser dispensado apenas caso se comprove sua imensa incompetência, não pode ser "convidado a se retirar" mesmo que fique evidente sua incapacidade gerencial e de trabalhar em equipe e não pode ser substituído nem que pairem sobre ele suspeitas de conduta duvidosa ou indecorosa. Para ser defenestrado, um governante brasileiro só precisa de no mínimo quatro e no máximo oito anos de serviços medíocres.
Numa empresa, alguns poucos meses (ou até mesmo dias) são necessários para que o conselho de administração se dê conta da escolha equivocada. Às vezes, acontecem exageros e precipitações. Empresarialmente falando, entretanto, a dúvida ou o erro persistido gera a falência da organização e morrer pode ser apenas resultado de uma péssima escolha.
Já em governos, assistimos a erros repetidos, lacunas de gestão que não cessam, incompetência se sobrepondo à eficiência e corrupção crescente ou não coibida. Em governos, assistimos falhas gerenciais, malversação de recursos, improbidade e inépcia generalizada. Pouquíssimos são substituídos, mesmo em cargos de confiança, nenhum é demitido mesmo por comprovada atitude ilegal e ninguém é punido por desrespeito à coisa pública, ao cidadão e à sociedade.
Em momentos críticos, porém, os mantos da democracia e da legalidade são muito bem utilizados pela incompetência no Brasil. Alguns nobres representantes populares alegam o direito à ampla defesa quando o que pretendem acessar é um judiciário também afetado pela incompetência que assola o ente público em todos os poderes. Ao se dizerem detentores de amplos direitos de defesa, querem é dizer que pretendem se submeter ao poder dos juízes. Mas não de qualquer juiz, mas dos juízes Rocha Mattos, Nicolaus e outros tantos e tantos que estão por aí dirigindo seus carros que, se adquiridos com os proventos e avanços, levariam mais de 100 anos para serem quitados. Já as empresas chamam a polícia, denunciam, o sujeito sai algemado diante dos olhos de seus pares e dificilmente ele voltará a trabalhar em lugar sério, com gente séria, num país sério.
Aqui, o que importa é o poder, o conforto que ele proporciona. Não se pagam dívidas, salários, fornecedores, não se economiza, demite nem tampouco se reduzem desperdícios. Por aqui, vale a cerimônia, a burocracia e a aparência. Ainda bem que nas empresas sérias não é assim.
O ideal seria o governante, depois de uma excelente noite de sono, se levantar, tomar seu café da manhã lendo o jornal e sofrer um ataque certeiro de lucidez e de bom senso ao dar-se conta de sua inoperância e incapacidade. Ele decidiria, solenemente, diante de seu indefensável fracasso diário, e diria à ordenança mais próxima: "Prepare o traje oficial. Hoje é um belo dia para renunciar".
(O sonho, assim como o choro, também é livre).