sábado, setembro 09, 2006

Ensinando democracia para Lula.


Alguém precisa aproximar-se do presidente desta nossa república e tentar ensinar-lhe que, num regime democrático, a livre manifestação do pensamento, o direito à crítica e a opinião, são partes componentes do próprio processo.
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Apenas em regimes ditatoriais é que as vozes se calam ou, no máximo, se lhes é consentida manifestar-se apenas para enaltecer os feitos dos grandes líderes, além de divulgar os feitos e conquistas do regime. Quase sempre mentirosas, no sentido mesmo de que o importante é continuar enganando e mistificando.
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Na democracia, a imprensa é sempre o olhar atento da sociedade. A imprensa investigativa exerce um inusitado papel de acompanhar de perto os governantes, e não raro, é capaz de em meio ao cipoal que os governos criam para embaraçar as notícias e ocultar seus desmandos, encontrarmos algum profissional percorrendo os desvãos e chegando aos estratégicos pontos nevrálgicos que muitas vezes os órgãos de fiscalização não conseguem penetrar.
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Desde que assumiu, Lula tem dado mostras de que não gosta de prestar contas de seus atos. Se algum jornalista canta loas a ele, vai quase merecer as simpatias e a proximidade do presidente. Do contrário, tal como ocorreu com Boris Casoy quando âncora da Tevê Record, inicia-se um processo de perseguição que culminam por incendiar o profissional, sob o peso do volume de publicidade produzida pelo Governo.
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Em tempos de campanha à reeleição, a sensibilidade do Presidente tem andado muito acentuada. Até demais. Fica amuado por qualquer critica mais inofensiva. E se ela partir de alguém da oposição, somos obrigados a ouvir os destemperos verbais, baixarias e grosserias que não se casam com o posto em que Lula se acha investido.
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Nos últimos dias, Lula tem patrocinado abusos em ações e palavras que excedem em muito o limite do que seria razoável de se aceitar para um candidato em campanha, ainda considerando-se que este candidato também exerce a Presidência da República. Não bastassem as práticas de intenso uso da máquina pública sob seu comando em ações de campanha política, totalmente vedado por lei, é nos palanques que Lula além de meter os pés pelas mãos, tem feito afirmações perigosas no sentido de agredir as críticas que lhe são dirigidas. Isto quando não se utiliza, às vezes de forma covarde, de interlocutores para mandar recadinhos de menininho desaforado, que ficou ofendido porque não lhe passaram a bola na pelada da molecada. Assim é que já se chegou ao cúmulo de se acusar a oposição de fazer, oram vejam só.... oposição. Isto mesmo ! Lula critica a oposição quando esta exerce o papel lhe cabe exercer.
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É chato a gente ter que relembrar coisas básicas para aquele que por ser o chefe do executivo, esquece em que regime ele exerce seu mandato. Da mesma forma, constrange sermos, volta e meia, brindados com definições tolas e acusações infantis partindo de quem deveria ter um mínimo de zelo pela função que desempenha. E é ainda mais doloroso vê-lo condoer-se de maneira digamos tão desequilibrada por que alguém aventurou-se em criticá-lo. Vale repetir o recado que demos em outros artigo: ninguém obrigou Lula a ser presidente, sendo assim, se queria tanto o cargo, que aceite os encargos que o cargo lhe impõem.
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Por exemplo, a palhaçada protagonizada no Rio de Janeiro, na favela Cidade de Deus, quando o comitê político do PT junto com a máquina federal reuniu meninos e meninas, crianças ainda, todas uniformizadas com camisetas de programas sociais patrocinadas pelo Governo Federal, portanto com recursos públicos, não apenas para elogiarem os ditos programas, mas também para pedirem votos ao candidato Lula, numa chantagem indecente e imoral, totalmente contrária ao Estatuto da Criança e do Adolescente, além, é claro, de ferir gravemente normas da própria lei eleitoral. O ato deveria, como de fato aconteceu, receber o repúdio e a crítica contundente. Foi o bastante para Ricardo Berzoini, comandante em chefe do PT, ao invés de absorver a crítica e até desculpar-se pela palhaçada, resolver investir contra os críticos chamando-os de fascistas ! Olha, muito que bem, senhor Berzoini, a que nome deveremos dar a ação de aliciar crianças para fazer propaganda política em palanque eleitoral de marmanjos ? Será que isto não é um ato nazi-fascista ao melhor estilo?
