Editorial
O Globo
Dos 64 leilões previstos para 2020, só 18 foram realizados. Bolsonaro não vendeu nenhuma estatal
No início do governo Bolsonaro, o ministro Paulo Guedes falava para quem quisesse ouvir que as privatizações renderiam R$ 1 trilhão. O plano era ambicioso, envolvia mais de 200 concessões e vendas de empresas estatais, começando logo nos primeiros meses por Eletrobras, Correios e Porto de Santos. Guedes planejava inaugurar uma nova era de dinamismo nos investimentos, necessários para suprir as deficiências brasileiras na infraestrutura e fazer deslanchar o crescimento econômico.
Passados dois anos, a realidade é, por assim dizer, bem mais modesta. Nenhuma estatal controlada pelo governo foi privatizada. A venda de Eletrobras e Correios continua empacada no Legislativo. Casos triviais, como Casa da Moeda e Ceagesp (centro de distribuição em São Paulo), esbarraram na resistência ideológica do estatista-em-chefe, o presidente Jair Bolsonaro.
De acordo com dados do Programa de Parceria de Investimentos (PPI), houve em 2019 um total de 36 leilões, a maioria nas áreas de óleo e gás. Dos 64 projetos de desestatização esperados para 2020, apenas 18 estavam concluídos até a semana passada (incluindo a liquidação de uma empresa, o Ceitec).
Concessões, privatizações e parcerias com o setor privado são o melhor caminho para atrair investimentos necessários para acelerar o crescimento. Em 2019, o setor público destinou menos de 0,5% do PIB a projetos de infraestrutura, a menor fração entre 21 países latino-americanos. O resultado deste ano ficará aquém disso, em virtude do choque da pandemia e da crise fiscal crônica. De onde virá o capital para investir, senão da iniciativa privada?
Ainda estão nos planos do governo 213 projetos, entre eles 22 rodovias, 13 ferrovias, 38 portos, 16 linhas de energia, 4 concessões de óleo e gás e 40 aeroportos. Sem contar a quinta geração da telefonia celular (5G), cujo edital também esbarra na resistência ideológica de Bolsonaro à tecnologia chinesa, melhor e mais barata. A meta da equipe econômica para 2021 chega a 129 leilões, contando Eletrobras, Correios, 22 aeroportos e a Ferrovia Leste-Oeste e vários outros prometidos para 2020 que não aconteceram. A estimativa é atrair R$ 371 bilhões em investimentos (só no leilão do 5G, R$ 20 bilhões). O governo também quer vender R$ 110 bilhões em imóveis até 2022.
No papel, tudo parece lindo. Na hora de tornar o plano realidade, o jogo é outro. Resistências ideológicas e corporativas são previsíveis. Mas o Brasil já tem um histórico de sucesso suficiente para encerrar as discussões primitivas. Basta lembrar o êxito das vendas da Vale e do sistema Telebras. Ambas resultaram de vitórias políticas.
É lamentável que um governo que assumiu o poder com um programa liberal e um projeto ambicioso de desestatização tenha feito tão pouco. Pelo que Bolsonaro tem dito sobre a Casa da Moeda e a Ceagesp, está claro que ele também não aprendeu as lições de Paulo Guedes. Não se sabe se a culpa é do aluno ou do professor.