segunda-feira, outubro 11, 2021

Podemos crescer muito mais?

 Fabio Giambiagi

O Globo

O Brasil padece de um divórcio entre aquilo a que podemos almejar e o que a maioria das pessoas julga que pode ser alcançado a curto prazo

O desempenho da economia brasileira depois da recessão de 2015/2016 é decepcionante. O triênio 1981/1983 foi pavoroso, mas no quinto ano de recuperação, em 1988, o produto era 18% maior que em 1980, antes da crise. Algo similar ocorreu após a recessão de 1990/1992, quando em 1997 o PIB foi, por coincidência, também 18% superior ao de 1989.

Ao sairmos dos anos difíceis de 2001/2003, sendo que na época nem chegou a haver uma queda do PIB, este em 2008 era 34% superior ao de antes da crise, em 2000. Agora, mesmo se recuperado parcialmente da pandemia, o Brasil crescer 5% em 2021, o PIB, 5 anos depois de 2016, ainda seria 2% menor que o de 2014. O que está acontecendo com nossa economia?

Discutimos essa questão no Texto para Discussão 2690, do IPEA, em coautoria com José Ronaldo de Castro Souza Jr., publicado em setembro. O que se segue é uma tentativa de expor alguns pontos para debate, fugindo do “economês”.

Para explicar a questão para um público amplo, convém fazer a analogia com uma planta de produção. Imagine o leitor que uma empresa está instalada num parque produtivo com dez galpões idênticos, sendo que em cada galpão trabalham dez operários (cem ao todo).

Num certo ano, a empresa amplia o número de galpões (investe) para 11. O capital investido no novo galpão é o mesmo, mas o fato de incorporar novos métodos de produção permite produzir com apenas 8 operários e gerando o dobro de produção. É claro que estamos simplificando grosseiramente as coisas, mas isso permite ter uma ideia do que queremos explicar.

Note-se que na expansão o capital aumentou 10% e o número de empregados 8%, mas a produção cresceu 20%. Se, antes do novo galpão, o que a empresa gastava com galpões e equipamentos fosse igual ao que gastava em mão de obra, caberia imaginar que o aumento de produção deveria ser igual a 0,5 x 10% + 0,5 x 8% = 9%.

Nesse caso, a diferença entre 20% e 9% é resultado do efeito conjunto da expansão de ambos os fatores — capital e trabalho —, a chamada “produtividade total dos fatores” (PTF). Ou, em linhas gerais, o aumento da produtividade.

Podemos entender o crescimento de um país como o resultado da combinação de três fenômenos: a) a incorporação de capital humano; b) o aumento do capital strictu sensu; e c) a maior produtividade.

O que está acontecendo com a capacidade de produção? No caso da mão de obra, o crescimento do contingente de trabalhadores se da a um ritmo cada vez menor, por razões demográficas. Enquanto na década de 1970 essa variável crescia quase 3% a.a., daqui a dez anos terá declinado para menos de 0,5%.

Já no caso do capital (máquinas e equipamentos e construção), o drama é que depois de 2013 o investimento caiu a tal ponto que ele hoje mal dá para cobrir a depreciação. Ou seja, o investimento feito a cada ano sequer compensa a deterioração do capital, gerando então um encolhimento do estoque deste.

Finalmente, nossa produtividade, que já era paupérrima, continua muito baixa, embora tenha aumentado, por razões muito específicas, em 2020. Enquanto entre 2010 e hoje, em média, um coreano passou a produzir cada vez mais, aqui ficamos estagnados.

O Brasil padece então de um divórcio entre aquilo a que podemos almejar e o que a maioria das pessoas (e eleitores!) julga que pode ser alcançado a curto prazo. Há uma ansiedade grande para que o governo “entregue” objetivos: crescimento, emprego, etc.

Deixamos de lembrar a máxima de Tocqueville, de que “é preciso que os governantes se apliquem em dar aos homens esse gosto pelo futuro e que, sem o dizer, ensinem a cada dia, aos cidadãos, que a riqueza e o renome são o preço do trabalho, que os grandes triunfos se encontram situados ao cabo dos longos desejos e que nada se obtém de durável senão aquilo que se adquire com dificuldade”.

 Superada a tragédia atual, ao longo da década, não será fácil alcançar o crescimento que o país deseja, uma vez ocupada a atual ociosidade, nos próximos 2 ou 3 anos.