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É fácil posar de produtor de obra alheia senhor Lula, mas é desonesto não confessa-lo. Pode lhe parecer bonito posar de pai dos pobres, varrendo para baixo do tapete toda a lama produzida por seu governo. E não é pouca. Ou como diz o senador Pedro Simon (PMDB-RS): "O momento é estarrecedor. Se filmarem Lula com máscara, invadindo um banco para roubá-lo, vão dizer que ele queria roubar para dar aos pobres."
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Não bastasse isto, ao longo da semana, numa carta endereçada aos correligionários do PSDB, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso fez um mea-culpa sobre erros cometidos tanto pelo partido PSDB ao longo da campanha presidencial, como aos erros do passado, no caso de Eduardo Azeredo beneficiado pelo valerioduto, como de seu próprio governo. E, considerando o momento político que vive o país, aproveitou para criticar o lamaçal político em que nos encontramos mergulhados já há mais de um ano, bem como alfinetou a falta de honestidade de Lula e da propaganda oficial em alardearem serem de sua criação a ampla rede de programas sociais herdados de Fernando Henrique. Pronto, imediatamente a tropa de choque petista entrou em campo e partiu para agressão injustificada, culminando com Lula chamando seus críticos de nazistas.
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Ora vejam só a que ponto chegamos: Lula e o PT passaram 25 longos anos na oposição, quando se caracterizaram por não respeitarem a honra de quem quer que fosse que estivesse revestido de funções executivas públicas. Protagonizaram a entrega à imprensa de dossiês escandalosos desancando o pau em todo mundo. Nunca estenderam a mão para ajudar no que quer que fosse necessário para construir. Foram os reis da pixação de muros e prédios públicos. Plantavam notas e mais notas na imprensa para provocar a infâmia e a calúnia. Criticaram o mais que puderam a tudo e a todos. Apenas para lembrar, Lula e seus asseclas chamaram de estelionato o plano real implantado por Fernando Henrique, que vem a ser o mesmo plano real que tem dado estabilidade econômica no seu governo e se constituído num dos pilares de seus índices de aprovação e popularidade.
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Em plena campanha para sua reeleição, Lula continua agindo ao modo como quer classificar seus críticos. Em campanha ontem no Rio, o candidato à Presidência pelo PDT, Cristovam Buarque, intensificou suas críticas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao indicar que o rival petista está pressionando redes de televisão para cancelar debates de presidenciáveis. "Televisões já estão cancelando debates por pressão do presidente. Isso é muito grave", acusou Buarque, durante caminhada pela orla de Copacabana, Zona Sul do Rio.
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No início da tarde, quando distribuiu panfletos pela Quinta da Boa Vista, Zona Norte, o candidato do PDT revelou quais eram as redes de TV que estariam cancelando debates por causa de Lula. "A Record já cancelou. Hoje (ontem) me falaram que o SBT também cancelou. Por qual razão seria? A ausência do presidente cancela debate, isso é muito grave", afirmou Buarque.
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E não bastassem todas estas contradições, Cristovam Buarque, presidenciável pelo PDT, em entrevista concedida à Folha de são Paulo faz o que a Lula faltou: hombridade para reconhecer os méritos alheios. “Eu inventei a Bolsa-Escola e o Poupança-Escola que, aliás, é outra coisa que o Lula vai se apropriar qualquer dia desses, que é pagar a criança quando passar de ano, mas depositando numa poupança que ela só tira depois de concluir o segundo grau. Eu inventei quando estava na universidade, publiquei em livro e implantei no governo do DF. O Lula se apropriou de tudo que ele herdou de bom no Brasil. Ele se apropriou da auto-suficiência do petróleo e do Real. Melhor: ele diz que salvou o Real, apesar de ter sido contra ele, lembra? Ele se apropriou da Bolsa-Escola, mudando o nome para ficar mais fácil de se apropriar. Além de ser o criador de tudo o que havia de bom, ele aparece como salvador de tudo que havia de ruim. "
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E completou: “Ele tem uma máquina tremenda nas mãos, uma campanha publicitária imensa, apesar de ser um comportamento muito pouco ético. O Fernando Henrique poderia ter mudado o nome do Bolsa-Escola, quando ampliou do DF para o resto do país, mas não o fez, mesmo eu sendo adversário dele. Foi um gesto raro de generosidade política. O Lula, ao contrário, se apropriou de tudo. Qualquer dia vai dizer que o Real foi obra dele. O Lula usurpou a Bolsa-Escola, usurpou a política econômica do Fernando Henrique e usurpou a ética do [Fernando] Collor [de Mello]. Aliás, talvez por isso mesmo, o Collor vai votar no Lula”.
