terça-feira, fevereiro 01, 2011

A guerra de Furnas

Lauro Jardim, Veja online

As disputas por cargos nos governos podem ocorrer de maneira mais ou menos ruidosa. Algumas delas, raras, não vazam para o distinto público. Em outras, a maioria, o embate público transcorre em níveis razoáveis de decibeis. E, de vez em quando, a coisa sai do controle da turma da boquinha e se transforma numa estridente e constrangedora torrente de ataques. A guerra que se desenrola pelo comando de Furnas enquadra-se na terceira categoria. Como acabará?

Antônio Palocci já avisou aos interessados (ou seja, PMDB e PT): Furnas será do PMDB, sim. Mas não de Eduardo Cunha. O governo quer que o PMDB indique uma lista tríplice de técnicos do setor e Dilma Rousseff faz a escolha final. Mas, repita-se, que os nomes apareçam sem as impressões digitais de Cunha.

O governo, porém, não quer decidir nada oficialmente antes da eleição para a presidência da Câmara, marcada para quarta-feira. Não é que não queira. Não deve, não pode. O motivo é que ninguém sabe o tamanho do porrete de Eduardo Cunha na eleição do dia 2. Ou, mais precisamente, qual é o tamanho da “bancada do Cunha”. Na legislatura passada, Cunha tinha uns 20 deputados-carneirinhos que votavam de acordo com suas instruções. E agora? Ninguém sabe ao certo se a bancada de Cunha emagreceu ou manteve-se. Aposta-se que, pelo menos neste início de legislatura, deve ter diminuído. Mas diante da eleição de um presidente da Câmara ninguém quer pagar para ver.

Na semana passada, Cunha esteve com Michel Temer. Estava com as duas mãos cheias. Numa, trazia defesa detalhada das acusações de irregularidades em Furnas que favoreceriam pessoas ligadas a ele, conforme dossiê confeccionado pelo PT fluminense. Na outra mão, levava um dossiê contra Valter Cardeal, diretor da Eletrobras e um dos quadros preferidos de Dilma no setor elétrico. É o estilo Cunha. Na sexta-feira passada, em conversa com um interlocutor sobre uma troca de acusações entre ele e o ex-aliado Anthony Garotinho, via twitter, Cunha demarcou:

- Vai ser baixaria? Tudo bem, topo qualquer parada.

Nos bastidores do governo o que se garante é que Dilma Rousseff decidiu mudar toda a diretoria de Furnas, um consórcio petista-peemedebista. Não é só. O governo quer também “matar esse poder e arrogância do Cunha”, na expressão pouco sutil de um ministro petista.

Diz-se que Dilma Rousseff detesta as intromissões de Eduardo Cunha nas negociações de cargos. Tem horror ao deputado. Assim, estaria liberada aos petistas a tentativa de “matar esse poder e arrogância do Cunha”. O controvertido deputado, porém, sobreviveu ao mesmo sentimento que sabidamente Lula nutria por ele. Como se movimenta bem pelas aleias peemedebistas e de alguns partidos satélites, tem mantido sua força.

De qualquer forma, o que se verá a partir de quarta-feira, quando o presidente da Câmara for finalmente escolhido, será uma espécie de caçada ao Cunha. Como o ousado deputado não está acostumado a apanhar calado, muita podridão não republicana pode ser destampada a partir dessa guerra.