quinta-feira, novembro 25, 2010

O Cardeal E O Jumento

Sebastião Nery

SALVADOR – A Bahia foi toda ao aeroporto de Salvador esperar seu primeiro cardeal, naquela manhã ensolarada de janeiro de 1953. Dom Augusto Álvaro da Silva, com seu nome de verso, alto, elegante, asceta, magistral orador sacro, chegou como um príncipe.

Pernambucano, era arcebispo de Salvador desde 1924, bispo no interior desde 1911. Poeta primoroso, escondia-se nos seus livros de poemas atrás do nome de Carlos Neto.

Tinha um pecado. Não tolerava perder no jogo de dama, nas manhãs de domingo, depois da missa, para um seminarista escalado cada semana pela direção do seminário. Perder a primeira partida, aguentava. Na segunda, levantava-se:

- “Volte para o seminário!”

Uma vez eu voltei e lá se foi o almoço com ele e a saborosa comida do palácio do Campo Grande, com maravilhosos vinhos italianos.

Vieira
Na véspera da chegada dele a Salvador, com seu rubro chapéu de cardeal, um jumento subiu pela ladeira da Barroquinha para a praça Castro Alves e foi atropelado e morto por um taxi,cujo motorista também morreu.

No dia seguinte, o “Diário da Bahia”, dirigido pelo talentoso Tarsilo Vieira de Melo, que por azar não era nenhum exemplo de piedoso cristão, pôs na primeira página duas fotos enormes: a de Dom Augusto com toda a pompa cardinalícia e a do jumento estirado morto na praça.

Mas, na oficina, inadvertidamente, haviam trocado as legendas. Embaixo do jumento morto, estava escrito: - “O Cardeal dos Baianos”. E embaixo da foto de Dom Augusto: “Este Jumento Envergonha a Bahia”.

Dom Augusto
Vieira de Melo ficou desolado. Como explicar que na foi de propósito, em um jornal “cheio de comunistas”? Dom Augusto, anos depois, já doente (morreu em 1964), não havia esquecido e me dizia numa manhã de domingo, quando fui visitá-lo e ele já não jogava dama nem almoçava com vinho da Toscana:

- “Sebastião, aquilo foi uma maldade própria de vocês jornalistas”.

Mesmo os santos cometem injustiças.

Caetano
As palavras são um perigo. Trocadas ou mal empregadas, mudam tudo. Li um belo e provocativo texto (somo sempre) do Caetano Veloso, comentando a capa histórica, montada por ele, do disco “Tropicália ou Panis et Circencis”, 30 anos atrás. Caetano surpreende-se de não haver, então, percebido o erro, que tantos repetem até hoje, como a pesquisadora baiana Ana de Oliveira, que organizou uma luxuosa edição bilíngue de um livro com ensaios sobre cada uma das doze canções do álbum, para a Iyá Omin Produções, com patrocínio da Petrobrás.

A expressão latina, clássica, não é “Panis et Circencis”. Também não é ‘Panis et Circus” (“pão e circo”) que seriam o “nominativo”, o “sujeito” de uma frase. A expressão é “panem et circenses” (“pão e jogos de circo”). As palavras estão no “acusativo”, como “objeto direto”, porque fazem parte da “Sátira X, 81” de Juvenal, o grande poeta satírico romano que dizia que “as duas únicas coisas que interessavam ao povo romano de sua época eram “pão e jogos circenses”.

Juvenal
Esse Juvenal era um craque. No “Dizionario Dei Personaggi dell´Antica Roma”, Diana Bowder conta :

- “Décimo Giuno Giovenale, natural de Aquino, é o mais famoso poeta satírico da Antiguidade. Sobreviveram quinze de seus poemas, dos quais os nove primeiros fornecem um quadro vivaz da Roma do fim do século I depois de Cristo. As últimas sátiras são ensaios morais sobre assuntos como, por exemplo, o desejo de vingança. “Londres”, o famoso poema de Samuel Johson, era uma imitação da terceira sátira de Juvenal, considerada sua obra-prima, e que versa sobre os muitos problemas de se viver em Roma. A sexta sátira é uma crítica mordaz à imoralidade e afetação das mulheres. É mais realista a visão de Juvenal como retórico soberbo e declamador eficiente,mestre da paródia, do epigrama, da alusão”.

Meirelles
Em política, o guloso também morre pela boca, falando antes. A Miriam Leitão, conhecida porta-voz do Meirelles do Banco Central e de qualquer banqueiro, informou no começo da semana, em “O Globo” :

- “O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, foi convidado para permanecer no cargo. O convite não foi feito em caráter provisório, de ficar só alguns meses. Mas Meirelles só permanecerá se tiver garantias de ter a mesma autonomia que teve nos oito anos do governo Lula”.

No mesmo Globo, Ilimar Franco devolveu o recado de Meirelles:

- “A presidente eleita, Dilma Rousseff, reagiu com irritação à noticia de que Henrique Meirelles condicionava sua permanência na presidência do Banco Central à garantia de autonomia. Antonio Palocci ligou dando o recado e Meirelles divulgou nota tentando consertar o estrago”.

Sarney, que não perde chance de prestar um serviço, seja qual for, seja a quem for, entrou na conversa, para a qual não tinha sido convidado :

- “A presidente Dilma vai fazer o ministério que quiser. A pulverização enfraqueceu os partidos. Só o PT tem força, porque tem interlocução com ela”. (Quer dizer, Michel Temer é um bobo alegre).