domingo, janeiro 23, 2022

Bolsonaro imita Trump, mas há diferenças — o americano se vacinou e até tomou dose de reforço

 Carlos Alberto Sardenberg, O Globo

Tribuna da Internet

O ex-presidente Donald Trump concedia uma entrevista, com plateia favorável, quando lhe perguntaram se havia tomado a dose de reforço. Trump respondeu “sim” — e com entusiasmo. Foi surpreendido com vaias. Não se intimidou. Apontou o dedo para o grupo que vaiava e comentou que se tratava de uma minoria. Era mesmo.

Como conciliar isso com a atitude francamente negacionista dos republicanos e do próprio Trump? São contra qualquer medida que torne a vacina obrigatória — como ocorre quando uma empresa só emprega imunizados ou quando um estabelecimento só permite a entrada de quem apresentar o certificado.

NÃO É CONTRADITÓRIO? – Para os republicanos, essas regras restringem a liberdade individual, configuram uma quase ditadura. Nesse caso, vacinar-se não é contraditório? Parece. E, de fato, 60% dos americanos não vacinados se declaravam republicanos — isso em outubro, segundo pesquisa citada pelo economista Paul Krugman em coluna no New York Times.

A explosão da Ômicron vem sendo chamada de “histeria irracional” por lideranças republicanas do primeiro time. E, entretanto, Trump se vacinou e contou isso para todo mundo. Qual a lógica?

Trata-se de política, não de ciência, sugere o mesmo Krugman. A hipótese é a seguinte: mesmo sabendo que a pandemia é grave e que a vacina funciona, os chefões republicanos fazem campanhas negacionistas para, primeiro, fidelizar sua base de ignorantes e, segundo, atrapalhar o governo do democrata Biden, criar caso, gerar medo e insegurança, sentimentos que sempre se voltam contra o presidente de plantão.

PURA MALDADE – É extremamente cruel fazer política com a morte de milhares de pessoas. É pura maldade, mas lógico para quem está na oposição e não se guia pelos valores morais. Tudo isso para dizer que o presidente Bolsonaro e sua turma não agem como os republicanos dos Estados Unidos.

Bolsonaro está no governo. Seu negacionismo, que leva medo e insegurança a milhões de brasileiros, age contra o próprio bolsonarismo. Ao contrário de Trump, que se imuniza, Bolsonaro não se vacina e acredita mesmo em todas aquelas asneiras que se fala sobre os imunizantes e que tentam minimizar a pandemia.

Ele acha mesmo que existem por aqui “os tarados da vacina”, acredita que crianças não morrem de Covid-19, embora os dados provem o contrário, e desconfia mesmo que a Anvisa age com base em interesses escusos.

APENAS IGNORÂNCIA – Bolsonaro não prova nada, assim como nunca provou que as urnas eletrônicas podem ser fraudadas. Trata-se de um negacionismo realmente ignorante, e não uma tática política.

A consequência política é contra Bolsonaro. Basta olhar pesquisas mostrando que metade dos que votaram no “mito” já o abandonou. São os que votaram em Bolsonaro por medo de Lula, mas são aqueles que se vacinam e temem por suas vidas no ambiente de pandemia.

Trump mandou invadir o Capitólio para tentar reverter a derrota que sofrera nas urnas. Até hoje, ele diz que a eleição foi uma fraude. Bolsonaro tentou um golpe no 7 de Setembro, numa ação tão estapafúrdia que quase levou a sua própria queda. Continua dizendo que houve fraude na eleição que ganhou com relativa folga.

OUTRAS DIFERENÇAS – Trump joga com as palavras, Bolsonaro acredita nas bobagens que diz, como se estivesse numa mesa de botequim. Trump é esperto. Bolsonaro é um tolo que se elegeu por uma combinação incrível de circunstâncias políticas e acasos.

Trump sabe o que faz na oposição. Bolsonaro age contra seu próprio governo, uma mistura de incompetência e ideias (ideias?) ruins. Trump continua exercendo a liderança que construiu num programa de televisão. Bolsonaro continua como um deputado do baixo clero, de onde nunca deveria ter saído.

Por tudo isso, sua reeleição é altamente improvável. Não se pode dizer impossível porque, enfim, já aconteceu uma vez. Mas, em circunstâncias normais, a questão política hoje é saber quem será adversário para Lula. Num ano ruim para a economia, ainda não se sabe quem apontará um rumo para a retomada do crescimento. Não é Lula, pelo que têm dito o candidato e seus seguidores.