Gilberto de Mello Kujawski*
Ela não tem um pingo de senso de humor, o que Lula tem para dar e vender. Ela não tem a mínima graça nem na expressão, nem na presença, nem nas respostas ou interpelações
Antes de FHC sair do governo, após oito anos na presidência, escrevi um artigo no Estadão, intitulado "Saudades de Fernando Henrique".
Pois agora, em face da eleição de Dilma Roussef, seria o caso de escrever outro texto com o título "Saudades de Lula". Lula, com todos os defeitos que se atribuam à sua personalidade, de forma paradoxal, exibe "as qualidades de seus defeitos". O principal defeito de Lula como político, e nisso ele se parece muito com seu outrora arqui-inimigo, Fernando Collor, é querer governar acima das instituições, e até contra elas. Ignorando a separação de poderes, sobrepõe-se ao Legislativo, esnoba o Judiciário, faz pouco das autonomias estaduais, desafia os órgãos de fiscalização, reduz a cacos os partidos e agride direta ou veladamente a imprensa.
A principal qualidade de seus defeitos é a capacidade incomum de conciliação que sabe exercer, justamente porque não tem compromisso com nenhuma instituição, podendo jogar livremente com elas. Em seu xadrez político todas as peças trocam de função conforme as conveniências de seu jogo pela conservação do poder. O sindicalista Luís Inácio nunca foi nenhum radical, nenhum incendiário, e sim, desde os tempos de líder sindical até hoje, um soberbo negociador e um habilíssimo conciliador. Conhece os homens e sabe comprar cada um pelo seu preço, traço que não exalta seu caráter, mas o distingue como nosso mais hábil contendor na arena política. Lula sabe barganhar, conciliar, comunicar-se com seu eleitorado melhor do que qualquer Sílvio Santos, mostrar-se simpático e espirituoso.
E Dilma? Esta não possui a qualidade de seus defeitos, mas o contrário - o defeito de suas qualidades. Qual seria a principal qualidade da presidente eleita? Talvez a sua propalada capacidade administrativa. Ora, para administrar é preciso saber comunicar-se, conciliar interesses, negociar, impor-se não pela força do cargo e sim pela sedução da personalidade, como faz Lula. Este, no poder, sempre cortejou a iniciativa privada, sempre favoreceu empresários, banqueiros, ao mesmo tempo em que fazia a inclusão da classe C no mercado de consumo. Sabe dar uma no cravo, outra na ferradura, como tem de fazer o bom governante. Assim não pensa e não quer fazer a presidente eleita. Dilma, estatizante e intervencionista, alimenta contra a iniciativa privada uma antipatia e desconfiança irredutíveis.
Esta senhora quer se fazer simpática, mas sua fisionomia, sua conduta na mídia, sua terrível dificuldade de comunicação com o público,até suas gafes desastrosas, denunciam sua total falta de jogo de cintura, sua rigidez de convicções, seu autoritarismo congênito e seu fundo de prepotência.
Ela não tem um pingo de senso de humor, o que Lula tem para dar e vender. Ela não tem a mínima graça nem na expressão, nem na presença, nem nas respostas ou interpelações. Ela saiu de um congelador no qual se lê o letreiro "Departamento de Operações Técnicas". Nunca será política, jamais passará de uma tecnocrata primária e sem largueza de horizonte.
O fenômeno Lula é maior do que a pessoa de Lula, com seus modos chulos, sua vulgaridade, sua grosseria, sua ignorância e seu desrespeito às instituições. O fenômeno Lula significa a irrupção do outro Brasil, o Brasil
ignorado dos grotões, iletrado, excluído, devoto do Conselheiro e do Padre Cícero, no asfalto e nas empresas do País industrial, urbanizado, universitário e civilizado. Lula trouxe para a grande cidade e para a política a sabedoria do analfabeto, informal, instintiva, inspirada em outra lógica diferente daquela que está na cabeça das pessoas cultas e bem-pensantes, guiadas por princípios políticos e padrões éticos que construíram o império e a república. Não é por acaso que se orgulha da sua falta de instrução formal e de não gostar de ler, ignorando a história, a literatura, o direito público e a teoria que edificaram o Estado brasileiro no qual ele está refestelado. No entanto, foi a sabedoria do analfabetismo que o inspirou a manter a política econômica do governo anterior e a não insistir no terceiro mandato, ao contrário de seu comparsa na Venezuela. Estivesse em seu lugar um petista mais ilustrado, como José Dirceu, por exemplo, e a cartilha do PT seria executada à risca, sem a inflexão que em boa hora lhe imprimiu o ex-torneiro mecânico.
Bolsa-família, salário mínimo, acesso ao crédito? De uma vez por todas, a imensa popularidade de Lula não se explica pelo sucesso do bolsa-família, pela valorização do salário mínimo e pelo acesso do povão ao crédito fácil. Os 80% da popularidade do presidente só se explicam por um apelo mais forte. E este está na própria pessoa de Lula, um retirante nordestino, aparentemente bronco, que, graças à sua perspicácia fora do comum, subiu como um rojão ao mais alto posto de comando do país, criando assim uma nova exemplaridade na qual se miram 80% dos brasileiros que buscam o sucesso. A força de Lula está em mostrar que não é preciso pertencer às classes dominantes, nem ter diploma universitário, nem enquadrar-se na moldura de um partido e das instituições democráticas, para VENCER.
É na sua biografia de homem vitorioso, egresso da parte mais pobre, ignorante e ignorada da população marginalizada do país, que reside o prestígio crescente de Lula, hoje praticamente uma unanimidade nacional.
Esta unanimidade não significa que devemos nos ajoelhar perante sua pessoa e aceitá-la cegamente, como fazem seus eleitores. Significa que devemos mudar a estratégia de oposição ao seu nome. Não há mais espaço, não existe clima nem acústica no país para atacar e criticar Lula como se fazia até há pouco, desqualificando sua imagem e verberando sua conduta. O anti-Lula deve dar lugar, agora, ao pós-Lula. Luiz Inácio já deu seu recado, já fez o que tinha o de fazer e assim passou à história, e com a história não se discute. O que cumpre fazer é recolher o legado positivo de Lula e tratar de reconstituir o cenário institucional brasileiro, arrasado por ele, que passou como um tufão proclamando aos quatro ventos - faça-se sua vontade e o mundo que se acabe. O cenário pós-Lula é um vazio institucional. Lula sacrificou as instituições democráticas para impor sua maneira de ser e de fazer política. Agora, a tarefa consiste em reedificar o que ele destruiu, preservando a herança que recebeu dos governos anteriores, o que possibilitou seu presente sucesso. Para cumprir essa tarefa seria preciso ou seria melhor que Dilma não tivesse sido eleita, e que a oposição reconquistasse sua bandeira e seu discurso.
* Gilberto de Mello Kujawski é jornalista e escritor.