Reinaldo Azevedo
Publiquei ontem à noite a entrevista que o governador do Rio, Sérgio Cabral, concedeu ao Portal G1. Trata-se ali de muitos assuntos, mas duas opiniões do governador chamaram a minha atenção. Ele volta a defender a legalização das drogas e o aborto. No primeiro caso, compara o consumo ao do cigarro e do álcool. Já escrevi aqui sobre a falácia desse argumento. São desiguais na origem, na cultura e, claro, na prática. Empolgado, à esteira de pensar com desassombro, também defende o aborto como um medida de combate à violência. Reproduzo a questão e a resposta:
Publiquei ontem à noite a entrevista que o governador do Rio, Sérgio Cabral, concedeu ao Portal G1. Trata-se ali de muitos assuntos, mas duas opiniões do governador chamaram a minha atenção. Ele volta a defender a legalização das drogas e o aborto. No primeiro caso, compara o consumo ao do cigarro e do álcool. Já escrevi aqui sobre a falácia desse argumento. São desiguais na origem, na cultura e, claro, na prática. Empolgado, à esteira de pensar com desassombro, também defende o aborto como um medida de combate à violência. Reproduzo a questão e a resposta:
G1 – Mas o Brasil não consegue dar conta do mosquito da dengue. Teremos condições de resolver essa questão das drogas?
Cabral - O Brasil não dá conta do câncer. Não dá conta dos que necessitam de CTIs. Não dá conta de um monte de coisas. Se for partir para isso... São duas questões que têm a ver com violência: uma é a questão das drogas que é mais internacional. O Brasil deve contribuir. A outra, é um tema que, infelizmente, não se tem coragem de discutir. É o aborto. A questão da interrupção da gravidez tem tudo a ver com a violência pública. Quem diz isso não sou eu, são os autores do livro "Freakonomics" (Steven Levitt e Stephen J. Dubner). Eles mostram que a redução da violência nos EUA na década de 90 está intrinsecamente ligada à legalização do aborto em 1975 pela suprema corte americana. Porque uma filha da classe média se quiser interromper a gravidez tem dinheiro e estrutura familiar, todo mundo sabe onde fica. Não sei por que não é fechado. Leva na Barra da Tijuca, não sei onde. Agora, a filha do favelado vai levar para onde, se o Miguel Couto não atende? Se o Rocha Faria não atende? Aí, tenta desesperadamente uma interrupção, o que provoca situação gravíssima. Sou favorável ao direito da mulher de interromper uma gravidez indesejada. Sou cristão, católico, mas que visão é essa? Esses atrasos são muito graves. Não vejo a classe política discutir isso. Fico muito aflito. Tem tudo a ver com violência. Você pega o número de filhos por mãe na Lagoa Rodrigo de Freitas, Tijuca, Méier e Copacabana, é padrão sueco. Agora, pega na Rocinha. É padrão Zâmbia, Gabão. Isso é uma fábrica de produzir marginal. Estado não dá conta. Não tem oferta da rede pública para que essas meninas possam interromper a gravidez. Isso é uma maluquice só.
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É um escândalo
Em primeiro lugar, Sérgio Cabral não leu o livro. Ele transforma o que, lá, é, no máximo, uma correlação — na verdade, um chute — em uma relação de causa e efeito. Os autores não defendem o aborto como método para diminuir a violência. E é isso o que faz o governador do Rio de Janeiro, dizendo-se, não obstante, cristão e católico. Vai ver anda lendo o Eclesiastes com as mesmas lentes demoníacas do autoproclamado bispo Edir Macedo, dono da Record e da seita Igreja Universal do Reino de Deus.
É um escândalo
Em primeiro lugar, Sérgio Cabral não leu o livro. Ele transforma o que, lá, é, no máximo, uma correlação — na verdade, um chute — em uma relação de causa e efeito. Os autores não defendem o aborto como método para diminuir a violência. E é isso o que faz o governador do Rio de Janeiro, dizendo-se, não obstante, cristão e católico. Vai ver anda lendo o Eclesiastes com as mesmas lentes demoníacas do autoproclamado bispo Edir Macedo, dono da Record e da seita Igreja Universal do Reino de Deus.
