quarta-feira, dezembro 22, 2010

Lula volta à velha história de que o mensalão foi golpista. Por que então ele se disse “traído” e pediu desculpas ao país? Reveja o vídeo do famoso discurso

Ricardo Setti, Veja online

Amigos do blog, o presidente Lula realmente não desiste.

Numa espécie de festa de despedida que realizada no Rio, ele avisou que subirá ao palanque dos candidatos dos partidos aliados a prefeito em 2012 (alguma surpresa?), disse que vai continuar na vida política depois de deixar o poder, no dia 1º próximo (de novo, alguma surpresa?) e voltou insistir que o mensalão não foi um escândalo de roubalheira, caixa 2 e outros crimes para comprar votos em apoio a seu governo, mas um movimento de tons golpistas.

“Vocês viram o que aconteceu comigo em 2005″, bradou. “Mais uma vez (sic) se tentou truncar o mandato de um presidente democraticamente eleito”.

Como escrevi em recente post, Lula pretende, depois de deixar o poder, entre múltiplas atividades, “desmontar a farsa do mensalão”. Ou seja, chamou de “farsa” o escândalo da compra de votos em troca de apoio a seu governo que provocou uma brutal crise política em 2005, levou à demissão e posterior cassação do mandato de deputado de seu chefe da Casa Civil, José Dirceu, e resultou num processo criminal ora em curso no Supremo Tribunal Federal, no qual o procurador-geral da República acusa Dirceu de comandar uma “quadrilha”.

COMO É QUE LULA VAI APAGAR DA HISTÓRIA SEU PEDIDO DE DESCULPAS?

Vai ser interessante, repito como escrevi anteriormente, ver como o presidente conseguirá realizar esse último propósito, diante da montanha de dinheiro sem explicação comprovadamente distribuído a figurões petistas, das operações bancárias espertíssimas, dos empréstimos fajutos, dos depoimentos prestados por mais de 600 testemunhas já ouvidas no processo que corre no Supremo — e por aí vai.

Vai ser mais interessante ainda o presidente apagar da história recente o famoso discurso transmitido pela TV a 12 de agosto de 2005, em que, constrangido, abatido, sem saber para onde dirigir o olhar, levemente trêmulo, ele declarou perante a o país — em pleno fragor do escândalo — que fora “traído” e mencionou “desculpas”.

Nesse discurso, feito na Granja do Torto, em Brasília, antes de uma reunião ministerial, Lula não explicou quem o traiu — nunca explicou, aliás --, mas a alegação da traição ficou, insiste em ficar, e continua latejando. Nem esclareceu exatamente o porquê do pedido de desculpas aos brasileiros.

Se o presidente proferiu o discurso da traição durante o escândalo, é claro que se destinava a, de alguma forma, apresentar uma explicação ao país sobre a espantosa sucessão de bandalheiras que a cada dia vinham à tona — uma explicação frouxa, gaguejante, canhestra, reticente e vazia, mas uma explicação.

Se Lula proferiu o discurso e denunciou a traição, ocorreu naquele momento um explícito reconhecimento de que o mensalão não apenas existiu, mas teria propiciado esse seríssimo agravo ao presidente da República.

Como, agora, sem mais nem porquê, de repente não existiram a montanha de dinheiro, a CPI no Congresso, os depoimentos no Supremo e, sobretudo, o discurso? Tudo teria sido uma “farsa” e uma tentativa de “truncar o mandato de um presidente democraticamente eleito”?

Vamos rever trechos do discurso, que diz mais do que meu texto: