Marcelo Sperandio
VEJA
Acusado de desviar recursos dos cofres municipais, Antônio Cordeiro, prefeito e candidato à reeleição em Minas, pede votos usando uma tornozeleira eletrônica
(Foto: Rodrigo Oliveira)
Antonio Cordeiro -- em campanha,
e monitorado pela Polícia Federal
O vasto anedotário da política nacional, no igualmente farto capítulo das malfeitorias, já incluía personagens tão curiosos quanto o “homem do dólar na cueca”, Silvinho Land Rover, os aloprados e o impagável “Vavá dá dois pau pra eu”. Agora, um novo tipo vem juntar-se a essa galeria.
Um passo à frente, por favor, Toninho Tornozeleira. A população de Coração de Jesus, município no norte de Minas Gerais, assim apelidou o seu prefeito, Antônio Cordeiro (PSDC). Candidato à reeleição, ele foi afastado do cargo por denúncias de corrupção e, desde a semana passada, é obrigado pela Justiça a andar com uma tornozeleira eletrônica – aquele acessório destinado a evitar que criminosos que escaparam por pouco da prisão escapem também do radar da polícia.
(Foto: Rodrigo Oliveira)
TEMPO REAL --
A tornozeleira de Toninho
A PF descobriu, em junho, que um esquema atribuído a Toninho surrupiou 2,7 milhões de reais de verbas federais destinadas à prefeitura. O dinheiro vinha de dois convênios com o Ministério da Integração Nacional. Um contrato, de 2009, destinou 1,2 milhão de reais à reconstrução de uma ponte e à reforma de duas barragens. Outro, de 2010, no valor de 1,5 milhão de reais, previa a recuperação de 100 quilômetros de estradas vicinais.
Segundo a polícia, nenhuma obra foi realizada, e o dinheiro acabou repartido entre Toninho, o contador da prefeitura (seu atual candidato a vice), o secretário municipal de Transportes e os donos das duas construtoras que venceram as licitações fraudulentas. Cada um teria amea¬lhado 540 000 reais.
Durante a investigação, servidores e empresários disseram que estavam sendo ameaçados pelo grupo do prefeito para mentir nos depoimentos e negar os desvios. A PF pediu, então, a prisão dos envolvidos. A Justiça rejeitou a solicitação, mas impôs medidas alternativas: afastou Toninho e os dois assessores dos cargos, mandou-os ficar a pelo menos 100 metros da prefeitura e proibiu o contato entre eles.
Para verificar se as ordens estão sendo cumpridas, determinou que os três utilizem tornozeleiras eletrônicas – monitoradas em tempo real na tela dos computadores da PF. Se alguma condição for violada, um alerta será disparado automaticamente – e o infrator pode ir para a cadeia.
Monitoramento da PF --
Tela do computador que mostra por onde anda
o candidato a reeleição Toninho Tornozeleira
O monitoramento não tem prazo estabelecido. A Justiça decretou o uso do equipamento até o fim das investigações, ainda sem previsão de conclusão. Toninho Tornozeleira nega todas as acusações: “Sou vítima da maior perseguição política da história do Brasil”.
Enquanto isso, o prefeito afastado tenta reverter a decisão por conta própria. Depois de cruzar 500 quilômetros de estrada, passou a última semana inteira em Brasília, articulando com amigos e apoiadores o fim do seu “constrangimento”, como ele diz.
Sobre isso, afirma o delegado da PF Marcelo Freitas: “O político deveria ficar constrangido por roubar dinheiro público, não por usar uma tornozeleira”. E a galeria cresce…
COMO TRANSFORMAR UM PÂNTANO EM UM NEGÓCIO DE 12 MILHÕES
A VISÃO QUE O PODER DÁ --
Onde só havia lama, o deputado ergueu 128 apartamentos
Desvio de verbas, caixa dois, superfaturamento, emprego de parentes, fraudes em licitações… Os esquemas montados por corruptos para embolsar o dinheiro público são conhecidos – e cada vez mais manjados.
Para despistarem os órgãos de controle e continuarem se beneficiando de falcatruas, os políticos precisam inovar. Foi o que fez o deputado federal Luiz Carlos Setim, do DEM do Paraná. Entre 1997 e 2004, ele foi prefeito de São José dos Pinhais, cidade vizinha a Curitiba, sede do aeroporto internacional do Paraná e de uma fábrica da Renault.
Assim que tomou posse, sua filha Luciana comprou 76 lotes de terra, somando mais de 75 000 metros quadrados, no bairro Cidade Jardim, por 144 000 reais. Na época, ninguém entendeu o negócio, já que a área era pantanosa e se alagava com as cheias do Rio Iguaçu, que separa Curitiba de São José. Meses depois, porém, o governo do estado deu início às obras de um canal que desviou o curso do rio e acabou com as cheias.
Como prefeito, Setim tinha pleno conhecimento do projeto do governador. A área começou a se valorizar, mas havia ainda um problema: o plano diretor da cidade impedia imóveis residenciais no bairro. Em 2008, tudo foi resolvido. O sucessor de Setim, Leopoldo Meyer, que tinha sido seu secretário de obras, mudou o zoneamento, permitindo a construção de prédios.
O deputado, então, passou os terrenos para o nome de sua empresa, a Carioca Participações. E deu o último lance de seu plano: conseguiu financiamento do Minha Casa Minha Vida, programa do governo federal, para construir o Residencial Primavera, com 128 apartamentos de dois quartos, no local onde, quinze anos atrás, havia um pântano.
Com a venda dos apartamentos, no ano passado, ele lucrou 12 milhões de reais, em uma valorização de 8 233% desde a compra do terreno. Setim está em campanha para voltar à prefeitura e ter acesso a novas e lucrativas informações privilegiadas.



