quinta-feira, setembro 30, 2010

Educação e informação: ferramentas da democracia

Adelson Elias Vasconcellos

Na edição de ontem, mostramos algumas propostas feitas por especialistas sobre quais deveriam ser as prioridades de quem governará o Brasil nos próximos quatro anos.

Vimos que, apesar do esforço despendido desde 1995, e dos avanços que obtivemos em muitas frentes, com destaque para os avanços sociais e econômicos, o caminho a ser percorrido é bastante longo e exigirá da sociedade muito mais trabalho se o que se deseja é incluir o país no seleto rol de nações desenvolvidas.

Dez em cada dez especialistas apontam a educação como a prioridade número 1 para a qual deveremos centrar esforços. Por ela, muitas outras conquistas, reformas e avanços será possível obter. Para os leitores habituais deste blog, já se acostumaram com a máxima de que não há país desenvolvido com povo analfabeto.

E também se habituaram com um corolário desta máxima: jamais teremos um povo totalmente livre, enquanto apenas 15%, no máximo, de sua população não tiver acesso à informação de qualidade. É a informação, amparada em um bom nível educacional, que permite a todos exercerem sua cidadania com plenitude.

De forma conceitual, cidadãos todos são, trata-se de um direito natural. Mas o exercício não deve se uma concessão do Estado e, sim, fruto do esforço individual que cada um realizar. Ao Estado compete fornecer as ferramentas indispensáveis para cada um fazer suas escolhas e por elas responder. Assim, não é possível exigir numa eleição, por exemplo, consciência cidadão de pessoas que sequer sabem ler e escrever, ou quando conseguem fazê-lo, se veem alijadas do conjunto de informações necessárias para poderem escolher seus representantes políticos de forma consciente.

É por isso que, numa país livre, democrático, a censura à imprensa é uma aberração. Todos tem direitos de informar-se e, também, de informar. Todos são peças de um mesmo conjunto e, por ser assim, devem trabalhar de forma harmônica para que o conjunto se desenvolva. E, aí entra o papel da lei, para que ninguém invada o espaço de ninguém, que é o caminho para o bem comum, ou como quiserem, para o bem estar social.

O noticiário deste último mês trouxe a público dois acontecimentos que tiveram o dom de mudar os ventos da campanha. O primeiro foram as violações de sigilo fiscal. Informamos que apenas 50% dele haviam tomado conhecimento, mas que apenas 16% se diziam plenamente informados sobre o assunto. As pesquisas eleitorais mostraram que Dilma havia estacionado. Se as violações não tiveram o dom de mudar os rumos de uma provável vitória governista em 03 de outubro, pelo menos provocaram uma estabilização da candidata do Lula, até então crescente, como também fizeram com que Serra parasse de cair. E a se registrar: pouquíssimas pessoas neste país tem domínio sobre o que vem a ser sigilo fiscal, até porque a maioria sequer declara à Receita Federal seus rendimentos anuais.

Mas o caso Erenice Guerra, no coração do poder, este sim provocou uma reviravolta. Neste caso, o domínio do assunto já é mais amplo, tem peso maior na hora da escolha e tiveram o dom de mudar os ventos. Conforme a última pesquisa Datafolha revelou, Dilma sofreu queda em todos os estratos da população mas, principalmente, na camada em que a escolaridade e a informação já são um pouco melhor.

O que vem demonstrar é apenas confirmar a importância tanta da educação quanto da informação da informação. E é aí justamente que se confirma que o cidadão passa, de fato, a exercitar sua cidadania de forma plena. A se destacar que, afora o noticiário sobre a dona Erenice, os ataques bucéfalos de Lula contra a imprensa, sempre crivado de ódios e destemperos, revelou o lado negativo que a marquetagem tentou, este tempo todo, esconder. Arrancou-se uma máscara que tendia a se manter inatingível. Dilma ainda é a favorita e também a de melhor cotação até agora para sucessão de Lula. Porém, os festejos de vitória fácil e em primeiro turno, deverão ser adiados. Era tanta a certeza de vitória que, muito embora oficialmente se negasse, já havia lista de divisão de cargos no primeiro escalão.

Esqueceram duas coisas: uma, pesquisa eleitoral não é eleição propriamente dita. Ela revela um sentimento em determinadas camadas e em determinadas regiões. Não se pode comemorar ou cantar vitória baseado em pesquisas. A eleição ainda não acontecera, ninguém colocara ainda um voto sequer na urna. E, segunda, o povo por mais massa de manobra que ser, ainda é soberano senhor de sua vontade. Nem sempre acerta nem sempre erra, mas a escolha cabe a ele. Um dos grandes defeitos do senhor Luiz Inácio é achar que lhe cabe falar pelo voto e de ser o senhor da sua vontade. Não é. Não lhe foi delegado sequestrar a vontade popular que é livre para se manifestar, por mais que esta vontade possa ser induzida ao erro, por mais manipulação que se produza sua opinião.

Como venho dizendo há algumas semanas, Dilma é, apesar do esforço de Lula, uma desconhecida para a grande maioria. A grande nunca tinha ouvido falar desta senhora, até porque jamais participou de eleição alguma. Era uma aposta de Lula exclusivamente. De forma totalitária, ele arremeteu contra seu próprio partido, a impôs sem que ninguém pudesse contrariá-lo. E o que é pior: pouquíssimas pessoas conhecem o verdadeiro caráter e temperamento de Dilma. Para a maioria da população ela é um mistério.

Assim, na medida em que determinados temas como corrupção se aproximaram de seu gabinete, a informação acendeu um sinal de alerta no eleitorado. Dilma até pode vencer, seja em primeiro ou segundo turno. Mas, certamente, precisará de muito esforço para vencer a larga desconfiança da população cuja maioria, enfatizo, a desconhece por completo.

Assim, se consolida como defesa máxima de qualquer democracia a máxima de que, educação e informação, são as poderosas armas contra a tirania, as mistificações.

E, se for alguém da oposição que a sociedade brasileira escolher para suceder Lula, precisará abrir a caixa preta que se esconde nos subterrâneos do poder em Brasília, além de provocar uma limpeza geral na máquina pública. Porque, se não o fizer, corre o sério risco de, a exemplo de todos os governantes anteriores, serem sabotados em tempo integral, convivendo com instabilidade o tempo todo. Além, é claro, de aproximar-se mais da população para transmitir suas ideias, mensagens e informações, armas eficazes para combater mentiras, calúnias e oposição odiosa.