quinta-feira, dezembro 20, 2012

Depreciação do câmbio impulsionou inflação de alimentos


Cristiano Romero  
Valor

A perda de valor do real frente ao dólar ao longo deste ano elevou a inflação de alimentos. Segundo cálculos da equipe de economistas do banco Credit Suisse, liderada por Nilson Teixeira, parte do aumento da inflação de alimentos no terceiro trimestre decorreu das elevações de preços de produtos sensíveis às oscilações dos preços de commodities agrícolas (por exemplo: carnes e derivados de grãos).

Isso derruba uma das principais teses da área econômica do governo para a aceleração da inflação nesse período — a de que o IPCA subiu, a partir de meados do ano, unicamente por causa de choques de oferta. Os choques, de fato, aconteceram, mas o que a equipe do Credit Suisse constatou é que a depreciação do câmbio maximizou os choques.

Em junho, o IPCA acumulado em 12 meses caiu para 4,9% (melhor resultado no ano). Em outubro, saltou para 5,5%. Uma decomposição do resultado de outubro mostra que o acréscimo de 0,6 ponto percentual na inflação acumulada até aquele mês foi provocado pelos seguintes fatores: carnes (14,9% de peso), outros alimentos (25,9%), commodities externas (28,9%) e commodities internas (29,4%).

“O impacto da depreciação cambial é maior sobre a inflação de carnes e derivados de commodities externas”, diz a equipe do Credit Suisse.

Os técnicos fizeram uma simulação para verificar se, retirada a influência do câmbio, a inflação teria sido a mesma. O que se verificou foi que, se a taxa de câmbio tivesse ficado estável em R$ 1,80 (valor de janeiro) ao longo de 2012, a inflação teria sido bem menor desde junho.

No caso de outubro, por exemplo, a inflação de alimentos acumulada em 12 meses chegou a 10,8%. Se a taxa de câmbio não tivesse se movido no período para R$ 2,05, com o beneplácito do governo, os alimentos teriam subido 9,1%, segundo os modelos do Credit Suisse.

O impacto não é desprezível. Nos 12 meses até outubro, o IPCA acumulou variação de 5,5%. Se a taxa de câmbio tivesse ficado estável em R$ 1,80, a inflação acumulada teria sido, nesse período, de 5,2%.

Isso explica por que, agora, o Banco Central (BC), preocupado com o efeito da desvalorização do real sobre a inflação, decidiu adotar medidas para atrair dólares, aumentar a liquidez e promover uma pequena apreciação do real. Entre setembro de 2011 e setembro deste ano, o câmbio teve depreciação de 30%.

Uma parte importante dessa desvalorização do real foi provocada por fatores não controlados pelo BC, como o aumento da aversão dos investidores estrangeiros a risco. Uma outra parte, entretanto, decorreu de medidas adotadas pelo governo para desvalorizar a moeda nacional e estimular a indústria.

Na segunda metade de novembro, o mercado levou a cotação do dólar a mais de R$ 2,10, motivado por declarações da presidente Dilma Rousseff e do ministro da Fazenda, Guido Mantega, de que a taxa ainda estaria apreciada. Para Mantega, o real ainda está 19% apreciado em relação ao dólar.

Nas duas últimas semanas, o BC sinalizou que não pretende mais deixar o câmbio ir a R$ 2,10 e que, na verdade, trabalha para trazer as cotações para algo mais próximo de R$ 2,00, embora esse patamar seja considerado, pelo ministro Guido Mantega, o piso da flutuação.

Para o BC, o câmbio passou a ser o principal instrumento para conter as pressões inflacionárias em 2013, uma vez que a taxa básica de juros (Selic) permanecerá estável (em 7,25% ao ano) por período “prolongado” e a política fiscal deixou de ser contracionista, o que dificulta o controle da expansão da demanda agregada.

A inflação tem surpreendido negativamente o BC. O IPCA-15, por exemplo, foi a 0,69% em dezembro, acima das expectativas também do mercado. No ano, o IPCA-15 fechou variação acumulada de 5,78%.

No mercado e no governo, a expectativa é que o IPCA de janeiro venha “carregado”. No primeiro caso, há projeção, entre firmas de investimento, de até 0,88%, o que seria começar o ano com uma inflação bastante elevada (em janeiro de 2012 foi de 0,56%).

Os economistas do Credit Suisse estimam que uma depreciação de 10% na taxa de câmbio eleva a inflação entre 0,35 e 0,61 ponto percentual. Utilizando modelos similares aos divulgados pelo BC, eles calcularam que os impactos são os seguintes: 0,42 ponto percentual no modelo semiestrutural de pequeno porte; 0,41 ponto percentual no semiestrutural de pequeno porte com crédito; 0,35 ponto percentual no de pequeno porte com crédito e inflação desagregada; e 0,61 ponto percentual no Samba (sigla em inglês para “modelo analítico estocástico com abordagem bayesiana”).