quarta-feira, setembro 19, 2012

Com rastro de sangue, fúria islâmica completa uma semana

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Filme que ridiculariza Maomé foi o estopim dos protestos, que tomaram o mundo árabe e já deixaram pelo menos 25 mortos - 12 deles só nesta terça-feira

Massoud Hossaini/AFP
Destroços do veículo que levava 12 trabalhadores estrangeiros e
 sofreu um ataque suicida deixando 10 mortos em Cabul, Afeganistão 

Há uma semana, exatamente quando os ataques do 11 de setembro completavam 11 anos, um episódio mostrou ao mundo que a fúria antiamericana está longe de ter terminado. Naquela noite, em Bengasi, na Líbia, um atentado ao consulado americano deixou quatro mortos,incluindo o embaixador J. Christopher Stevens, em protesto contra o filme Innocence of Muslims (A Inocência dos Muçulmanos, em tradução livre do inglês), produzido nos Estados Unidos e considerado ofensivo ao Islã. Desde aquele dia, quando ainda não era possível vislumbrar o tamanho da crise que se avizinhava, confrontos violentos têm sido registrados em todo o mundo árabe e em países de maioria muçulmana. O rastro de sangue da revolta já apresenta um saldo de pelo menos 25 mortos - 12 deles apenas nesta terça-feira, em Cabul, no Afeganistão.

O controverso trailer postado no Youtube, criticado até pelo presidente Barack Obama e considerado "repugnante e condenável" por sua secretária de Estado, Hillary Clinton, deixa evidente, também, que a onda antiamericana só precisa de uma faísca para incendiar uma relação historicamente tensa. “Para mim, não é pelo filme, é mais pelo acúmulo de violações dos Estados Unidos no Iêmen”, tentou justificar, à rede britânica BBC, um manifestante iemenita.Sanaa, capital do país, foi palco, na quinta-feira, de outra batalha sangrenta: após invadir a embaixada americana, centenas de manifestantes incendiaram veículos e enfrentaram a polícia. Quatro pessoas morreram.

As raízes do fundamentalismo islâmico moderno, que existe há mais de quatro décadas, estão fincadas justamente em um dos primeiros países a protestar contra o filme, e que elegeu a Irmandade Muçulmana à Presidência: o Egito. Começou depois que o Exército egípcio perdeu a Guerra dos Seis Dias para Israel, fiel aliado de Washington. Foi no Cairo que, há uma semana, pouco antes do confronto na Líbia, manifestantes invadiram a embaixada dos EUA e rasgaram bandeiras americanas. Quatro pessoas foram presas.

Nesta terça-feira, os protestos prosseguiram em Bangcoc, na Tailândia, e na Caxemira indiana. Enquanto isso, os líderes ocidentais tentam conter uma maré de indignação que deixou todos alarmados. A chanceler alemã, Angela Merkel, expressou na segunda-feira o seu desejo de que não seja exibido em seu país o vídeo anti-Islã e defendeu a necessidade de proteção das representações diplomáticas, que não devem reduzir suas atividades por causa das ameaças.

Sua recomendação foi ignorada pelo partido de extrema-direita "Pro Deutschland" que, poucas horas depois, colocou o vídeo em seu site, embora o acesso fosse bloqueado uma hora depois, aparentemente pelo próprio grupo.  No último sábado, o Google decidiu manter na internet o vídeo, apesar de uma solicitação da Casa Branca para retirá-lo do YouTube. A empresa bloqueou o acesso ao vídeo em países como a Índia, Indonésia, Líbia e Egito, por ordens judiciais e dos governos.

EUA - O presidente dos EUA, Barack Obama, voltou a insistir que a segurança das representações diplomáticas é prioridade em comunicado aos embaixadores de seu país. Uma tarefa árdua, depois que a Al Qaeda pediu aos muçulmanos que matem mais diplomatas americanos.

A ira islâmica reacende pouco mais de um ano após as revoltas árabes de 2011, quando Tunísia e Egito derrubaram velhos ditadores em mobilizações populares. Na Líbia, uma ditadura acabou depois que o Ocidente ajudou a matar o tirano que estava no poder há décadas. No entanto, a fase de vazio no poder – na qual a Líbia ainda se encontra – enfraqueceu a força policial, agora incapaz de conter a fúria fundamentalista.

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"A Inocência dos Islâmicos", filme que motivou protestos em vários países


"Innocence of Muslims" (A Inocência dos muçulmanos, em tradução livre), filme produzido nos Estados Unidos sob a suposta direção de Nakoula Basseky Nakoula. Ele seria um cristão copta egípcio residente nos Estados Unidos, mas sua verdadeira identidade e localização ainda são investigadas. O filme, de qualidades intelectual e cultural amplamente questionáveis, zomba abertamente do Islã e denigre a imagem de Maomé, principal nome da religião muçulmana.

A Casa Branca lamentou o conteúdo do material, afirmou não ter nenhuma relação com suas premissas e ordenou o reforço das embaixadas americanas.

Dirigido e produzido por Sam Bacile. Filme completo, sem cortes.