domingo, dezembro 05, 2010

Com medo do Nobel da Paz, China proíbe críticos de deixar o país

Cláudia Trevisan, Estadão.com

O governo chinês proibiu que críticos do regime de Pequim deixem o país, com o temor de que eles participem da cerimônia de entrega do Prêmio Nobel da Paz de 2010, marcada para o dia 10 de dezembro. O vencedor, anunciado há dois meses, é o dissidente Liu Xiaobo, condenado a 11 anos de prisão sob acusação de subversão.

A mais recente “vítima” da ofensiva oficial foi o artista plástico Ai Wei Wei, impedido ontem de embarcar em um vôo para Seul, capital da Coreia do Sul. No dia anterior, o economista Mo Yushi, de 80 anos, foi barrado no aeroporto quando tentava ir para Cingapura.

“Isso me lembra a Revolução Cultural [1966-1976]. Eu sou impedido de ir ao exterior e eles me dizem que é pela segurança nacional. É a mesma lógica”, escreveu Mo em seu microblog. Cerca de dez ativistas já haviam sido impedidos de deixar o país nas últimas semanas.

A premiação de Liu enfureceu Pequim, que deu início a uma ofensiva global para esvaziar a cerimônia, com ameaças de retaliação aos países que enviarem representantes a Oslo. Rússia, Cuba, Marrocos e Iraque estão entre as nações que recusaram o convite para o evento.

Na quinta-feira, a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Jiang Yu, afirmou que Liu é um criminoso, condenado nos termos da legislação do país. Segundo ela, a sua escolha para o Prêmio Nobel da Paz é “uma flagrante provocação e interferência na soberania judicial da China”.

Desde o anúncio da premiação, as autoridades de Pequim aumentaram a vigilância sobre críticos que poderiam participar do evento e colocaram alguns deles em prisão domiciliar.

A própria mulher de Liu Xiaobo, Liu Xia, está confinada em seu apartamento em Pequim sob constante vigilância policial. Nenhum dos familiares do dissidente deverá comparecer à cerimônia.

Em uma carta abertura colocada na internet, Liu Xia convidou 140 chineses críticos do Partido Comunista a estarem em Oslo no dia 10, mas apenas um confirmou presença até agora: Wan Yanhai. Ativista que defende os direitos dos portadores do vírus HIV, Wan deixou a China em maio e passou a viver nos Estados Unidos, em razão do aumento da repressão oficial à sua atuação.

A ausência de familiares de Liu Xiaobo levou o comitê responsável pelo Nobel da Paz a considerar o adiamento da cerimônia. A ideia foi abandonada, mas é provável que a evento ocorra sem a apresentação do prêmio _uma medalha, um diploma e US$ 1,4 milhão.

O dissidente chinês foi preso em 8 de dezembro de 2008, dois dias antes da divulgação da Carta 08, um manifesto assinado por 303 intelectuais, advogados e ativistas chineses em defesa de reformas políticas no país.

Liu foi um dos idealizadores e signatários do documento, que ganhou a adesão de milhares de pessoas depois que começou a circular na internet. No dia 25 de dezembro de 2009, ele foi condenado a 11 anos de prisão, pena elevada mesmo para os padrões chineses.

O Comitê Norueguês afirmou que Liu foi escolhido para “por sua longa e não-violenta luta em favor dos direitos humanos na China”. A entidade lembrou os avanços econômicos obtidos pelo país nas últimas três décadas e o fato de que milhões de pessoas foram retiradas da pobreza nesse período.

“O novo status da China acarreta crescentes responsabilidades”, disse o presidente do comitê, Thorbjorn Jagland. “A China viola uma série de acordos internacionais dos quais é signatária, bem como suas próprias regras relativas a direitos políticos”, acrescentou, lembrando que o artigo 35 da Constituição do país prevê as liberdades de expressão, de imprensa, de associação, de assembléia e de demonstração, nenhuma das quais é respeitada na prática.