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A indecente oferta de cargos continua sendo usada por Lula como manobra para obtenção de apoios à sua candidatura, como a que se viu agora com os evangélicos no Rio de Janeiro. E para piorar, Lula produziu a pérola de afirmar “Quis Deus que eu fosse eleito presidente e criasse a lei que estabelece a liberdade religiosa”. Misericórdia !!!! Só faltou dizer que foi ele quem fundou o cristianismo !!!!
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A chantagem para repasse de verbas públicas também ficou caracterizada quando aliciou o governador do estado do Mato Grosso, que já declarara seu apoio à Alckimin, e Lula acenou com a liberação em três parcelas dos recursos a que aquele estado tinha direito pela Lei Kandir no total de R$ 128,0 milhões ! E da mesma forma tem agido dentro do mesmo figurino com governadores e prefeitos, numa total transgressão moral que deve mesmo ser repudiada e criticada intensamente pela sociedade brasileira, e é claro devidamente punida pelo TSE com base na lei eleitoral em vigor!
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De outro lado, Lula e seus asseclas precisam entender de uma vez por todas que, se para eles a imoralidade na política não passa de coisa normal, para a sociedade é classificada como crime e por ela é rejeitada e repelida. O que não concordamos e não aceitamos, senhores petistas governistas, é alguém que deveria zelar pela ética e pela decência no trato dos bens públicos, vir agredir-nos com a afirmação leviana e imoral de que "Democracia não é só coisa limpa, não", como Lula afirmou no Nordeste do país, em total contraste com tudo aquilo que ele pregou quando na oposição, e que em 2002 comprometeu-se em campanha tanto quanto em seu discurso de posse, ao assumir o compromisso de combater a corrupção para acabar com a cultura da impunidade, e de que iria desenvolver uma energia política extraordinária para implementar um estilo de governo com absoluta transparência. Chegou mesmo a criar um bordão que agora vemos como mentiroso quando dizia que “No meu palanque corrupto não sobe. No meu governo corrupto não entra” Diante das alianças com Quércia e Sarney a quem chamou a ambos de ladrões, não se constrangendo em aliar-se também a Newton Cardoso e Jader Barbalho, fica-nos a suspeita de que o bordão empregado na campanha era tão falso quanto suas diretrizes de governo.
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Precisamos lembrar ao senhor Lula de que, em seu programa para um segundo mandato, gastou-se muita palavra em muitas linhas apenas para atacar e criticar o governo anterior. Para ele isto é normal. Atacar e atacar, agredir e aliciar. Críticas a Lula é que são proibidas! Esta é a democracia da livre manifestação do Lula e do PT.
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Ou seja, a tudo o que Lula e seus asseclas se permitem fazer, eles próprios negam à oposição. Então é de se perguntar sobre quem está sendo nazista e fascista ? Ou acaso já vivemos sob o império da censura sem termos sido notificados ? Ou também já rasgaram a constituição?
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É triste para um país ser dirigido por um presidente que muito facilmente se descontrola emocionalmente, e fica a despejar na claque contratada para ouvi-lo e aplaudi-lo tanta agressividade, a destilação de um ódio injustificável quando almeja atingir seus críticos e opositores, tal qual quando ele se manifesta da seguinte forma : "Nossos adversários estão tão nervosos que chegam até a babar de raiva."
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Augusto Nunes, colunista do Jornal do Brasil, comentando o livro Viagens com o Presidente, em que Lula diz palavrões, xinga presidentes de países vizinhos e destrata funcionários subalternos, assim o classificou: "Lula anda confuso. Acha que fala a linguagem do povo. Fala o dialeto dos cortiços. E se vai rendendo ao manual de etiqueta dos boçais."
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Mas o grande problema em relação ao destemperado Lula é ele achar que o povo gosta desta agressividade toda. E ainda dar o tom de que para ser presidente é preciso ultrapassar sempre os limites da boa educação e do respeito às pessoas. Nada mais ilusório do que um governante esquecer-se de que o poder é passageiro e que depois será preciso retornar a racionalidade da normal vida humana de cada dia. A menos que Lula esteja querendo quebrar todos os recordes para a geração de desafetos.
