domingo, maio 13, 2007

Direita francesa é mais reformista que a esquerda

William Waack, Portal G1
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Uns 20 milhões de franceses assistiram ao debate entre Ségolène Royal e Nicolas Sarkozy, os dois candidatos que decidem domingo as eleições presidenciais. É o mesmo número de pessoas que estava diante da TV na França durante a final da Copa de 2006 (e, para os poucos que não ligam para futebol, a França jogava). Mesmo para um país como a França, é muito raro a política empatar com o futebol. Talvez pelo fato de estar no ar um clima de decisão.
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Há anos que se arrasta pela França (mas não só) uma interminável conversa sobre o que fazer para acabar com o desemprego estrutural, especialmente entre os jovens, como integrar (ou nem tentar?) as massas de imigrantes, sobretudo os muçulmanos, e de que maneira reformar (para que?) leis trabalhistas e o sistema de segurança social. O que empurra os eleitores franceses é a noção de que alguma coisa precisa mudar.
É o que está mais do que implícito nas táticas eleitorais, no comportamento de palanque e nas articulações políticas dos dois candidatos. Os franceses detestam comparar seus hábitos e costumes políticos com os do mundo anglo-saxão, mas, no caso das atuais eleições, é impossível deixar de observar um paralelo com o Reino Unido, ali tão perto e tão longe. Da mesma maneira que aconteceu na Inglaterra de Margaret Thatcher, na França a direita de Sarkozy encontrou as bandeiras de reformas que a esquerda de Royal tem repugnância em aceitar.
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Direita reformista contra esquerda conservadora? Seria uma simplificação que pouco ajudaria a entender o que vai pela cabeça dos franceses. Sarkozy e Royal militam há décadas na política, e cada um foi buscar no campo do outro (ou no que se convencionou definir como campo do outro) argumentos para ganhar votos. Não é só a questão de seduzir o eleitor indeciso de centro, como acontece em qualquer eleição com dois campos bem identificados.
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Embora fale em corte de impostos, redução do tamanho do Estado e incentivos para que os franceses trabalhem mais (vamos lá, “clássicos” do cardápio de “direita”), Sarkozy reitera ao mesmo tempo aqueles que são os valores fundamentais da social-democracia do continente europeu (abrangendo também Alemanha e Itália): solidariedade social, respeito aos sindicatos e manutenção das redes de segurança -Thatcher detestaria essa segunda parte.
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Na postura pública de Ségolène Royal não há quase nada que faça lembrar o lado socialista nos famosos debates de 1974 entre Giscard D`Estaign e François Mitterrand, um adepto do Estado forte e intervencionista (velha bandeira gaullista também).
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Sempre atrás nas pesquisas de intenção de voto, a candidata socialista tratou de ganhar o eleitor de centro fixando uma postura e uma imagem que lhe atribuam credibilidade -e parecendo o menos socialista possível. Num item essencial para o bolso do eleitor -impostos- ela foi ao ponto de dizer que “poderão ser mais baixos”. E foi evasiva quando indagada se vai mesmo baixar um imposto sobre ganhos auferidos em operações na bolsa.
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A França é hoje um país atrasado em relação aos seus principais vizinhos. Nos últimos 26 anos de governos Miterrand (socialista) e Chirac (conservador), os franceses ficaram ao largo de reformas que foram feitas por quase todos os seus vizinhos. Holanda, Reino Unido, Espanha, Irlanda e os países escandinavos sacudiram leis trabalhistas ou criaram pactos entre o capital e o trabalho; transformaram o clima de negócios; praticaram políticas industriais que garantiram a competitividade da própria economia -mantendo, ao mesmo tempo, seus delicados e caros sistemas de segurança e previdência sociais. Até a Alemanha, onde decisões de grande alcance só são tomadas por consenso entre os partidos, iniciou uma ambiciosa reforma trabalhista e previdenciária.
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Quarenta anos atrás fazia grande sucesso um livro com o título “o desafio americano”, que, simplificando, previa a hegemonia da economia americana e a inevitável decadência da Europa, especialmente a da França. É óbvio que as previsões se revelaram bastante equivocadas, e a nenhum eleitor nos principais países europeus de hoje lhe ocorre imitar os Estados Unidos. Mas é enorme, na França, o descontentamento com as instituições no próprio país, especialmente as políticas.
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Talvez decisivo para explicar o atual clima seja o fato de que Royal ou Sarkozy não parecem mais fazer parte das velhas elites políticas e burocráticas que sempre dividiram entre si o poder no pós guerra, socialistas ou conservadoras. Sarkozy lembra o executivo francês bem-sucedido que ajudou a Airbus a derrotar a Boeing no campo da alta tecnologia. Royal, a “madame com luvas de boxe” (na definição bem-humorada do adversário Sarkozy), foi ao ponto de criticar uma vaca sagrada para a esquerda, a imposição da semana de 35 horas de trabalho.
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Provavelmente Sarkozy será o vencedor, de acordo com as pesquisas de intenção de voto. E seria errado, na minha opinião, buscar nas razões de uma provável vitória da direita apenas a combinação da soma de extremistas que votaram em Le Pen no primeiro turno, mais os centristas preocupados com distúrbios causados por jovens na “banlieu” [as periferias], e o eleitorado que sempre votou conservador -na ponta do lápis, mais numerosos do que os eleitores socialistas e os das agremiações mais à esquerda que apóiam Royal no segundo turno.
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É que a direita, na França, promete reformas mais profundas.