quinta-feira, outubro 04, 2007

Os censores segundo o MEC

Adelson Elias Vasconcellos, Comentando a Notícia

No post anterior, dissemos que Haddad empurrava Para as costas dos professores as escolhas dos livros didáticos financiados pelo governo do vossa excelência. Se tal fosse verdadeiro, seria um absurdo o MEC ficar refém das “opiniões” da categoria. Ou seja, no nosso entendimento, o MEC deveria fazer uma prévia escolha com os professores indicando ou sugerindo, e depois o ministério constituiria uma comissão para avaliação final, e seus indicados reunissem e se enquadrasse na qualidade que se deseja tenha um livro didático, então trataria de autorizar sua compra junto aos editores. Mas qual? O pacote, quando chega aos professores, já chega pronto. Cabe aos professores darem uma chancela à farsa, e depois assumirem a culpa pela escolha.

Vamos a três depoimentos feitos no blog do Reinaldo Azevedo. Primeiro depoimento.

Posso responder a algumas destas perguntas, tio Rei, pois sou professor e diretor de escola e já participei destas escolhas. Minha área é língua portuguesa:
- Quem os envia aos professores?
As editoras enviam às escolas.

- Há uma pré-seleção?
Se há, é por parte das editoras, mas recebemos várias coleções de cada disciplina e de cada editora para fazer a escolha. Também recebemos uma avaliação do MEC sobre cada uma das coleções do programa. Quem faz esta avaliação eu não sei.

-As editoras fazem seu lobby nas escolas e aguardam a resposta dos professores?
Fazem. Já recebi, como diretor de escola, proposta de participar de sorteio para viagens à praia com tudo pago se, é claro, a minha escola escolhesse certa coleção. Também mandam coleções para a casa dos professores e brindes às vezes. Ligam muito para as escolas perguntando aos diretores se a escolha já foi feita, se já vimos tal coleção. Tanto que a Secretaria de Educação enviou ofício às escolas proibindo-nos de fornecer tais informações.

- Quem é o encarregado, no ministério, de ouvir os professores?
Não sei se existe, pois nunca fui ouvido ou procurado.

- Participa quem quer?
Da parte das escolas, sim. Se quiserem, os pais podem participar, mas a escolha sempre é feita somente por professores.
Tio Rei, quer ver porcaria em matéria de livro didático? Veja os livros didáticos públicos para o ensino médio que o governo do Paraná alardeia terem sido escritos pelos professores. É verdade; foram, sim. Conheci alguns dos tais professores. A catchiguria estava pessimamente representada.

Reparem que fica claro que a gincana é livre. É o lobby das editoras que atua junto aos professores, para empurrar sua bugigangas. Depois o MEC referenda o que quer. Vamos ao segundo depoimento.

Fala um outro educador do Paraná

"Conheço bem os livros públicos do PR. Oriento professores da rede estadual do estado, os quais têm de passar toda a matéria no quadro, pois os tais livros não prestam: ficam guardados em casa. O pior é que os PROFESSORES SÃO PROIBIDOS DE SOLICITAR QUE OS ALUNOS COMPREM OUTRO LIVRO. Os livros estão servindo como tema de artigos científicos enviados a revistas internacionais da área de educação, denunciando a tirania e a cegueira reinantes no Paraná."

Aqui fica claro que o livro didático virou reserva de mercado. E o que é pior: totalmente bancado com dinheiro público. Ou seja, mesmo que livros com qualidade, competência e seriedade sejam mais úteis de serem utilizados em sala de aula, tal não é permitido. Está proibido adotar-se outros livros que não constem da reserva mercado implantada pelo MEC. Alguma diferença para ditaduras ? Vamos ao terceiro depoimento:

- quem os envia aos professores?
R: As editoras, inclusive com brindes (livro do Chalita + bloquinho de notas).
- Há uma pré-seleção?
R:Bem,se quer saber da seleção de livros a ser enviada aos professores,sim. As editoras mandam os exemplares que estão no Guia do Mec. Nenhum outro. Se se refere à escolha dos incluídos no Guia, melhor perguntar às editoras. Parece que, depois de contratarem os autores para o projeto e formatado o produto (livro), alguns são enviados ao MEC, que tem equipes para análise.

- as editoras fazem seu lobby nas escolas e aguardam a resposta dos professores?
R: Fazem.Recebi em casa uma coleção de livros.O entregador que me alertou sobre a proibição de dar brindes e que os livros deveriam ser entregues ao professor e não mais nas escolas (concordo: os livros estavam sumindo), mas muita gente nas escolas ainda mete a mão nos livros antes de chegar aos professores.

- quem é o encarregado, no ministério, de ouvir os professores?
R: Também gostaria de saber, nunca me disseram. Nunca perguntaram. Eles mandam, professor engole e pronto. Falo no caso de escolas públicas> Não sei se professor da rede privada dá palpite.

- participa quem quer?
R: Se quer saber da escolha, na ponta (escola),não. Somos obrigados, inclusive pressionados por prazos, pra resposta (escolha).

- quando e em quais casos um livro pode ser retirado do programa?
R: Se não se enquadrarem nos pressupostos teóricos do MEC nem entram no programa. Basta perguntar para autores que foram retirados (se já tinham sido aprovados em 99, por exemplo, por que não foi em 2002?). Será que autores mortos não prestam mais?

Reafirmo: não temos, na prática, liberdade de escolha, pois, se não optarmos por uma das coleções do Guia do MEC/FNLD, não mandam livro nenhum para os alunos. As escolas recebem um formulário-padrão onde são colocados os códigos dos livros. Todo esse processo está no site do MEC,basta procurar lá no link do FNDE/PNLD: orientações, lista, resenhas, tudinho. Poucos professores lêem aquilo. Tem gente que nem sabe ligar o PC, quanto mais baixar arquivos e ficar lendo na telinha. Às vezes, mas bota assim “às vezes”, a escola imprime uma cópia e deixa à disposição dos professores, porém poucos têm tempo pra ler aquele catatau de informações. Pegam logo os livros, olham o índice, quando muito um dos volumes da série, e escolhem ou porque já conhecem ou porque é novidade...

Se algum disser que leu todas as amostras, de cabo a rabo, tá mentindo, Rei. É humanamente impossível num tempo tão curto. Nem levar pra casa, pra ler com calma, comparar etc. Algumas escolas permitem, quando o professor é efetivo, mas, no geral, a leitura é feita no local, na escola, no horário do almoço, quando fica no colégio o dia todo ou quando chega uns minutos antes e não precisa ir correndo rodar material pra usar nas aulas.

Bem ao leitor cabe tirar as conclusões que os depoimentos inserem. Não há dúvida que, no mínimo dos mínimos, houve “descuido” da parte do MEC na escolha dos livros. Resta uma questão: este descuido é proposital ou não ? É o que tentaremos responder no próximo post.