terça-feira, maio 07, 2013

Indústria renova embate do governo com câmbio e inflação


Angela Bittencourt  
Valor

Se de um lado a criação de vagas no mercado de trabalho americano confirmou as expectativas animando os mercados, de outro o desempenho da produção industrial brasileira foi novamente frustrante. A expansão de 0,7% em março na comparação com fevereiro, praticamente a metade da variação de 1,3% projetada em média por 15 consultorias e instituições financeiras ouvidas pelo Valor Data, indica que o governo não terá trégua no enfrentamento de uma situação persistente e delicada que contrapõe fragilidade da recuperação da atividade e inflação forte. Isso vale também (ou principalmente) para o Banco Central. Além de responsável pelo cumprimento do regime de metas para a inflação, que exibe resistência exemplar no teto da banda de flutuação de 6,5%, a autoridade monetária assumiu uma firme posição contra a política cambial defendida pelo Ministério da Fazenda. Sem deixar dúvida sobre a posição da autarquia, na saideira de 2012, Alexandre Tombini, afirmou na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado que o BC não sancionaria taxa de câmbio muito desvalorizada. Disse mais: para a competitividade da economia brasileira o que interessa é a desvalorização real e não a nominal do câmbio. O presidente do BC não declarou que dólar acima de R$ 2,10 pressionaria a inflação. Mas a mensagem de Tombini foi assim interpretada. De lá para cá, o dólar chegou a cair a R$ 1,947 e ronda R$ 2,0, sem proporcionar alívio à inflação. 

Na audiência com parlamentares da CAE em dezembro, relata a jornalista Claudia Safatle, do Valor, em post publicado no Casa das Caldeiras, Tombini  assinalou, também, que a inflação “inspira” cuidados e destacou que o cenário de recuperação do crescimento, ainda que mais lento do que o previsto, iria se materializar em ambiente com a inflação sob controle. E citou, nesse aspecto, cinco fatores que devem levar a inflação – cujo comportamento recente tem decepcionado o governo – em direção à trajetória da meta ao longo de 2013.

São eles:
- O menor reajuste do salário mínimo, que terá repercussões sobre os custos de produção, sobretudo nos segmentos intensivos em mão de obra. Para a economia como um todo antecipam-se, portanto, variações salariais mais compatíveis com os ganhos de produtividade.

- As perspectivas para os próximos semestres indicam moderação na dinâmica dos preços de certos ativos reais e financeiros, sobretudo da taxa de câmbio. “Em particular, como temos afirmado, nosso regime de câmbio flutuante não deve ser visto como um incentivo para apostas que exacerbam a sua volatilidade”, disse ele.

- As medidas adotadas pelo governo para reduzir os custos de produção e aumentar a competitividade da economia brasileira devem começar a surtir efeitos.

- O crescimento da oferta de crédito tende a ocorrer em ritmo mais alinhado ao crescimento da renda disponível das famílias.

- O ainda frágil cenário internacional é um importante fator de contenção da demanda agregada.

Em tempo: em dezembro passado ainda estava valendo a mensagem do Copom lançada em outubro, quando foi encerrado o ciclo de alívio monetário, apontando a estabilidade da Selic por um período de tempo suficientemente prolongado como a estratégia mais adequada para garantir a convergência da inflação para a meta. O Copom já iniciou um novo aperto monetário, a Selic foi elevada em 0,50 ponto percentual para 7,50% e o mercado projeta, por ora, orçamento total de alta da taxa básica de 0,75 a 1,0 ponto percentual.