Zuenir Ventura, O Globo
Nos últimos três anos, alguma coisa mudou na política de segurança pública do estado, ainda que o governador e os dirigentes da área continuem os mesmos. Percebe-se isso, comparando a invasão do Morro do Alemão de 2007 e a de agora. Estive lá naquela época e voltei na terça-feira passada.
Em junho daquele ano, 1.350 policiais civis, militares e soldados da Força Nacional entraram na comunidade, mataram 19 pessoas — a maioria sem envolvimento com o tráfico — não apreenderam drogas nem armas e sequer prenderam um bandido importante.
Foi um "massacre", como classificaram moradores e entidades de direitos humanos. Dias depois, pude constatar o reaparecimento ostensivo dos traficantes e a revolta da população local.
Nos artigos que escrevi sobre a visita — "O complexo alemão" — informava: "O chefe montou um ‘tribunal’ para torturar e matar os moradores acusados de terem colaborado com a polícia, conforme denúncia do próprio secretário de Segurança, José Beltrame."
Eu perguntava: "Será essa a estratégia mais eficaz para se ganhar, não uma batalha, mas a guerra?"
Evidentemente, não era, e agora tudo foi diferente: da concepção — não mais entrar, matar e sair, mas ocupar — ao uso de tanques blindados da Marinha, que tornaram possível a incursão, passando pela maneira como trataram os moradores.
Talvez por isso é que, apesar de alguns graves problemas táticos, como não prever as rotas de fuga dos bandidos, e de natureza disciplinar, como excessos praticados por soldados, a operação recebeu aplausos do morro e do asfalto. Acho que nunca se torceu tanto pela polícia nos dois lados da cidade.
Procurei não me identificar como jornalista para que as pessoas pudessem ser mais francas nas suas impressões. Conversei com comerciantes, fregueses, donas de casa, trabalhadores.
Vi de perto o que colegas da televisão e dos jornais já tinham mostrado, ou seja, a mudança do estado de espírito da população. Primeiro o alívio, depois a alegria, enfim aquele clima de liberdade reconquistada substituindo o medo. Me lembrei de dois momentos: o Brasil se livrando da ditadura e a festiva Revolução dos Cravos em Portugal.
Um pouco daquilo estava ali no Alemão, nos pequenos gestos: na bagunça das crianças brincando, nas gargalhadas dos adultos, nos comentários em voz alta, nas opiniões dadas sem olhar para o chão — a trilha sonora podia ser o "Apesar de você", de Chico Buarque.
Menos, colunista, menos. Não há "enorme euforia", mas cautela. Embora a esperança seja o sentimento predominante — em 2007 era a revolta — ainda existe o temor de que "eles" voltem (não custa lembrar que o Bope hasteou sua bandeira na Vila Cruzeiro em 2008).
Um senhor, que mora há 50 anos na comunidade, resumiu esse sentimento, quando lhe perguntei: "Em suma, o sr. está otimista ou pessimista?"
"Otimista", respondeu, acrescentando: "Mas com o pé atrás."