Filme que ridiculariza Maomé foi o estopim dos protestos, que tomaram o mundo árabe e já deixaram pelo menos 25 mortos - 12 deles só nesta terça-feira
Massoud Hossaini/AFP
sofreu um ataque suicida deixando 10 mortos em Cabul, Afeganistão
Há uma semana, exatamente quando os ataques do 11 de setembro completavam 11 anos, um episódio mostrou ao mundo que a fúria antiamericana está longe de ter terminado. Naquela noite, em Bengasi, na Líbia, um atentado ao consulado americano deixou quatro mortos,incluindo o embaixador J. Christopher Stevens, em protesto contra o filme Innocence of Muslims (A Inocência dos Muçulmanos, em tradução livre do inglês), produzido nos Estados Unidos e considerado ofensivo ao Islã. Desde aquele dia, quando ainda não era possível vislumbrar o tamanho da crise que se avizinhava, confrontos violentos têm sido registrados em todo o mundo árabe e em países de maioria muçulmana. O rastro de sangue da revolta já apresenta um saldo de pelo menos 25 mortos - 12 deles apenas nesta terça-feira, em Cabul, no Afeganistão.
O controverso trailer postado no Youtube, criticado até pelo presidente Barack Obama e considerado "repugnante e condenável" por sua secretária de Estado, Hillary Clinton, deixa evidente, também, que a onda antiamericana só precisa de uma faísca para incendiar uma relação historicamente tensa. “Para mim, não é pelo filme, é mais pelo acúmulo de violações dos Estados Unidos no Iêmen”, tentou justificar, à rede britânica BBC, um manifestante iemenita.Sanaa, capital do país, foi palco, na quinta-feira, de outra batalha sangrenta: após invadir a embaixada americana, centenas de manifestantes incendiaram veículos e enfrentaram a polícia. Quatro pessoas morreram.
As raízes do fundamentalismo islâmico moderno, que existe há mais de quatro décadas, estão fincadas justamente em um dos primeiros países a protestar contra o filme, e que elegeu a Irmandade Muçulmana à Presidência: o Egito. Começou depois que o Exército egípcio perdeu a Guerra dos Seis Dias para Israel, fiel aliado de Washington. Foi no Cairo que, há uma semana, pouco antes do confronto na Líbia, manifestantes invadiram a embaixada dos EUA e rasgaram bandeiras americanas. Quatro pessoas foram presas.
Nesta terça-feira, os protestos prosseguiram em Bangcoc, na Tailândia, e na Caxemira indiana. Enquanto isso, os líderes ocidentais tentam conter uma maré de indignação que deixou todos alarmados. A chanceler alemã, Angela Merkel, expressou na segunda-feira o seu desejo de que não seja exibido em seu país o vídeo anti-Islã e defendeu a necessidade de proteção das representações diplomáticas, que não devem reduzir suas atividades por causa das ameaças.
Sua recomendação foi ignorada pelo partido de extrema-direita "Pro Deutschland" que, poucas horas depois, colocou o vídeo em seu site, embora o acesso fosse bloqueado uma hora depois, aparentemente pelo próprio grupo. No último sábado, o Google decidiu manter na internet o vídeo, apesar de uma solicitação da Casa Branca para retirá-lo do YouTube. A empresa bloqueou o acesso ao vídeo em países como a Índia, Indonésia, Líbia e Egito, por ordens judiciais e dos governos.
EUA - O presidente dos EUA, Barack Obama, voltou a insistir que a segurança das representações diplomáticas é prioridade em comunicado aos embaixadores de seu país. Uma tarefa árdua, depois que a Al Qaeda pediu aos muçulmanos que matem mais diplomatas americanos.
A ira islâmica reacende pouco mais de um ano após as revoltas árabes de 2011, quando Tunísia e Egito derrubaram velhos ditadores em mobilizações populares. Na Líbia, uma ditadura acabou depois que o Ocidente ajudou a matar o tirano que estava no poder há décadas. No entanto, a fase de vazio no poder – na qual a Líbia ainda se encontra – enfraqueceu a força policial, agora incapaz de conter a fúria fundamentalista.
******
"A Inocência dos Islâmicos", filme que motivou protestos em vários países
"Innocence of Muslims" (A Inocência dos muçulmanos, em tradução livre), filme produzido nos Estados Unidos sob a suposta direção de Nakoula Basseky Nakoula. Ele seria um cristão copta egípcio residente nos Estados Unidos, mas sua verdadeira identidade e localização ainda são investigadas. O filme, de qualidades intelectual e cultural amplamente questionáveis, zomba abertamente do Islã e denigre a imagem de Maomé, principal nome da religião muçulmana.
A Casa Branca lamentou o conteúdo do material, afirmou não ter nenhuma relação com suas premissas e ordenou o reforço das embaixadas americanas.
Dirigido e produzido por Sam Bacile. Filme completo, sem cortes.
