quarta-feira, maio 01, 2013

A fé e a razão


Carlos Chagas
Tribuna da Imprensa

Desde tempos imemoriais que a Humanidade assiste o duelo entre a fé e a razão. Muita gente tentou conciliar os dois valores, de Aristóteles a Santo Thomaz de Aquino, mas, na verdade, o conflito permanece.
Tome-se a  presidente Dilma  que tem declarado  ser preciso acreditar que o Brasil não vai ter crise energética. Detalhou mais, acentuando que vamos descobrir o gás que precisamos descobrir ou vamos comprar o gás que precisamos comprar. É preciso acreditar nisso. Somente acreditando vamos ver as coisas acontecerem.Trata-se de  verdadeira manifestação  de fé. 

O problema é que a razão aponta no sentido oposto. A Petrobrás já começou a racionar o gás. Cortou 17% da distribuição no eixo Rio-São Paulo. A falta de chuva contribui racionalmente para o temor de vir a   faltar energia hidrelétrica. A falta de recursos marca outro ponto para a razão, no que diz respeito à inacabada terceira usina nuclear de Angra III.  E a falta de pudor da indústria petrolífera internacional  fecha o placar,  sabotando  a alternativa  do etanol como combustível renovável e limpo.

Vamos ter fé, como apregoa a  presidente,  mas se a fé move montanhas, não se tem notícia de que possa extrair gás de onde a Petrobrás não investiu, ou seja, em amplas regiões do território nacional. Muito  menos  a fé irá  obrigar o presidente Evo Morales a aumentar as exportações para o Brasil. Um pouquinho de força talvez gerasse melhores resultados. 

A lição que fica é de que as coisas podem  não acontecer, mesmo se acreditando nelas.

LIÇÕES DE ROBERTO LYRA 
 Tempos atrás a  Comissão de Constituição e Justiça da Câmara  rejeitou  projeto de lei do então  deputado Fernando Gabeira, legalizando a prostituição.  Trata-se de questão complicada. De um lado, legalizada a atividade, poderiam beneficiar-se quantas infelizes a praticam, a imensa maioria delas por necessidade.  No reverso da  medalha, porém,  seria institucionalizar a barbárie e rebaixar o gênero humano aos piores patamares.

Mais de cinquenta anos atrás a Faculdade de Direito do Rio de Janeiro promoveu importante seminário sobre a prostituição, sob o título interrogativo de "Será um Mal Necessário?".

Coube a um competente delegado de Costumes da antiga capital desenvolver profundo raciocínio a respeito da importância de minorar as agruras das prostitutas pela legalização de sua atividade. Já que elas existiam, e parecia impossível extinguir a atividade milenar, melhor seria a lei ampará-las.  Por cinco  minutos a  faculdade inteira levantou-se para aplaudir aquela  argumentação.

Presidia os trabalhos um dos  maiores penalistas brasileiros de todos  os tempos, o inesquecível    professor Roberto Lyra, já  chegando aos oitenta anos de idade.  Farta cabeleira branca, emocionado, ele apelou ao  plenário para que não tirasse as ilusões de um velho:  que não o deixassem  sozinho com a amargura de ver legalizada a possibilidade de condenar nossas irmãs, nossas filhas, nossas mulheres e nossas mães  à prostituição.

Seguiram-se quinze minutos de aplausos delirantes. O velho mestre saiu carregado nos ombros dos alunos.