imagem de "santa no bordel"
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Por Malu Delgado
da Folha de S.Paulo
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Em duas horas e meia de conversa, Fafá soltou 66 das suas longas e típicas risadas. "Sem Anos de Solidão" é o nome de batismo do livro --escolhido por Millôr Fernandes-- em que ela contará sua trajetória.Um caminho onde a política é a protagonista. Personagem ímpar da campanha das Diretas, Fafá cresceu ouvindo o pai falar de política. "Penso a vida como uma ação política", define. Com a autoridade de quem conviveu na intimidade com "políticos de A a Z", ela afirma que o atual momento é "fantástico" porque todos os cacoetes da política foram revelados, e o PT não pode mais sustentar a imagem de "santa no bordel".Antecipando alguns trechos do livro, ela fala das desavenças com a esquerda na época das Diretas, conta mágoas com o PMDB e critica a ditadura da estética. Votou em Lula na eleição passada, mas agora está indecisa. "O Brasil cada vez mais amadurece politicamente. São tirados todos os véus. Ou será que o primeiro mensalão foi esse? Fala sério, né!"
.Leia a seguir trechos da entrevista:
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Folha - Você disse que pensa na vida como um ato político. O momento atual é de absoluto descrédito com a classe política, mas contraditoriamente os brasileiros se interessam pelo tema. O que explicaria isso, na sua avaliação?
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Fafá - O Kotscho [Ricardo Kotscho, jornalista] disse algo fabuloso: a campanha das Diretas é impossível de ser reeditada. Estávamos no final do processo da ditadura, onde o jovem estava convencido de que a política não estava com nada. Através dessa caminhada pelo Brasil nós resgatamos a crença de que era possível fazermos a mudança. Na seqüência da esperança, o Tancredo vem pelo Colégio Eleitoral como uma possibilidade de transição, morre, o Sarney assume e, na seqüência, Collor é eleito. Acho que o Brasil começa a engatinhar politicamente.
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Folha - Qual importância da eleição do Lula?
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Fafá - A coisa mais importante da eleição do Lula é o Brasil ter apostado num brasileiro, do interior, de Pernambuco, num igual. Isso é um salto do povo brasileiro. Uma referência interna. É fundamental apostar num igual. A partir daí, temos os cacoetes e as manobras da política desnudados. Uma elite muito incomodada. Uma realidade sórdida, porque não esperávamos que o PT fizesse a mesma trajetória dos outros. E o momento agora é de uma interrogação muito grande. O Brasil cada vez mais amadurece politicamente. São tirados todos os véus. Ou será que o primeiro mensalão foi esse? Fala sério, né. Nós sabemos que não. Os mensalões existem há muito tempo, como manobras de muitos momentos políticos, infelizmente. Só espero que isso, pela última vez, seja lavado. Vejo o Brasil cada vez mais atento, discutindo e falando de política. O que me preocupa, por exemplo, é quando o Roberto Jefferson fala do mensalão e alguns ídolos populares, que falam aos teens, dizem que ele é a salvação do país. Espera aí!
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Folha - O que explicaria o boom de campanhas que estimulam o voto nulo, sobretudo na internet?
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Fafá - Eles [os jovens] estão desacreditados pela maior esperança que encontraram pela frente. Apostou-se no PT, numa postura que o partido foi incorporando, de vestal, da santa no bordel: 'estamos aqui, mas isso jamais nos contaminará'. E o que se provou é que não. Acho tudo isso saudável para a democracia. Só mexendo nela é que a gente aprende a lidar com ela. Acho tudo isso muito saudável para o processo democrático: a pregação do voto nulo, as denúncias... A internet é hoje um veículo fabuloso. Na época das Diretas nós tínhamos os painéis nas ruas dizendo 'Não vote neles!'. A internet faz isso dentro da tua casa.
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Folha - E você não se desencantou com a política?
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Fafá - Eu não. Acho que a única solução é a política, é a vontade política de se fazer. A coisa do desvio de verbas, a violência do desvio de verbas, é como matar a criança na barriga da mãe. É tão brutal. Eu não consigo entender como é que alguém tem essa cara de pau de roubar tanto e depois passar mal quando é descoberto. Espero que todos passem mal e morram, para que a gente comece a entender o país fabuloso que é o Brasil. Vai haver muita depuração, mas nós vamos transformar o Brasil num grande país.
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Folha - Imagino então que você não vai anular seu voto?
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Fafá - Não.Folha - E já se definiu?Fafá - Não. Estou olhando. Não voto nulo e nem faço voto útil. Nunca fiz. Tem uma situação que eu vou contar no livro, naquele célebre debate do Lula com o Collor em 89. Eu estava enlouquecida aqui. Foi uma noite de telefonemas. Eu liguei para o Chico [Buarque], para o [Mário] Covas, para o Fernando Henrique. Eu acredito nisso. E vou acreditar a vida toda que é possível trazer gente honesta para esse país, é possível que haja pessoas que possam transformar o Brasil numa Austrália.
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Folha - Você já foi próxima do PT?
