sexta-feira, março 21, 2014

Tão alta, tanto tempo

Míriam Leitão  
O Globo

É uma boa frase, a do presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, de que o Brasil não está condenado a uma inflação de 6% e que vai continuar perseguindo os 4,5%. Tudo o que se pode fazer é desejar boa perseguição. Contudo, seu mandato está terminando e, nos 38 meses em que ele está no cargo, seu melhor número foi 4,92%, em junho de 2012. Em 10 meses, estourou o teto.

Tombini disse que o país tem enfrentado secas e chuvas. Secas, chuvas, trovoadas e imprevistos sempre acontecem na economia. O ponto é exatamente este: se a inflação estivesse em 4,5%, o espaço de flutuação acomodaria esses e outros choques. Mas com a taxa insistentemente testando o teto, qualquer choque passa a ser um grande problema.

O presidente do BC não disse tudo o que sabe sobre a inflação. Como um bom economista, ele sabe que o Brasil está com uma taxa artificial, dado que alguns preços estão com inflação reprimida, principalmente os de energia e combustíveis. Se eles não estivessem controlados artificialmente a taxa acumulada em 12 meses estaria, provavelmente, acima do teto. Até 2015, pelas projeções do BC, o país continuará condenado a ficar bem acima do centro da meta.

E não é porque o PIB está crescendo. Pelos dados que Tombini mostrou ontem, o Brasil tem consistentemente crescido menos do que o mundo e muito menos do que os emergentes. Em 2014, ele espera para o Brasil um PIB no mesmo nível do ano passado, 2,3%, enquanto o mundo cresceu 3% em 2013 e crescerá 3,7% em 2014.

A grande questão é se o Brasil é um dos países mais vulneráveis ou não, como disse o Fed, banco central americano. Ele mostrou os bons indicadores, que o Brasil tem vários pontos fortes: um volume alto de reservas, de US$ 377 bilhões, e é credor líquido e não um devedor. Mesmo assim, o déficit em transações correntes cresceu rápido demais e essa trajetória é especialmente preocupante num país que tem baixo crescimento.

Os maiores problemas econômicos não são decorrentes da atuação do Banco Central, em si. Toda a contabilidade criativa, as metas declinantes e duvidosas do desempenho fiscal, as transferências excessivas para os bancos públicos foram decisões do Ministério da Fazenda. O incentivo ao consumo de veículos e de gasolina; a segunda temporada da série "campeões nacionais" — a primeira havia sido no governo militar — não foram decisões do Banco Central.

O que não pode é o presidente do BC apresentar o Brasil como vítima da incerteza internacional e apontar as sazonalidades normais de preços como uma explicação do fenômeno. Ela está alta porque o governo como um todo deu sucessivos sinais de que o Brasil não estava condenado a cumprir a meta; aceitava-se um pouco mais. Não é acaso uma taxa tão alta, tanto tempo.