Sempre que se fala da diminuição da criminalidade nos EUA, não se lembra que o país está entre os que têm os mais altos índices de população carcerária do planeta, coisa que a nossa esquerda abomina. Se Sérgio Cabral decidisse assassinar todos os fetos das mulheres pobres — nosso Herodes pequeno-burguês — e optasse por uma esterilização censitária, acho que não conseguiria baixar o número de homicídios por 100 mil da cidade do Rio aos patamares da capital paulista. A razão é simples de novo: São Paulo prende muito mais. E o Rio mata quase quatro vezes mais.
Que tempos estes em que vivemos, não? Se Cabral tivesse defendido a pena de morte, nesta quinta, assistiríamos a um verdadeiro deus-nos-acuda. Aliás, ele próprio está sendo severamente criticado por conta da ação de sua polícia no combate ao crime. Mas os nossos humanistas se calarão diante da defesa do aborto e da legalização das drogas. A pena de morte (a que me oponho, diga-se), num estado democrático e de direito, dá ao acusado ao menos o direito de se defender. Até no confronto com a polícia, o bandido não se queda inerme. Vai à luta. Cabral tem uma outra idéia a respeito: acredita que é preciso impedir que os pobres venham à luz. Prefere condená-los antes.
Ele acredita, certamente, que tem do seu lado a razão pragmática: “Ah, mas o aborto já é praticado mesmo”. O crime, então, seria uma conseqüência dos abortos não-feitos. Sua sugestão, por dedução lógica, só seria eficaz, ao longo do tempo, se houvesse um crescimento exponencial de abortos. É um homem de coragem. Até havia pouco, os que defendem a legalização da prática alegavam que se tratava de admitir uma situação de fato. Na tese de Cabral, não. É preciso que aumente brutalmente o número de abortos para que a solução seja eficiente. É católico? A Igreja deveria excomungá-lo.
Imaginem se...
Com alguma freqüência, diante de algum descalabro, escrevo aqui: “Imaginem se isso estivesse sendo dito ou feito por alguém identificado com a direita...” Imaginem se Padre Júlio Lancelotti fosse de direita, por exemplo. Não o faço para ideologizar todos os assuntos, como acusam os petralhas (que se querem não-ideológicos). Faço-o para evidenciar o quanto o princípio está ausente dos debates. O assassinato em massa, se proposto por um “progressista”, assume dimensões verdadeiramente civilizatórias.
Eu entendo. Este mal já cometeu até o Apedeuta. Os políticos começam a governar o Brasil e, de súbito, ficam com vontade de governar a Suécia. Vejam lá. Cabral queria ser governador da “Lagoa Rodrigo de Freitas, Tijuca, Méier e Copacabana”. O que ele não suporta é ter de governar também a Rocinha. Aí, teve uma idéia...
Observo ainda que ele deveria parar com essa cascata de legalizar as drogas. Porque sabe que o Brasil não pode fazer isso sozinho. E, tolo que é, o resto do mundo não se mostra disposto a concordar com ele. O governador faria melhor se reprimisse o consumo de drogas ilícitas nas praias, em meio a crianças, como se pode ver a qualquer momento — um trabalho sistemático e metódico de formação de novos consumidores, que vão alimentar o narcotráfico.
Essas suas duas utopias — uma claramente homicida — são a prova de um cansaço e de uma desistência. A solução, para o governador do Rio, está em medidas que simplesmente não serão adotadas — e, pois, não está em lugar nenhum. É questão de lógica elementar.
Lastimo ainda que sua coragem seja de um tipo tão particular. Ele próprio se diz contrário ao aborto. Mas defende a medida como prática de alcance, digamos, social. Cabral pode dizer o que quiser, mas é inegável que, segundo a sua tese, ventres de classe média e alta jamais dão bandidos à luz. A pobreza é mais do que um destino. Tornou-se uma genética. E, no entanto, vocês sabem, o reacionário sou eu.
Pobre Rio! Tão perto do mar, tão longe de Deus!
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Vou tirar da estante Sob o Sol de Satã, do grande escritor católico Georges Bernanos. Que morou no Brasil.
Vou tirar da estante Sob o Sol de Satã, do grande escritor católico Georges Bernanos. Que morou no Brasil.