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Porque não há dúvidas de que ele está fazendo escola. Até a Ministra Chefe da Casa Civil, que provavelmente não deva estar tão ocupada assim com seus afazeres, entrou na onda do desequilíbrio mental, da bravata irresponsável para patrocinar uma acusação leviana e primária ao criticar carta de Fernando Henrique quando diz: “O Brasil é um país que vem demonstrando ter amadurecimento no processo democrático. As tentativas de retrocesso e ameaças não ganham corpo no Brasil. A carta de FHC tem resquícios do regime militar e mostra que muitos setores não aceitam a expressão e a vontade do povo brasileiro. Acho que esse processo que em alguns momentos se depreende de algumas afirmações que o povo vota mal é uma lembrança, uma reminiscência, um resquício do processo ditatorial que impregnou este país por muito tempo. A gente acaba com a ditadura, mas leva tempo para acabar com as conseqüências dela.
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Então, senhora ministra, se o Brasil, como você bem reconhece demonstra ter amadurecimento no processo democrático, tenha a senhora a fineza de versar pelo mesmo caminho, e respeitar a crítica, por ser ela a essência de qualquer democracia, por nela estar intrínseco o direito à livre manifestação. Ou agora a sua democracia é aquela fajutagem de que só se pode dizer elogios ? Se é assim, permita-me lembra-la de que isto sim denota um ranço autoritário, próprio de regime ditatoriais militares, como a que tivemos, ou civil, como Itália e Alemanha sob o império do nazi-fascismo do século passado.
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Do mesmo modo como o senhor Lula deve ser advertido de que, na democracia, existem três poderes, e não apenas um. E isto é oportuno lembrar, quando o senador César Borges, ao comentar a afirmação feita por vossa excelência e publicada no jornal O Globo, faz um alerta para o risco de o país ingressar no regime de totalitarismo, caso Lula seja reeleito. Para César Borges, a afirmação do presidente, em comício no Nordeste, de que “críticas feitas contra seu governo da tribuna do Senado não merecem ser consideradas”, revela "uma perigosa tendência totalitária que poderia ser posta em prática num eventual segundo mandato".
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E mais um recado para o senhor Luiz Inácio, sobre suas desculpas esfarrapadas para ausentar-se dos debates entre os candidatos em redes de tevê aberta. Em 1998, atacando FHC, vossa excelência declarou: “Presidente que foge de debate mostra que prefere ficar escondido atrás de publicidade paga com dinheiro do povo, em vez de ir para o ringue lutar em igualdade de condições”.
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Portanto, antes de partir para acusações levianas e torpes, seria bom Lula lavar a boca para não agredir a inteligência alheia, e tentar vender-se com ares de democrático. Como vimos aqui, talvez fosse oportuno o presidente deixar a sua crônica preguiça de lado e apanhar um bom livro para conhecer a verdadeira essência da democracia. Pode ser que aprendendo, possa ensinar aos seus asseclas, para não sermos agredidos sistematicamente com grosserias e ignorâncias. Faria um bem enorme o país não precisar aturar tanto ranço autoritário e besteirol supremo de parte dos dirigentes petistas, do presidente Lula e seus auxiliares.
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E para encerrar, reproduzimos trecho final do Editorial da Folha de São Paulo que resume bem alguns bons ensinamentos para Lula ler e refletir:
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Debite-se à camarilha presidencial -que atua o quanto pode para proteger Lula do contato com quem o possa contradizer- parte do despreparo do presidente no trato com a imprensa. A outra parte deve ser lançada na conta do próprio líder petista, que não esconde o seu incômodo sempre que exposto ao debate aberto, com interlocutores que não estão ali para enaltecê-lo.
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Não faz bem para as instituições democráticas essa tentativa de culto à personalidade. Lula e seu círculo de assessores enveredaram pela mistificação do líder político, transformando-o num ícone quase religioso, a quem não se pode questionar. Tal comportamento está na contramão da moderna política republicana, que não pode dispensar a prestação de contas do governante máximo.
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Lula não prestará um favor à imprensa se mudar de atitude e abrir-se ao contraditório num hipotético segundo mandato. Apenas passará a cumprir uma obrigação do presidente da República para com a sociedade”.