quinta-feira, abril 25, 2013

Déficit em transações correntes dobra no trimestre e bate recorde


Gabriela Valente 
O Globo
Com agências internacionais

Saldo negativo da balança comercial é responsável por mais da metade do crescimento do rombo
Gasto de turistas também atinge nível histórico de US$ 6 bilhões
Investimento estrangeiro no setor produtivo cai 11%

BRASÍLIA - Enquanto o Brasil assiste a uma queda da entrada de investimentos estrangeiros na economia, o rombo das contas externas explode. No primeiro trimestre, o déficit no resultado de todas as trocas de serviços e do comércio do país com o resto do mundo — as transações correntes — mais que dobrou, segundo dados do Banco Central (BC), divulgados nesta quarta-feira. Saltou de US$ 12 bilhões, nos três primeiros meses de 2012, para US$ 24,9 bilhões: o maior desde 1947, quando o BC começou a registrar os dados. O governo mantém o discurso que esse buraco é confortavelmente coberto pela entrada de recursos que chegam por transações financeiras. No entanto, o tipo de ingresso mais saudável, o investimento estrangeiro direto que aumenta a capacidade produtiva do país, não financia mais o déficit. Essas entradas somaram US$ 13,3 bilhões: 11% a menos que no primeiro trimestre do ano passado.

Esse rombo nas contas externas brasileiras tem vários motivos. O principal deles é a fraqueza do comércio exterior. O déficit da balança comercial é responsável por mais da metade do crescimento do desempenho negativo na conta corrente. Além disso, como a economia brasileira está aquecida, o país gasta bastante com serviços. E as filiais de multinacionais aumentaram as remessas de lucro ao exterior.

O turista brasileiro deu uma contribuição recorde para a explosão do rombo nas contas externas. Gastou US$ 6 bilhões em viagens internacionais somente nos três primeiros meses do ano. Nunca a despesa com turismo no exterior foi tão alta.

O Banco Central admite que o rombo nas contas externas está numa rota de crescimento. No entanto, diz que a situação não preocupa.

— É verdade que estamos com um nível mais alto neste ano, mas era previsível — afirmou o chefe do Departamento Econômico do BC, Túlio Maciel. — Mas as condições são confortáveis para o financiamento do déficit.

No mês passado, o rombo chegou a US$ 6,9 bilhões: 109% a mais que no mesmo mês de 2012. Maciel argumenta que o investimento ainda se mantém robusto. Entraram em abril US$ 5,8 bilhões. Ele diz que esse ritmo visto até agora é consistente com a previsão de US$ 65 bilhões até o fim do ano.

— Normalmente, os primeiros meses do ano são mais fracos — ponderou ele, para quem o país apresenta uma “atratividade sistêmica” de recursos internacionais.

Gastos de turistas aumentam 15%
Em março, os gastos de brasileiros em viagem ao exterior aumentaram 15% e chegaram a US$ 1,870 bilhão. É o maior resultado para o período na série histórica do BC, iniciada em 1969. Em março de 2012, as despesas ficaram em US$ 1,627 bilhão.

De acordo com Maciel, o aumento da renda dos brasileiros tem favorecido as viagens ao exterior. Segundo ele, os dados parciais de abril indicam continuidade do crescimento dessas viagens. Até o dia 22 deste mês, os gastos de brasileiros no exterior ficaram em US$ 1,513 bilhão, enquanto as receitas de estrangeiros que visitaram o Brasil chegaram a US$ 454 milhões.

As receitas de estrangeiros em viagem no Brasil totalizaram US$ 599 milhões, em março, contra US$ 630 milhões no mesmo mês do ano passado, recuo de 4,9%. De janeiro a março, essas receitas ficaram em US$ 1,917 bilhão, ante US$ 1,920 bilhão nos três meses do ano passado.

Com esses resultados, a conta de viagens internacionais fechou março negativa em US$ 1,271 bilhão, com avanço de 27,5% frente a março de 2012, e o primeiro trimestre, em US$ 4,105 bilhões.

Segundo o BC, com os gastos dos brasileiros no exterior, a conta de serviços registrou déficit de US$ 3,7 bilhões em março, 14,8% superior ao observado no mesmo mês de 2012. As despesas líquidas com transportes somaram US$ 709 milhões, acréscimo de 11,5%, na mesma comparação.

Além das viagens ao exterior, as despesas com o aluguel de equipamentos avançou 11,5%, e as com seguros registrou alta de 18,6%. Em sentido inverso, houve recuo nas despesas líquidas com computação e informações, 29,8%, e com royalties e licenças, 15,3%. As receitas líquidas de outros serviços somaram US$746 milhões.

As remessas líquidas de renda para o exterior somaram US$ 3,5 bilhões no mês, número maior que os US$ 2,4 bilhões no mesmo mês do ano passado.

As empresas também enviaram seus lucros para o exterior. A quantia somou US$ 2,7 bilhões, alta de 39% em relação ao mesmo mês do passado.

O BC informou ainda que os Investimentos Estrangeiros Diretos (IED) no país somaram US$ 5,739 bilhões no mês passado, acima do previsto por analistas, de US$ 4,2 bilhões. Os investimentos brasileiros diretos no exterior registraram, no mês, aplicações líquidas de US$ 2 bilhões.

O país chegou ao fim do março com um estoque de US$ 376,9 bilhões em suas reservas internacionais, em um avanço de US$ 396 milhões ante o mês anterior. Já a dívida externa total estimada somou US$ 317,8 bilhões, acréscimo de US$ 4,9 bilhões em relação ao montante apurado para dezembro de 2012.