quinta-feira, abril 25, 2013

Dilma, o sol e a peneira


O Estado de S.Paulo

Com um despudor que daria inveja aos antigos coronéis da política brasileira, a presidente Dilma Rousseff nega que já esteja em campanha pela reeleição, "porque eu tenho obrigação durante 24 horas por dia de dirigir o Brasil". É de imaginar o que faria se estivesse. Abordada pela imprensa depois da abertura de uma exposição do músico Carlinhos Brown, anteontem no Palácio do Planalto - decerto uma pausa excepcional na sua inesgotável jornada de trabalho -, Dilma disse, ainda sem corar, que deve ser "a única pessoa que não tenha interesse em discutir o processo eleitoral na metade do seu governo".

Viagens e comícios disfarçados de solenidades pelo País afora, aparições no horário nobre, meticulosamente produzidas pelo seu marqueteiro João Santana, investidas recorrentes contra a oposição à maneira do seu patrono e mentor Lula - tudo isso, na versão da presidente, é "dirigir o Brasil". Na mesma categoria há de se enquadrar o casuísmo recoberto de suas digitais para limitar drasticamente o acesso dos novos partidos - a começar pela Rede Sustentabilidade da ex-ministra Marina Silva, em fase de coleta de assinaturas para a sua criação - ao horário de propaganda eleitoral e aos recursos do Fundo Partidário.

Na mesma terça-feira em que Dilma invocou as exaustivas obrigações que não lhe permitiriam "discutir o processo eleitoral", que dirá fazer campanha, a maioria governista na Câmara dos Deputados terminou de aprovar o projeto restritivo do deputado peemedebista Edinho Silva, ostensivamente encampado pelo Planalto. A proposta seria meritória, no combate à proliferação partidária, não fosse o seu objetivo reduzir o número de rivais da presidente nas urnas de 2014, para dar-lhe a vitória já no primeiro turno. É, por excelência, o caso de Marina. Na última disputa presidencial, concorrendo pelo nanico Partido Verde, ela amealhou perto de 20 milhões de votos, ou 19% do total.

Em si, a mudança das regras se justifica. As novas legendas não perdem o direito de arrebanhar quantos parlamentares queiram se filiar a elas, sem incorrer em infidelidade partidária. Descabido é o arranjo atual que facilitou a migração de dezenas de políticos para o PSD lançado em 2011 pelo então prefeito Gilberto Kassab. Isso porque, graças a uma insólita decisão do Supremo Tribunal Federal, ao arrepio da letra e do espírito da lei, eles puderam carregar na bagagem, como queria o governo, a parcela que lhes corresponderia de tempo de TV e dinheiro do Fundo, como se os seus mandatos lhes pertencessem e não às siglas pelas quais se elegeram.

Com a terceira maior bancada federal, a legenda cujo criador dizia não ser de esquerda, centro ou direita - mas assumidamente dilmista -, foi a quarta mais votada nas recentes eleições municipais. Agora, lado a lado com o PT e o PMDB, o PSD defende descaradamente a mudança da norma que o fez prosperar. As evidências que desnudam o oportunismo do projeto patrocinado pela presidente como parte de sua campanha são irrefutáveis. A primeira foi a rejeição, por 178 votos a 74, da emenda ao texto básico vitorioso na Câmara, semana passada, que adiaria para fevereiro de 2015 a sua entrada em vigor. A segunda é a sofreguidão da presidente em liquidar a fatura o quanto antes, em razão do que a base aliada no Senado dará à matéria regime de urgência, levando-a a plenário sem passar pelas comissões temáticas da Casa.

A terceira evidência foi a decisão da cúpula do PT de obrigar os seus senadores a votar na proposta como está, tão logo um deles, o próprio líder da bancada, Wellington Dias, fez saber que apoiava o adiamento da sua vigência para depois das eleições do ano que vem. A recém-surgida frente contra o casuísmo, aproximando os prováveis candidatos Aécio Neves, do PSDB, Eduardo Campos, do PSB, e Marina Silva, da Rede em formação, além de dissidentes do PMDB, não tem votos para prevalecer no Senado. Mas as suas denúncias, comparando o projeto ao "pacote de abril" baixado pela ditadura em 1977, que fechou temporariamente o Congresso, entre outras violências, são desmoralizadoras para Dilma. Assim também a sua patética tentativa de tapar o sol com a peneira.

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Em matéria de cara de pau, Dilma só não consegue superar a de Lula que é  imbatível em termos de hipocrisia. Mas aguardem o dia 1° de Maio e reflitam sobre o discurso presidencial comemorativo à data. Segundo se informa, Dilma pretende capitalizar, politicamente, a recente lei aprovada pelo Congresso concedendo direitos  trabalhistas aos trabalhadores domésticos.  É o velho PT cumprimentando com o chapéu alheio. 

Quando da aprovação de emenda constitucional que instituiu a reeleição  para cargos executivos nas três esferas da administração, fui um dos concordaram com a medida. Entendia que apenas 4 anos era pouco tempo para se tentar mudar alguma coisa no país. 

Hoje, começo a me  alinhar à ideia de Aécio Neves, de quem, por sinal, não sou muito fã, de revogar tal medida e estendendo os mandatos executivos para 5 anos.  Dilma, na verdade, tentou governar o país em apenas meio mandato, dedicando a outra metade apenas visando sua reeleição. As reformas estruturais que tanto o Brasil precisa para dar um impulso novo e virtuoso ao seu desenvolvimento foram esquecidas, pelo temor de perder capital político.

Um estadista deve fazer o que é preciso e o que é certo em favor do país que dirige, e não apenas cuidar de seus currais eleitorais como tem sido praxe nos governos petistas. 

Oito anos para fazerem o que temos assistido é tempo demais para ser perdido na vala comum dos arranjos partidários em que o Palácio Planalto foi transformado. Hoje, não se governo “O” país, se governa “A” reeleição. Daí porque o governador Eduardo Campos, de Pernambuco, estar totalmente correto ao afirmar que dá para se fazer muito mais. Dá mesmo.