sexta-feira, abril 15, 2011

Dilma pisa feio na bola ao abordar, na China, a questão dos direitos humanos

Ricardo Setti, Veja Online

Dilma ao lado do presidente chinês, Hu Jintao:
"todos os países têm problemas ligados aos direitos humanos"

Amigos, eu juro que pretendia escrever um post light sobre a visita da presidente Dilma à China, comentando o positivo que estão sendo os acordos comerciais e outros em montagem e acerto e, principalmente, o fato de que o colosso asiático disse “compreender e apoiar” a aspiração brasileira de “vir a desempenhar papel mais proeminente nas Nações Unidas”.

Os chineses estiveram a um milímetro de apoiar com todas as letras a velha aspiração brasileira de ter assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, e isso representa um avanço importante da diplomacia brasileira.

Mas a presidente pisou feio na bola, em sua breve entrevista após o encontro que manteve com o presidente chinês, Hu Jintao, na questão dos direitos humanos. Pois não é que ela afirmou manter em relação à ditadura chinesa sobre direitos humanos postura semelhante à que apresentou em relação aos Estados Unidos durante a visita do presidente Barack Obama, no mês passado?

Digamos que Dilma não é propriamente uma maravilha de clareza quando fala, mas, sem entrar em mais detalhes, ela disse aos jornalistas:

– Temos [com a China] a mesma posição que tivemos com os Estados Unidos.

(Será que, com Obama, ela tocou na questão dos prisioneiros sem condenação na Justiça e sem prazo para serem julgados que estão encarcerados há anos na base americana de Guantánamo, em Cuba, acusados de terrorismo? )

Mais à frente, colocando coisas muito diferentes no mesmo saco, ela acrescentou:

– Todos os países têm problemas ligados aos direitos humanos.

Dilma, distraída, esqueceu que a China é um Estado policial feroz
Deus do céu, Dilma anda muito distraída. Poi parece que a presidente comparou mesmo a situação dos direitos humanos nos Estados Unidos, um dos países mais livres do mundo, com o Estado policial feroz que é a a China, ponto negro em destaque em qualquer relatório da Anistia Internacional, com censura total à imprensa e às artes, controle da internet, prisão e desaparecimento de dissidentes, fuzilamentos arbitrários, ausência completa de liberdades públicas e por aí vai.

Caras de pau nesse assunto, como sempre, os chineses emitiram nota conjunta com o governo brasileiro segundo a qual os dois países se comprometem a “fortalecer as consultas bilaterais, promover o intercâmbio de experiências e boas práticas” e lutar pelos direitos humanos, principalmente no que se refere ao combate à pobreza – a velha história, defendida durante a ditadura militar no Brasil, de que propiciar comida, eletricidade e emprego é defender os direitos humanos.

Já a Europa se preocupa com os abusos
Infelizmente para a presidente Dilma, coincidiu de, neste mesmo dia, o pedaço mais civilizado do mundo – a União Europeia – exprimir funda inquietação exatamente com os direitos humanos na China, por intermédio da chefe de sua diplomacia, a britânica Catherine Ashton, que se declarou “profundamente preocupada” pela detenção do famoso artista plástico chinês Ai Wei Wei (que expôs na última Bienal de São Paulo) e de outros ativistas do país asiático.

Em comunicado que divulgou hoje, Ashton afirma que a situação dos direitos humanos na China piorou após as recentes medidas repressivas contra um “amplo número” de dissidentes, entre os quais advogados, escritores, jornalistas, artistas e blogueiros, que “foram objeto de detenções arbitrárias ou outra forma de assédio, ou simplesmente desapareceram”. Lamentou também a condenação de críticos do governo a longas penas de prisão e as “novas restrições ao trabalho de jornalistas estrangeiros” impostas por Pequim.

No documento, Ashton o caso Wei We, dizendo estar “alarmada” por sua prisão.

Seria melhor a presidente não ter dito nada
Dilma, vítima ela própria de violação brutal dos direitos humanos na época da ditadura, conforme todo mundo sabe, não disse um “a” sobre nada disso, nem lançando mão da linguagem metafórica e repleta de curvas da diplomacia.

Não era obrigatório que cutucasse essa enorme ferida exposta da ditadura chinesa, durante uma visita em que, em alguns aspectos, o Brasil estava de pires na mão. Mas então que silenciasse de todo sobre o tema direitos humanos.