Gabriela Valente
O Globo
Mas, sem considerar crédito habitacional, dívida dos brasileiros recuou
BRASÍLIA – As famílias brasileiras nunca estiveram tão endividadas quanto no fim do primeiro trimestre deste ano. De acordo com o Banco Central (BC), o índice de endividamento subiu de 43,79% para 43,99% em março. Isso significa que as famílias devem às instituições financeiras quase a metade do que ganham durante o ano. O endividamento chegou ao maior nível desde quando a autoridade monetária começou a registrar os dados, em 2005. Naquela época, as famílias tinham um endividamento de 18,39% da renda bruta anual.
Para o economista-chefe do Conselho Federal de Economia, Júlio Miragaya, o aumento do endividamento das famílias é um reflexo da facilitação de acesso ao crédito bancário no país. De 2005 para cá, o volume dos empréstimos no país saltou de 28,1% para 54,1% do Produto Interno Bruto (PIB, conjunto de bens e serviços produzidos no país). No entanto, segundo o especialista, essa alta não deve continuar. Pelo menos, não no mesmo ritmo.
— Houve um grande aumento por causa da facilitação do crédito vista nos últimos anos, mas chegou a um limite — aposta Miragaya, que explica que o crescimento da renda do trabalhador e a estabilidade do mercado de trabalho devem segurar o endividamento da população.
Segundo os dados do BC, se for excluído o crédito habitacional, o nível de endividamento caiu em março. Passou de 30,54% para 30,48%. Isso significa que a compra da casa própria foi a grande responsável pelo aumento do endividamento.
O número que não leva em conta o financiamento imobiliário é usado pelo governo como referência para saber se a população está muito endividada. Para o BC, o empréstimo para pagar a casa própria é visto como bons olhos, já que significa deixar o aluguel — uma despesa corrente — para investir em patrimônio.
Outro dado confirma que o brasileiro tem feito operações com prazos mais longo, como o financiamento imobiliário. Apesar da alta do endividamento, houve queda do comprometimento da renda, que, em março, passou de 21,84% para 21,66%. Isso significa que a parcela que as famílias comprometem da renda mensal para pagar dívidas voltou a cair, ou seja, mesmo devendo mais, as pessoas desembolsam menos durante o mês.
***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Há que se fazer um reparo na notícia que, lida, induz a que se acredita que, não fosse a dívida imobiliária das famílias, a situação seria de conforto.
Ora, não importa a natureza da dívida, se contraída pela compra de bens não duráveis, eletrônicos, habitacional, ou até com fraldas descartáveis.. É o montante do comprometimento da renda com dívidas, sejam elas de curto ou longo prazo, que interessa no caso.
Quando este montante se aproxima dos 50%, teremos algumas situações como inadimplência, retração no consumo, abandono de qualquer forma de poupança. etc. Tal situação num país em que a renda média da população é baixíssima, é flertar com um terreno pantanoso sob a ótica econômica. E se deve acrescentar, ainda, que, pelo menos 70 milhões sequer renda própria possuem: vivem e sobrevivem às custas de programas sociais de distribuição de renda. Outro contingente, também numeroso, são aposentados ou pensionistas do INSS, cujo padrão de renda também é igualmente baixo.
Assim, seria prudente que o governo federal não apostasse todas as suas fichas de crescimento apenas via consumo. A capacidade desta ferramenta, além de limitada, também está dando mostras de seu esgotamento.