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Fafá - Não, desde 1985 eu sai fora. Eu cheguei ao comício de 25 de janeiro junto com o PT. O PMDB e pessoas ligadas ao Montoro me brecaram porque diziam que eu não tinha uma ligação histórica com a esquerda. E o Lula disse: ela vem com a gente. Quando eu apóio o Tancredo no Colégio Eleitoral, determinadas alas do PT, das esquerdas, ficaram muito chateadas comigo. A minha relação com o Lula nunca foi abalada. Depois que eu mudei [para Portugal], cada um seguiu o seu caminho. Mas a turma ia jantar na casa dele nos finais de semana, ou eles faziam reunião na minha casa ali na Haddock Lobo. Não o José Dirceu. Mas o Lula, Genoino, Djalma Bom, Devanir. Ainda era clandestino. Ficavam na minha casa, na sala, e eu ia dormir. Nunca me filiei a nenhum partido, nunca sai como candidata a nada porque eu acho que meu palanque, no palco, é muito maior, muito mais amplo, sem compromissos com dogmas. Na eleição do Collor, chegaram a espalhar que eu o apoiei. E eu não apoiei ninguém. Votei no Lula, mas não fiz campanha para lado nenhum. Eu entendi que o meu papel era ali, cidadão.
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Folha - Hoje você não tem mais nenhum contato com Lula?
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Fafá - Estive com ele na eleição [2004], em Belém. Ele foi fazer campanha para a candidata dele e eu estava no outro lado. E no ano passado eu fui fazer um show em Brasília, no lançamento do Tanto Mar, e me ligaram do Palácio do Planalto. Fui lá e conversamos amenidades. Foi antes da crise.
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Folha - Em 84 você disse, em entrevista a Ruy Castro, o que achava de vários políticos. Chamou Ulysses de demagogo,Tancredo de adorável. Queria que falasse com a mesma abertura sobre alguns políticos hoje.
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Folha - Em 84 você disse, em entrevista a Ruy Castro, o que achava de vários políticos. Chamou Ulysses de demagogo,Tancredo de adorável. Queria que falasse com a mesma abertura sobre alguns políticos hoje.
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Fafá - Ok, manda bala.
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Folha - Começamos com o óbvio.
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Fafá - O Lula! Ai, meu deus! Deixa ele por último!
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Folha - Ok. Geraldo Alckmin.
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Fafá - Foi um dos políticos que mais me impressionou ultimamente. Tinha idéia de picolé de chuchu total, e eu conheci o Alckmin no ano passado, numa solenidade em Tiradentes, em Minas, junto com o Aecinho. Fiquei muito impressionada com ele. Há muito tempo, desde a época aura dos grandes políticos, Diretas, PMDB autêntico, PDT e tal, que não via alguém com tanta firmeza.
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Folha - Heloísa Helena.
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Fafá - A Heloísa é adorável, mas uma menina. Ainda tem muito chão pela frente. O papel dela nessa eleição é bacana, pode levar ao segundo turno, que é uma reflexão melhor.
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Folha - Cristovam Buarque.
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Fafá - É um professor maravilhoso, de dignidade rara. Não vejo qualquer chance dele, mas vejo como uma chance de quem vai pensar na hora do voto.
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Folha - Aécio Neves.
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Fafá - Aecinho aprendeu todas as lições com Tancredo. Mas é completamente diferente. Tancredo era uma águia política. Foi o homem que participou de todos os grandes momentos da história e não chegou ao poder. Acho que isso foi a coisa mais dolorosa de todo o processo. O Aecinho, que naquela altura ninguém dava nada por ele, era um playboy, um bon vivant. Conseguiu construir no governo de Minas uma equipe que toca o Estado com muita competência. Tem tido uma ação mineira aos moldes do avô, de costura e discrição. A grande estratégia do Aecinho é fazer com que quem esteja na festa esteja trabalhando, e quem esteja trabalhando esteja na festa. (risadas) Mais mineiro impossível!
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Folha - Roberto Freire.
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Fafá - Foi meu primeiro voto para Presidente. Disse isso ao Lula e ele ficou arrasado. Roberto é impecável, sério. Posso falar do Fernando Henrique?
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Folha - Claro.
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Fafá - Fernando está melhor agora que na Presidência. Esse tempo fora da Presidência cria uma liberdade onde está a plenitude dele. É um intelectual, um homem interessante, engraçado, bem humorado. E no papel de atirador de pé está ótimo. Pessoas como Fernando Henrique jamais saíram e jamais sairão da política. Se ele volta num cargo eletivo, aí não sei. Mas a inteligência dele faz falta.
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Folha - Já que estamos nos ex-presidentes, e José Sarney?
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Fafá - Sarney e Antonio Carlos Magalhães têm uma parceria muito afinada, há tantos anos transitando pelo poder, com poder de fato e de direito. Só que o Sarney é mais discreto na ação. Isso faz com que ele seja um costureiro e se mantenha há tantos anos. É um político profissional. E acho que tem sido um grande conselheiro para o Lula!
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Folha - Vamos então para o Lula?
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Fafá - Eu me lembro do Lula, o Lula Lula. O grande mérito dele foi ser eleito sendo o Lula. Enquanto ele teve medo e foi controlado pelos intelectuais do PT não chegou a lugar nenhum, porque não era ele, e ele não falava na linguagem que queria. Eu não consigo não gostar do Lula. Embora tenha muitas restrições a determinadas posturas dele. Restrições que tenho em relação à postura de muitos políticos. Espero que se ele se reeleger forme um governo onde tudo o que o trouxe ao governo esteja representado. Inclusive os intelectuais e os políticos de outros partidos, que deram sustentação ao PT, para que pudesse existir.