Carlos Chagas
Tribuna da Imprensa
Desde tempos imemoriais que a Humanidade assiste o duelo entre a fé e a razão. Muita gente tentou conciliar os dois valores, de Aristóteles a Santo Thomaz de Aquino, mas, na verdade, o conflito permanece.
Tome-se a presidente Dilma que tem declarado ser preciso acreditar que o Brasil não vai ter crise energética. Detalhou mais, acentuando que vamos descobrir o gás que precisamos descobrir ou vamos comprar o gás que precisamos comprar. É preciso acreditar nisso. Somente acreditando vamos ver as coisas acontecerem.Trata-se de verdadeira manifestação de fé.
O problema é que a razão aponta no sentido oposto. A Petrobrás já começou a racionar o gás. Cortou 17% da distribuição no eixo Rio-São Paulo. A falta de chuva contribui racionalmente para o temor de vir a faltar energia hidrelétrica. A falta de recursos marca outro ponto para a razão, no que diz respeito à inacabada terceira usina nuclear de Angra III. E a falta de pudor da indústria petrolífera internacional fecha o placar, sabotando a alternativa do etanol como combustível renovável e limpo.
Vamos ter fé, como apregoa a presidente, mas se a fé move montanhas, não se tem notícia de que possa extrair gás de onde a Petrobrás não investiu, ou seja, em amplas regiões do território nacional. Muito menos a fé irá obrigar o presidente Evo Morales a aumentar as exportações para o Brasil. Um pouquinho de força talvez gerasse melhores resultados.
A lição que fica é de que as coisas podem não acontecer, mesmo se acreditando nelas.
LIÇÕES DE ROBERTO LYRA
Tempos atrás a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara rejeitou projeto de lei do então deputado Fernando Gabeira, legalizando a prostituição. Trata-se de questão complicada. De um lado, legalizada a atividade, poderiam beneficiar-se quantas infelizes a praticam, a imensa maioria delas por necessidade. No reverso da medalha, porém, seria institucionalizar a barbárie e rebaixar o gênero humano aos piores patamares.
Mais de cinquenta anos atrás a Faculdade de Direito do Rio de Janeiro promoveu importante seminário sobre a prostituição, sob o título interrogativo de "Será um Mal Necessário?".
Coube a um competente delegado de Costumes da antiga capital desenvolver profundo raciocínio a respeito da importância de minorar as agruras das prostitutas pela legalização de sua atividade. Já que elas existiam, e parecia impossível extinguir a atividade milenar, melhor seria a lei ampará-las. Por cinco minutos a faculdade inteira levantou-se para aplaudir aquela argumentação.
Presidia os trabalhos um dos maiores penalistas brasileiros de todos os tempos, o inesquecível professor Roberto Lyra, já chegando aos oitenta anos de idade. Farta cabeleira branca, emocionado, ele apelou ao plenário para que não tirasse as ilusões de um velho: que não o deixassem sozinho com a amargura de ver legalizada a possibilidade de condenar nossas irmãs, nossas filhas, nossas mulheres e nossas mães à prostituição.
Seguiram-se quinze minutos de aplausos delirantes. O velho mestre saiu carregado nos ombros dos alunos.