quarta-feira, junho 19, 2013

Esse patrimônio também é nosso!

Maria Helena RR de Sousa
Brickmann & Associados 

...Nada importa a minoria de baderneiros e vândalos. Esses são como cupim: são eternos. Mas não foi essa minoria que atacou no Rio nesta segunda,17 de junho: a assinatura deixada nas paredes do Paço Imperial e da Igreja de São José não deixa dúvidas. São vinho de outro barril, um barril hediondo...

Não me venham dizer que mensagens via redes sociais teriam essa força toda se não vivêssemos uma época fértil para o desencanto. Os jovens têm sangue na guelra, estão descobrindo a vida e o amor. Têm muito mais o que fazer do que andar pelas ruas a reclamar das tarifas dos ônibus...

Até que começaram a se cansar do que vêm à sua volta: o futuro complicado pela corrupção desenfreada; o dinheiro sobrando para os mais inacreditáveis fins; estádios de luxo que todos sabem ficarão às moscas depois dos eventos esportivos que só interessam aos grandes da FIFA, do COI, e de Brasília. 

Os políticos sempre muito bem de vida. Política passou a ser sinônimo de vida fácil. O respeito que poderiam despertar foi para o ralo. Ninguém pensa em servir ao Brasil. E o cinismo se instala no coração dos jovens, testemunhas que são de que a ‘carreira’ política é para os que querem se servir do Brasil...

E em sua vida diária e na de seus próximos, os meninos sentem a dor dos que se queixam de hospitais indecentes pela falta de tudo, de médicos a material hospitalar; sofrem em universidades inseguras e sem aulas, pois que sem professores; passam por escolas com menos conforto que os hotéis para os pets das dondocas; servem-se de transportes mal ajambrados, inseguros e caros; e ouvem as autoridades batendo no peito ao dizer que o Brasil acabou com a pobreza quando eles, pelas ruas, veem cada vez mais gente dormindo nas vielas e becos.

Para saber do que se passa no país e melhor se informar eles se servem das redes sociais. A meninada se comunica e conclui que ou ela se mexe, ou o Brasil vai para o brejo. E resolve se manifestar. Querem falar em nome dos despossuídos, mas querem ser ouvidos e não querem nem apanhar, nem bater. Entre suas palavras de ordem está a bela "Este patrimônio é nosso, cuidado!". Reparem que onde foram respeitados, não quebraram nada porque eles não estão ali para isso. 

Mas aqui no Rio, terra sem lei nem grei há muito tempo, aconteceu o que mais temíamos: a infiltração de pessoas do mal. 

Ricardo Noblat em um emocionante artigo, "E eles saíram do Facebook", diz, a certa altura: 

"Pouco importa que os jovens disparem suas exigências em todas as direções sem priorizar nenhuma, que careçam de líderes amadurecidos, e que acolham em seu meio uma minoria de baderneiros e de vândalos.

Desde quando foi diferente no passado?

Somente a experiência ensina. E não há porque imaginar que os jovens de hoje não aprenderão".

Concordo com ele. Nada importa a minoria de baderneiros e vândalos. Esses são como cupim: são eternos. Mas não foi essa minoria que atacou no Rio nesta segunda, 17 de junho: a assinatura deixada nas paredes do Paço Imperial e da Igreja de São José não deixa dúvidas. São vinho de outro barril, um barril hediondo. Tanto é assim que os manifestantes originais, a meninada decente, já está no Centro ajudando a limpar o que foi pichado.

A experiência de ontem certamente já ensinou muito aos meninos; quem acompanhou pela TV a retirada, pelos jovens, de 12 policiais de dentro de uma agência bancária, para protegê-los, sente que foi experiência rica para a Polícia também. Agora é esperar que também tenha ensinado às autoridades: confiem nos jovens. Deixem que falem e procurem atender muitas de suas reivindicações. 

Eles não querem ladrilhar as calçadas com pedrinhas de brilhante. Eles querem uma cidade decente, saudável, limpa, onde possam viver com saúde, em paz e em segurança, para si e para os seus. 

E onde os barris cheios de pura hediondez não tenham vez.